Emmy. Atrizes usam palco para apelos pró-transexuais, igualdade salarial e imigração

Nina Prommer / Lusa

O ator Tony Shalhoub recebeu o prémio para Melhor Ator Secundário de Série de Comédia e Alex Borstein venceu o Emmy de Melhor Atriz Secundária

As atrizes Patricia Arquette, Michelle Williams e Alex Borstein usaram o seu discurso de vitória nos prémios Emmy da Academia de Televisão, que decorreu esta madrugada em Los Angeles, nos Estados Unidos (EUA) para fazerem apelos em prol de causas e justiça social.

Alex Borstein defendeu os imigrantes, Patricia Arquette apelou para o fim da perseguição dos transexuais e dos preconceitos em relação a esta comunidade e Michelle Williams pediu igualdade salarial entre homens e mulheres, noticiou a agência Lusa.

Alex Borstein foi a primeira a usar o palco para tomar uma posição em relação à imigração, um dos temas que mais divisão tem causado na política e sociedade norte-americana. “A minha mãe e avó eram imigrantes, sobreviventes do Holocausto”, disse Alex Borstein, que venceu o Emmy de Melhor Atriz Secundária em série de comédia pelo papel de Susie Myerson em “The Marvelous Mrs. Maisel”.

“A minha avó estava na linha de tiro para ser morta e atirada numa vala. Ela perguntou: ‘o que acontece se eu sair da linha?’, ele disse: ‘não tenho coração para te alvejar, mas alguém o fará’, e ela saiu da linha”, contou Alex Borstein. “Por causa isso, eu e os meus filhos estamos aqui. Portanto, saiam da linha, meninas”, afirmou.

Também Jesse Armstrong fez uma referência à imigração quando subiu ao palco para receber o Emmy de Melhor Escrita para série dramática, pelo trabalho feito no episódio “Nobody Is Ever Missing” de “Succession”, da HBO. A série é alegadamente inspirada na família Murdoch, responsável pela ascensão do império da Fox e Fox News.

“[Há] bastantes vencedores britânicos”, disse Jesse Armstrong, também britânico. “Talvez demasiados, talvez vocês devessem pensar nessas restrições aos imigrantes”, sugeriu. A frase que disse a seguir foi censurada pela Fox, que retirou o som à transmissão.

Antes disso, Patricia Arquette já tinha usado o palco para chamar a atenção para a perseguição de que os transexuais ainda são alvo, ao vencer o Emmy para Melhor Atriz Secundária em minissérie ou filme, pelo papel de Dee Dee Blanchard em “The Act”.

“Estou grata por trabalhar e porque aos 50 estou a fazer os melhores papéis da minha vida, mas no meu coração estou muito triste”, disse a atriz. “Perdi a minha irmã Alexis e as pessoas trans continuam a ser perseguidas”, afirmou.

Etienne Laurent / Lusa

Patricia Arquette e Eric White à chegada da cerimónia

Patricia Arquette disse que é necessário “mudar o mundo” para acabar com a perseguição e dar empregos aos transexuais.

“Temos de nos livrar deste preconceito que existe em todo o lado”, frisou, dizendo que estará para sempre em “luto” pela sua irmã Alexis, mulher transexual que morreu em 2016 devido a complicações relacionadas com o VIH.

Também Michelle Williams usou o seu discurso de vitória no Emmy de Melhor Atriz em Minissérie ou Filme, pela interpretação de Gwen Verdon em “Fosse/Verdon”, do canal FX, para mais do que os habituais agradecimentos à família e equipas.

A atriz chamou a atenção para a necessidade de paridade salarial entre homens e mulheres, referindo que a FX Networks lhe deu o mesmo salário que o protagonista masculino da série, Sam Rockwell, algo que é quase inédito em Hollywood.

“Obrigada por me pagarem o mesmo”, afirmou, dizendo que os produtores perceberam que “quando se dá o valor devido a uma pessoa” isso permite-lhe interiorizar a sua autovalorização e colocá-la no esforço de trabalho.

Michelle Williams esteve no centro de um escândalo de desigualdade de pagamento em abril deste ano, quando se soube que tinha recebido apenas mil dólares para regravar cenas no filme “All the Money in the World”, enquanto o outro protagonista, Mark Wahlberg, recebeu 1,5 milhões de dólares para fazer o mesmo.

“Por isso, da próxima vez que uma mulher – e em especial uma mulher de cor, que ganha 52 cêntimos por cada dólar que um homem branco com o mesmo emprego recebe – vos diz do que precisa para fazer o seu trabalho, ouçam o que ela está a dizer”, apelou a atriz.

O discurso de Michelle Williams foi dos poucos que suscitou uma ovação de pé por parte da plateia, a par de Alex Borstein e Patricia Arquette, numa noite em que houve poucas intervenções politizadas e nenhuma menção direta ao Presidente dos EUA, Donald Trump.

Billy Porter, primeiro homossexual assumido a ganhar na categoria Melhor Ator de Série Dramática, teve um discurso emocional e citou o escritor James Baldwin. “Eu tenho o direito de estar aqui, vocês também, todos temos o direito de estar aqui”, disse, numa clara crítica à discriminação racial, segundo noticiou o Observador.

Na passadeira vermelha, a atriz transgénero Laverne Cox, conhecida pela série “Orange Is the New Black”, aproveitara o tempo de antena para falar de uma manifestação a 08 de outubro frente ao Supremo Tribunal dos EUA, em Washington, quando começarem a ser julgados três casos de despedimento de dois homossexuais e uma pessoa transgénero. Laverne Cox fez-se acompanhar pelo conhecido ativista Chase Strangio.

O melhor drama foi para “A Guerra dos Tronos”

A cerimónia já levava mais de duas horas quando Peter Dinklage recebeu o prémio de Melhor Ator Secundário de Série Dramática, em “A Guerra dos Tronos”. Mais tarde, a fechar a noite, a mesma série arrecadou o troféu de Melhor Série Dramática, lê-se no artigo do Observador.

A HBO liderava as preferências, com um recorde de 137 nomeações, 32 das quais recaíam sobre “A Guerra dos Tronos”, e até tinha havido um momento de despedida em palco, com o elenco principal aplaudido de pé e a agradecer ao espectadores o êxito de oito temporadas, que chegaram ao fim em maio.

De resto, a 71ª edição dos Emmys ficou marcada pelo sotaque britânico. Três estatuetas foram parar às mãos de Phoebe Waller-Bridge, pela série “Fleabag”: duas em nome individual, como Melhor Autora de Série de Comédia e Melhor Atriz de Série de Comédia, e uma terceira de Melhor Série de Comédia. Harry Bradbeer, realizador desta produção da Amazon, recebeu o prémio para Melhor Realizador de Série de Comédia.

 

O duelo entre HBO e Netflix constituía um ponto de interesse, já que esta tinha conseguido ultrapassar a concorrente em 2018, com 112 nomeações contra 108, mas ambas haviam levado 23 Emmys para casa. Desta vez, a HBO faturou novamente com “A Guerra dos Tronos”, “Barry”, “Chernobyl” e “Last Week Tonight with John Oliver”, enquanto a Netflix não brilhou nas principais categorias. No fim, 34-27, assinalou o marcador dos prémios.

Quem ganhou?

Nas restantes categorias, “Chernobyl”, da HBO, ganhou a Melhor Minissérie, Jodie Comer, da série “Killing Eve”, ganhou a estatueta de Melhor Atriz de Série Dramática e Julia Garner, de “Ozark”, a de Melhor Atriz Secundária de Série Dramática.

O prémio de Melhor Ator de Série de Comédia foi para Bill Hader, que participa em “Barry”, e o de Melhor Ator Secundário de Série de Comédia para Tony Shalhoub, de “The Marvelous Mrs. Maisel”.

O Melhor Telefilme foi para “Black Mirror: Bandersnatch”, da Netflix, e a Melhor Série de Variedades – Talk Show para “Last Week Tonight with John Oliver”, transmitida pela RTP. Já o Melhor Documentário ou Série de Não-Ficção foi para “Our Planet”, da Netflix.

A cerimónia dos prémios mais importantes da indústria televisiva americana decorreu no domingo à noite, no Microsoft Theater, em Los Angeles, e foi transmitida pela Fox, já madrugada de segunda-feira em Portugal. E desta vez não houve um apresentador oficial, o que não acontecia há 16 anos. O ator Thomas Lennon foi a voz-off da estação.

A queda de audiências nas últimas edições, com um mínimo histórico de 10,2 milhões de espectadores em 2018 (cerca de metade do que se registava nos dourados anos 1990), terá levado a Fox a optar por uma mudança que trouxesse novidade, daí a ausência de apresentador, de acordo com a imprensa americana.

Outro motivo, escreveu o New York Times, foi o facto de a Fox não dispor neste momento de um nome suficientemente popular para assegurar o papel. A habitual orquestra também primou pela ausência e foi substituída por canções pop e rock gravadas, de Tina Turner a Sister Sledge, de Bill Haley a Thelma Houston.

Taísa Pagno TP, ZAP //

 

 

 

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