Ecossistema misterioso oculto há milhares de anos encontrado em icebergue gigante

Quando um pedaço de gelo com um bilião de toneladas, maior que o Algarve, com 5.800 km2, se soltou da Antártida em julho, foi classificado como um dos maiores icebergues que os cientistas já testemunharam.

O bloco maciço também revelou um misterioso e precioso ecossistema marinho escondido sob o gelo, que pode estar submerso há cerca de 120 mil anos – e é vital, agora que foi descoberto, proteger esse santuário isolado.

“Não consigo imaginar uma mudança mais dramática das condições ambientais de qualquer ecossistema em todo o planeta”, disse o ecologista marinho Julian Gutt, do Instituto Alfred Wegener de Pesquisa Polar e Marinha, na Alemanha.

Essa transição épica deve-se ao facto de o icebergue estar à deriva, afastando-se se para o norte até ao Mar de Weddell e longe de sua antiga morada, a plataforma de gelo Larsen C.

À medida que esta migração acontece – seja ou não causada por mudanças climáticas -, uma vasta extensão de oceano e de fundo do mar que mede cerca de 5.818 quilómetros quadrados está a ser exposta à luz solar e à alteração das condições marinhas.

Os cientistas acreditam que esta possa ser a primeira vez que as condições do ecossistema são alteradas desde o último período interglacial da Terra.

No momento em que este ambiente intocado e inexplorado começa a revelar-se, os cientistas estão ansiosos para estudar as suas águas nunca antes vistas e as formas de vida que podem conter – e vão ter agora oportunidade de o fazer.

No âmbito de um acordo internacional aprovado o ano passado pela Comissão para a Conservação da Vida Marinha Antártica, o ecossistema emergente é classificado como uma Área Especial para Estudo Científico.

Esta classificação é atribuída a regiões marinhas recém-expostas a condições ambientais ou a mudanças após a retirada ou o colapso de uma plataforma de gelo.

Esta proteção significa que a área exposta não pode ser explorada em atividades de pesca comercial durante pelo menos dois anos. O prazo pode ser prolongado para até dez 10 anos – período de tempo destinado a dar aos cientistas a oportunidade de avaliar a vida marinha local e observar novas espécies que colonizam as áreas recém-descobertas.

“É definitivamente uma área fantástica e desconhecida na pesquisa científica”, disse a bióloga marinha Susan Grant, da British Antarctic Survey (BAS). “Sabemos pouco sobre o que poderia ou não viver nessas regiões, e especialmente como se podem modificar ao longo do tempo”.

Grant foi uma das cientistas que liderou a proposta para o reconhecimento de Área Especial, e a BAS pretende enviar um navio de pesquisa para estudar a área no início de 2018, desde que receba o financiamento.

Expedições sul-coreanas e alemãs também devem ocorrer em 2018 e 2019, respectivamente, à medida que os cientistas se apressam a examinar o terreno o mais cedo possível, antes que a exposição à superfície e à luz solar provoque mudanças nas águas protegidas.

“É muito difícil mobilizar esforços de pesquisa – é preciso muito dinheiro, e o tempo de entrega dos resultados não é fácil de ser previsto”, explicou Grant. “Mas o facto de que muitos grupos estão a tentar descobrir algo na região demonstra que esta é uma oportunidade realmente única”.

Os cientistas não sabem ao certo o que esperar quando chegarem ao misterioso icebergue, mas o termo de comparação mais próximo é o do colapso das plataformas de gelo Larsen A e B, em 1995 e 2002.

“A vida lá é escassa”, disse o cientista da BAS, Phil Trathan. “Trabalhamos com a hipótese de que o ecossistema seja semelhante ao de oceanos muito profundos, mas isso é algo que precisamos de validar”.

Mas apesar de estes ambientes submarinos desprovidos de luz solar e recursos alimentares poderem parecer cidades fantasmas, o seu estudo é algo extremamente importante – sobretudo porque estas condições não ficarão inalteradas muito tempo, com novas espécies a colonizar as águas expostas a partir do momento em que vêm à tona.

“Haverá luz solar, depois fitoplâncton, e a seguir também peixes e zooplâncton. Por isso, haverá algo como uma reação em cadeia. À medida que haja condições, mais espécies se aproximarão, e haverá mudanças bastante significativas em escalas de tempo relativamente curtas”, disse Trathan.

As razões da separação do icebergue permanecem por explicar. Mas agora que aconteceu, é uma oportunidade maravilhosa para ver a vida a adaptar-se a um território virgem – só é preciso lá chegar a tempo do início do espetáculo.

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