Escritora espanhola revela o papel das mulheres na ascensão e queda do Marquês de Pombal

Museu da Cidade de Lisboa

Retrato do Marquês de Pombal, 1766, por Louis Michel Vanlò e Claude Joseph Vernet

Retrato do Marquês de Pombal, 1766, por Louis Michel Vanlò e Claude Joseph Vernet

A escritora espanhola María Pilar Queralt del Hierro evidencia na obra “As Mulheres do Marquês de Pombal”, que é apresentado esta segunda-feira, em Oeiras, como o género feminino foi fundamental na ascensão e queda do estadista.

“As mulheres responsáveis tanto pela ascensão como pela queda de uma grande homem não estiveram ligadas a ele nem por laços de sangue nem por laços efectivos”, garante a escritora, apesar de reconhecer que o seu primeiro casamento, com Teresa de Mendonça e Almada, de condição social mais elevada, “o promoveria socialmente”.

“A vida amorosa do marquês de Pombal não foi excessivamente galante. Dois casamentos, pleno de aventura o primeiro e sereno e longo o segundo, descrevem-nos o estadista como um homem tranquilo, sem uma carnalidade arrebatadora nem outra paixão além da política”, atesta a autora.

A primeira mulher terá sido, realça a escritora, “a única paixão conhecida do marquês de Pombal”. Teresa era viúva e mais velha 11 anos que Sebastião José, quando este a raptou do convento onde estava e se casou secretamente com ela, devido à oposição da família da noiva.

María Pilar del Hierro afirma que terão sido “determinadas influências, às quais não foi alheia a família de Teresa”, que levaram a que fosse nomeado embaixador de Portugal em Londres em 1738. A mulher ficou em Lisboa e morreu no ano seguinte.

A segunda mulher que influenciou a vida de Sebastião José foi Maria Ana de Áustria, que casou com D. João V, e que o conheceu quando este era embaixador de Portugal em Viena, e “simpatizaram de imediato”.

“A Rainha [Maria Ana] tinha grandes planos” para Sebastião José, “como ficou demonstrado, quando da morte de D. João V”, em 1750 e o “recomendou ao seu filho o novo monarca [D. José]”.

Nesta data já Sebastião José tinha casado em segundas núpcias com a condessa austríaca Maria Leonor Ernestina von Daun, também sob os auspícios da Rainha.

“Não se tratou de um casamento de amor”, escreve a escritora que atesta que Pombal “não foi um homem galante”, mas “existiu entre os cônjuges uma grande cumplicidade”.

Às mulheres que ajudaram Sebastião José a tornar-se o homem de confiança do Rei D. José, Maria Pilar del Hierro acrescenta as “inimigas“. Logo na primeira fila a mulher do Rei, Mariana Vitória de Bourbon, e também Leonor de Távora e a Rainha D. Maria I, que sucedeu a D. José.

Mariana Vitória começou por antipatizar com o marquês por este ser próximo da sogra, e o que era “um simples antagonismo converteu-se em franco rancor depois do escândalo” provocado pela relação adúltera de D. José com D. Teresa de Távora, nora de Leonor de Távora, mulher “altiva, endinheirada, inteligente e culta”, descrita pela autora como uma “poderosa inimiga”, e que foi a “cabeça da reacção conservadora contra” Sebastião José.

Sebastião José de Carvalho mostrou-se diligente com um processo contra a família Távora, depois da tentativa contra a vida do Rei, atribuída à família, e foi nobilitado conde de Oeiras, mas desenhava-se já “o ocaso do ministro”, tanto mais que o “sangrento desenlace do processo dos Távoras teve repercussões em toda a Europa”.

Em 1777 deu-se a chamada “viradeira”, com a subida ao trono de D. Maria I, que logo mostrou “estar disposta a tomar medidas que conduziriam o marquês de Pombal ao ostracismo”, além de ter inocentado os Távora no fatídico processo.

Não respeitando o luto protocolar pela morte do Rei, “as ruas de Lisboa e das principais povoações do reino encheram-se de panfletos contra o marquês de Pombal”.

O então homem forte é desterrado para Pombal, onde veio a morrer, mas, salienta a autora, deixou uma herança intelectual que “foi particularmente cultivada nos círculos femininos”, as “iluminadas”, que abriram os seus salões à música, à literatura e ao debate político. Entre elas, refere a autora, Teresa Margarida da Silva e Orta (1711-1792), “a primeira escritora de ficção de língua portuguesa”, e a poetisa Leonor de Almeida, marquesa de Alorna (1750-1839).

O livro “As Mulheres do Marquês de Pombal”, que inclui árvores genealógicas, uma cronologia, cartas do marquês e um texto da marquesa da Alorna sobre as mulheres e o poder em Portugal no século XVIII, é apresentado na segunda-feira, às 18:30, no salão nobre do Palácio Marquês de Pombal, em Oeiras, numa sessão que conta com a participação da vereadora da Cultura, Marlene Rodrigues.

/Lusa

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