Ensaio com cloroquina interrompido no Brasil após participantes desenvolverem arritmia

Massimo Percossi / EPA

Um ensaio clínico brasileiro com cloroquina, medicamento que tem sido apontado para tratamento da Covid-19, foi interrompido depois que os participantes começaram a desenvolver arritmia, que pode levar a ataques cardíacos.

Segundo noticiou o Times of Israel na quinta-feira, outro estudo foi interrompido na Suécia quando os pacientes relataram enxaquecas, perda de visão periférica e cãibras. Israel, contudo, tem armazenado grandes quantidades de cloroquina e de hidroxicloroquina com base no pressuposto de que, se outros ensaios se revelarem benefícios no tratamento da Covid-19, isso desencadeará uma guerra na procura por esses medicamentos.

O uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para combater à Covid-19 foi enfatizado pelo Presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, depois de alguns testes em fase inicial sugerirem que esses medicamentos poderiam impedir o vírus de entrar nas células.

Contudo, esses fármacos – ambos usados no tratamento da malária – são conhecidas por terem efeitos secundários potencialmente graves, incluindo a alteração dos batimentos cardíacos de tal forma que pode causar morte súbita.

O estudo, que decorria na cidade amazónica de Manaus, visava testar 440 pacientes com Covid-19, em fase aguda, com duas doses de 600 miligramas de cloroquina, duas vezes por dia, durante 10 dias. Mas os resultados negativos surgiram após apenas 81 dos participantes terem sido submetidos ao tratamento.

Um quarto das pessoas selecionadas para o ensaio clínico desenvolveu problemas no ritmo cardíaco, com as tendências a sugerirem que mais mortes estavam a ocorrer nesse grupo, tendo os cientistas interrompido essa parte do estudo.

Um outro grupo recebeu 450 miligramas duas vezes ao dia no primeiro dia, seguindo-se uma vez por dia durante mais quatro dias. Esse método assemelha-se ao utilizado noutros estudos, incluindo alguns nos EUA. É cedo para saber se será seguro ou eficaz, visto que o estudo no Brasil não tinha um grupo controle para poder comparar os resultados.

Os investigadores revelaram que apenas um dos participantes do estudo brasileiro não apresentou sinais do vírus em amostras retiradas da garganta após o tratamento. Os resultados desta investigação foram publicados num site de pesquisa e ainda não foram revistos pelos pares.

Giuseppe Lami / EPA

Para complicar, todos os pacientes do estudo também receberam dois antibióticos, ceftriaxona e azitromicina. Este último pode ter igualmente efeitos no coração. Foi também Trump quem divulgou a combinação hidroxicloroquina-azitromicina.

De acordo com o Times of Israel, o médico francês Didier Raoult conduziu um estudo com 80 pacientes, no qual verificou-se que quatro em cada cinco dos tratados com hidroxicloroquina-azitromicina tiveram resultados “favoráveis”.

No seu depoimento, referiu que após tratar 24 pacientes durante seis dias com hidroxicloroquina e azitromicina, o vírus desapareceu em quase um quarto. Esta pesquisa, contudo, não foi revista pelos pares nem publicada numa revista científica.

Há uma semana, o Presidente francês Emmanuel Macron encontrou-se com Didier Raoult e sua equipa em Marselha para falar sobre as últimas descobertas.

Na quinta-feira, em declarações ao Globes, o professor Ronni Gamzu, ex-diretor-geral do Ministério da Saúde israelita – que agora dirige o Hospital Ichilov, em Telavive -, disse que o hospital utilizava cloroquina, mas que não existem evidências da sua eficácia no tratamento da Covid-19.

“Usamos cloroquina no hospital e não acreditamos que seja eficaz, e essa também é a opinião dos cientistas hoje. Estou a acompanhar de perto os desenvolvimentos e não vejo nenhuma notícia especial sobre um tratamento em desenvolvimento”, afirmou.

Jacob Moran-Gilad, membro da Equipa de Gestão de Epidemias do Ministério da Saúde israelita, declarou ao mesmo jornal, na semana passada: “Dentro de algumas semanas, se houver dados oficiais para mostrar que é benéfico, será muito difícil garantir o fármaco”.

Moran-Gilad indicou que a Equipa de Gestão de Epidemias discutiu se deveria dar aos hospitais instruções sobre a hidroxicloroquina. “No momento, não há orientação oficial do Ministério da Saúde de que deve ser usada para a Covid-19. Discutimos isso e decidimos não dar orientação, pois não há dados que apoiem o uso desse medicamento”.

E enfatizou: “O fato de haver um estoque do fármaco não significa que exista indicação ou incentivo oficial ao uso do medicamento”.

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