Eleições de seis semanas na Índia tornaram-se numa atração turística

Domingo é o último dia das eleições que decorrem na índia há seis semanas, com os votos a serem contados a 23 de maio. No início do mês, foi estimado o comparecimento de 67% de eleitores. Mas estas eleições ficam também marcadas por outro tipo de afluência: as turnés turísticas.

Num terreno cheio de pó entre campos de cultivo, um ministro do Gabinete indiano passa por entre a multidão de pessoas que grita o seu nome. Homens locais sobem às árvores para conseguirem ver o famoso político. Mulheres em saris coloridos abanam os seus bebés, a uma temperatura ambiente de 38°C, enquanto aplaudem.

Segundo noticiou a NPR na quarta-feira, são em comunidades rurais como esta, em Uttar Pradesh – o estado mais populoso da Índia -, que as eleições indianas são muito disputadas e ganhas. Dois terços dos indianos vivem no campo, e votam numa taxa maior do que aqueles que moram nas cidades.

Neste comício, organizado pelo Partido Bharatiya Janata, do primeiro-ministro Narendra Modi, há um grupo de indianos que se destacam, com os seus óculos escuros e roupas ocidentais. Ficam separados dos agricultores locais por um abismo de classe e riqueza: são turistas domésticos, em visita ao local para assistirem à sua própria democracia

Com quase 900 milhões de eleitores, as eleições indianas são consideradas as maiores do mundo – um festival de democracia com quase seis semanas de comícios, discursos e votações. Algo que, cada vez mais, os turistas querem experimentar. Devido a isso, um conjunto de operadores turísticos começou a oferecer turnés políticas nesta temporada.

“Ele me arrastou até aqui”, disse Rian Narvekar, de 13 anos, revirando os olhos para o pai, que se encontrava ao seu lado. Viajaram desde a capital indiana, Nova Deli, a mais de 800 quilómetros de distância. “Ele queria que eu experimentasse as eleições”.

O pai, Rahul Narvekar, de 46 anos, empresário na área da Internet, contou que o filho “vive uma vida muito protegida”. “Ele chega a casa num carro conduzido por um motorista. Nunca teve este tipo de exposição. Eu queria experimentar isto e queria que ele também experimentasse”, afirmou.

Foi assim que Rahul Narvekar levou o filho numa turné educacional de quatro dias sobre as eleições na Índia, organizada pela empresa de media indiana Firstpost. O guia turístico é um veterano jornalista político, Ajay Singh, que conduz um grupo de leitores fiéis – a maioria auto-descrita como a elite urbana de Nova Deli e Mumbai – a partes do país que muitos deles nunca visitaram.

“Costuma-se dizer que o caminho para o poder em Nova Deli passa por Uttar Pradesh”, afirmou Rahul Narvekar.

Nestas eleições, o Partido Bharatiya Janata está a concorrer a mais um mandato de cinco anos no poder. A turné Firstpost leva os visitantes a comícios de campanha no coração rural e na cidade sagrada hindu Varanasi, o eleitorado de Narendra Modi.

Enquanto a família Narvekar conversava com os moradores locais, uma multidão formava-se ao seu redor. Rian pediu ao pai para segurar a sua mão. “Estou desconfortável”, declarou. Mas pai tranquilizou-o e, em pouco tempo, Rian estava a usar o telemóvel para gravar vídeos de garotos da sua idade, perguntando-lhes o que pensavam das eleições.

Outro dos turistas, Suraj Kishore, que está na faixa dos 40 anos e trabalha em publicidade em Mumbai, ficou chocado ao descobrir como os eleitores rurais são experientes em tecnologia. “Houve ‘liveestreaming’ no Facebook! Geralmente, enquanto sociedade, achamos que a Índia rural significa que não querem progredir. Mas não, é pulsante”, afirmou. “É muito mais pulsante do que a Índia urbana, que está feliz com a ingestão de sushi. Neste momento estou preenchido com muito discernimento”.

Excursões como está estão a acontecer em toda a Índia, tanto nos distritos rurais quanto nos urbanos, orientada para os indianos e para estrangeiros.

“Quando viajamos, gostamos de entender o país em que estamos”, disse Maddie Borrey, uma turista australiana que, em abril, juntou-se a uma turné eleitoral em Mumbai, uma nova oferta da Reality Tours, uma loja local que também conduz os turistas pela maior favela da cidade, Dharavi.

Na turné eleitoral, a empresa disponibiliza uma rota a pé, passando pela sede da Comissão Eleitoral local. Os guias esclarecem as dúvidas dos turistas sobre os assentos na câmara baixa do Parlamento da Índia (545), a altura em que ocorre a votação (em sete etapas, de 11 a 19 de maio) e como são as cédulas (onde ficam as máquinas para votação).

Um dos guias da ’tour’ de Maddie Borrey também tenta educar os turistas sobre o problema da corrupção na Índia, compartilhando a sua própria experiência.

“Quando eu tinha 18 anos, recebi 200 rúpias (cerca de 2,7 euros) para votar em alguém”, contou Balaji Subramanyam aos turistas. “Eu não fazia ideia naqueles dias do que a política significava”, frisou.

A turné Firstpost culmina numa viagem de barco ao pôr do sol ao longo do rio Ganges, onde milhares de hindus rezam e queimam incenso todas as noites. À medida que o barco passa pelas piras funerárias que queimam nas suas margens, um turista de Mumbai observou como pode haver duas Índias, acrescentando que essa excursão lhe deu uma amostra daquela em que ela não vive.

“Sentimos realmente o calor e a poeira das eleições”, declarou o empresário da área das finanças Kavita Sachwani. “Sabia que seria muito especial, mas superou as minhas maiores expetativas”.

Perto dali, um trabalhador das docas, Babu Sahani, observava Kavita Sachwani e outros turistas da cidade grande a iluminar pequenas lâmpadas a óleo e a colocá-las à deriva no Ganges. Posteriormente, a NPR perguntou ao estivador, de 18 anos, se achava que há de facto duas Índias – o seu país e o deles.

“Há apenas uma Índia”, apontou Babu Sahani. “Mas essas pessoas”, disse, apontando para os turistas, “acho que devem ser estrangeiras”.

Taísa Pagno TP, ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Zap:
    “num calor de 100 graus”

    Obviamente são graus fahrenheit (se não, seriam cozinhados…).

    Traduzaqm lá isso para 38 graus (celsius/centígrados)

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