Entrevista: “Demorei 2 anos a aperfeiçoar o meu passe; os miúdos de Timor já jogam lindamente!”

Sara Moreira Silva é a líder da primeira escola de voleibol em Timor-Leste, que vai arrancar em janeiro de 2021. Fica aqui a perspetiva de uma portuguesa que vê muito talento entre os timorenses…que não têm pavilhões para poderem jogar.

Tem 34 anos, é portuguesa e está em Timor-Leste desde 2011. É professora de português mas, já depois de ter jogado voleibol na Académica de Coimbra durante oito anos, teve a sua primeira experiência enquanto treinadora em Timor, a partir de 2015.

Tem jogado pela equipa de voleibol do Parlamento Nacional de Timor-Leste mas o seu foco é, agora, a primeira escola de voleibol no país. O espaço, no Sport Díli e Benfica, vai acolher crianças e jovens dos 10 aos 15 anos. “A escolinha ensina voleibol, vai permitir que saiam daqui bons jogadores, mas só o facto de praticarem desporto já é bom”, analisa Sara Moreira da Silva, em entrevista ao ZAP.

ZAP – Já iniciaste as atividades da escola?
Sara – Durante estas três últimas semanas, desde o primeiro fim-de-semana de novembro, fizemos captação de jogadores. Arrancar efetivamente só em janeiro porque agora os miúdos estão em época de exames nas escolas e depois têm férias. Preparamos tudo agora, começamos em janeiro.

ZAP – Até agora houve só captações?
Sara – Captações e treinos ao mesmo tempo. Estivemos a mostrar o que é o voleibol, a ver o que podemos fazer para as crianças ganharem técnica. Tivemos poucos timorenses – e não era essa a nossa ideia, queríamos mais timorenses. Mas acho que vou conseguir ter uma equipa feminina entre 10 e 12 anos, só de timorenses. Todos aqui jogam voleibol mas não têm sítio para jogar, não têm professores… Não têm nada. Vão jogando na rua, vão jogando onde podem. Mas eles dominam o voleibol! É fantástico ver como é que eles conseguem… Eu estive dois anos a dar toques contra a parede para aperfeiçoar o meu passe e eles já jogam lindamente! Saltam muito, têm uma impulsão fantástica! Mas não há escolas de voleibol, cá. Todos os miúdos jogam nas escolas onde estudam. Passamos no meio do mato e encontramos uma rede de voleibol, ou num campo do cimento, ou no meio do nada. E porque não começar a tornar isto numa coisa séria? Quem sabe, daqui a uns tempos, a Liga de voleibol queira criar um campeonato para os mais novos.

ZAP – Há um campeonato nacional?
Sara – Há uma liga, mas só para seniores masculinos e femininos. Mas é uma coisa que dura três meses. Começou em outubro e vai acabar em janeiro, é pouquíssimo tempo. Depois há torneios da função pública, onde eu jogo, e há outras competições pequenas.

ZAP – Com quantos clubes?
Sara – Nem sei ao certo quantos clubes há. Sei que há a Académica, que me convidou para jogar, duas vezes. No ano passado estava lesionada, neste ano dei prioridade à criação da escola. Pedi desculpa, mas achei isto mais importante.

ZAP – Decidiste criar a escola porquê?
Sara – Em 2012 conheci o presidente do Sport Díli e Benfica, que é meu amigo, e sempre ficou a promessa de que iria tentar dinamizar o voleibol, já desde aí. Em 2015 cumpri a promessa e comecei a dinamizar a secção, estivemos em vários torneios. Tive uma equipa de jovens até 2017 mas não conseguimos inscrever a equipa na Liga. Acabei por desistir. Mas gosto muito de voleibol e acabei por voltar. Voltei a falar com o presidente do Sport Díli e Benfica e foi tudo muito rápido: falámos no início de outubro e já realizámos os primeiros treinos e captações.

ZAP – Foi mesmo rápido.
Sara – Foi. Falei depois com duas amigas minhas, que aceitaram, e estamos as três a liderar a escola. Não tínhamos bolas, nada. As bolas que tínhamos eram as minhas duas oficiais, uma de praia, outra de pavilhão. Fomos recebendo bolas emprestadas. E depois não há pavilhões aqui…

ZAP – Não há pavilhões para jogar voleibol?
Sara – A Liga joga-se dentro de um pavilhão que está a cair aos bocadinhos e que ninguém nos esclarece quem é a entidade responsável pelo espaço. Tudo o resto é ao ar livre. Se chover, adia-se o jogo ou espera-se que a chuva passe.

ZAP – Ligaste-te ao Sport Díli e Benfica, para a criação da escola de voleibol. Há outros clubes disponíveis para o mesmo efeito?
Sara – Neste momento só o Benfica é que está a mover-se e a apostar em várias modalidades, em várias idades: ciclismo, futsal e basquetebol. Além do futebol e agora do voleibol. Encontramos muitas equipas de escolas, de organizações, de institutos, ou de clubes pequenos dos municípios. Mas clubes mesmo… Há o Benfica, a Académica… Acho que existe o Boavista daqui. E existe o Sporting, cujo presidente também conheço, mas aí, quando ele sugeriu eu fazer o mesmo no Sporting, entrou o amor à camisola: sou adepta do Benfica. Além disso, acho que o Sporting está parado, que não tem atividades nenhumas agora.

ZAP – Então podias estar de volta à Académica.
Sara – Sim. Mas quando me deram a opção de escolher entre a Académica, clube onde joguei, e fazer alguma coisa pelo Benfica, aí disse: “Peço imensa desculpa mas o Benfica é o meu clube do coração, vou para o Benfica”. A Académica tem uma equipa de estudantes da universidade, que participam numa liga. E há a seleção de Timor-Leste, com jogadores com uma técnica fantástica!

ZAP – Em que clubes estão os jogadores da seleção?
Sara – Não faço ideia! Isto aqui é uma coisa… Não tem visibilidade, não tem nome, as pessoas não captam.

ZAP – Planos para 2021, na escola de voleibol?
Sara – Mais miúdos e mais timorenses. Temos crianças de diversas nacionalidades mas a maioria são portuguesas, filhas de portugueses amigos meus, que também trabalham cá. A minha ideia é: quanto mais timorenses, melhor, porque quero chamar um amigo para termos mais um treinador e para mantermos equipas de iniciação e com jogadores mais velhos. E há outras prioridades. Quero ter mais meninas do que meninos nos treinos, que já está a acontecer, já é importante. Quero também focar-me na higiene: muitas crianças não têm água em casa, eu queria criar balneários no nosso espaço. Também será importante a defesa pessoal e a segurança pessoal das meninas: vamos treinar à noite, como é que vão para casa? Não temos carrinha para as transportar, não tenho seguranças para as acompanhar, espero que os pais apareçam lá nos treinos. Só o facto de a menina querer ir treinar e o pai ir buscá-la…a menina começa a ter outra visibilidade na família.

ZAP – Todas as treinadoras são voluntárias?
Sara – Sim. É amor à modalidade. Gosto mesmo de voleibol. E, ainda para 2021, estou a tentar contactar com o Benfica daí para me enviarem algum material, ando a falar com a Académica outra vez porque, basicamente, do que preciso é de bolas de voleibol. E talvez de uma ou duas redes, das boas. E, em breve, acho que vou aproveitar um dos cursos de treinadora que a Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto de Timor-Leste proporciona. Não sou treinadora oficial. Fui lendo muito e aprendendo coisas com amigos. Mas agora vou tirar o curso de treinadora de voleibol. Apetece-me.

“Ser professor em Timor é ser um rei”

ZAP – O coronavírus tem condicionado os teus planos?
Sara – Não. Não há casos aqui. Continuamos em estado de emergência. Não há aviões, não conseguimos sair daqui, é horrível, as fronteiras estão fechadas, não recebemos correio… Os pontos da Austrália e Singapura, que fazem ligação com Timor, estão muito afetados. Por isso, estamos fechados aqui. Só existem voos de emergência e, de vez em quando, aparece um voo de Portugal para vir buscar portugueses. Mas não afetou nada porque não há qualquer tipo de prevenção especial. Lavamos as mãos, usamos máscara. Mas aqui as pessoas já utilizam naturalmente a máscara: ou quando estão doentes, ou quando há muito pó ou lixo nesta época das chuvas. Mas desde junho que temos uma vida praticamente normal.

ZAP – As crianças timorenses interessam-se pelo desporto?
Sara – Nos intervalos das aulas estão sempre a praticar desporto. Quando está muito calor, se começa a chover, os miúdos vão todos para a rua com uma bola de futebol, para jogar – e há bolas de cartão, de fita-cola… Andam todos a brincar na rua. Joga-se mais futebol, sim. Mas, ao mesmo tempo, em Timor há mais miúdos a jogar voleibol na rua do que há em Portugal. E jogam voleibol em qualquer canto. Quase sempre em cimento. Aquilo de nos atirarmos para o chão, de não ter medo de mergulhar para ir buscar a bola… Num pavilhão, sim. Aqui há medo, um pouco. Eu também tentei fazer isso num torneio, cá. Atirei-me para o chão…abri a perna, basicamente. Mas eles jogam, adoram o desporto. E o desporto é um complemento à tua educação, que aqui é muito importante. O espírito de equipa, lutar pelo mesmo: aqui são ideias muito importantes e leva-se muito a sério. E as crianças gostam mais de desportos coletivos do que individuais, isso é positivo.

ZAP – Como é a Sara, quando está longe do voleibol?
Sara – Sou professora de português mas nunca trabalhei em Portugal. Estou em Timor desde os 25 anos. Fui convidada pela Universidade de Coimbra, ainda estava a acabar o mestrado quando fui convidada. Era suposto serem três meses em Timor, já vou em nove anos. Trabalhei para a Universidade de Coimbra durante um ano e meio. Trabalhei com instituições do Estado daqui, depois em 2014 estive em África como voluntária e voltei a Timor no ano seguinte. Tenho trabalhado sempre na única universidade nacional que existe em Timor-Leste, a Universidade Nacional Timor Lorosa’e. Desde 2018 estou a trabalhar no Parlamento Nacional, também como professora: dou aulas de português a deputados e a funcionários do Parlamento.

ZAP – Ainda no mestrado e já convidada para ir para o outro lado do planeta?
Sara – As minhas professoras sabem que sempre quis ser professora de português em África. Isto não é África mas… Enquanto fazia mestrado, sempre disse que, para mim, era uma seca estar em Portugal. Achava que devia fazer algo mais, noutro sítio, onde fosse mais bem aproveitada. Iriam dar-me muito mais valor fora de Portugal do que em Portugal. Já havia um protocolo entre a Universidade de Coimbra e a Universidade Nacional de Timor; aqui estavam a precisar de professoras e pronto. Ainda hesitei mas vim.

ZAP – Como é estar em Timor-Leste?
Sara – É difícil. Já foi mais difícil, mas às vezes é mais fácil. É cansativo. Timor é bom a nível de trabalho, é extremamente aliciante. A nível pessoal, acaba por ser um bocado difícil. É que os anos vão passando mas a família continua muito longe, os amigos continuam muito longe, a nove horas de distância. A nível profissional, um professor aqui é um rei.

ZAP – Rei?
Sara – Os timorenses idolatram-nos. Os pais obrigam os filhos a pedir a bênção aos professores. Beijam-nos as mãos. Somos completamente idolatrados, há um grande respeito pelos professores.

NMT, ZAP //

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