Documentário da Netflix reacende debate sobre os milhares de tigres em cativeiro nos Estados Unidos

(cv) Netflix

A minissérie documental da Netflix “Tiger King: Morte, Caos e Loucura” veio reacender o debate sobre os grandes felinos que estão em cativeiro, frisando que há cerca de 10.000 espécimes nestas condições nos Estados Unidos.

A série documental, que conta com sete episódios, estreou a 20 de março na plataforma de streaming e desde logo ocupou os lugares cimeiros das produções mais vistas da Netflix em Portugal e um pouco por todo o mundo.

Joseph Allen Maldonado-Passage, Joe Exotic, é a figura central do documentário, que mostra o seu jardim zoológico privado no Oklahoma, um dos maiores dos Estados Unidos – tem mais de duas centenas de grandes felinos e vários outros animais selvagens.

A trama, que aborda a história de vida de Joe Exotic e de outros proprietários de zoos privados, trouxe a público o debate sobre os grandes felinos em cativeiro.

Mas Allison Skidmore, candidata a doutoramento da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, na área do tráfico de vida selvagem, teme que o documentário não tenha chamado suficientemente à atenção sobre o problema destes animais.

Em declarações ao portal The Conversation, a especialista refere que não é fácil precisar ao certo quantos destes animais é que vivem em cativeiro, uma vez que a maioria dos tigres em cativeiro é híbrida, isto é, não são identificados como uma das seis subespécies de tigre – o tigre de Bengala, o tigre de Amur, o tigre do Sul da China, o tigre de Sumatra, o tigre da Indochina e o tigre da Malásia – , sendo antes categorizados como “genéricos”.

Allison frisa que menos de 5% dos tigres – ou seja, 350 espécimes – em cativeiro são controlados pela Association of Zoos and Aquariums, uma organização sem fins lucrativos que credencia este tipo de animais em solo norte-americano.

Todos os outros, lamenta, são tigres de propriedade privada, os considerados tigres “genéricos”, que não são controlados por nenhuma instituição especializada e que ficam, por isso, fora da supervisão federal.

“Não há requisitos legais para registar estes tigres genéricos, nem um banco de dados nacional abrangente para rastreá-los e acompanhá-los. O palpite mais bem educado revela que existem cerca de 10.000 tigres em cativeiro nos Estados Unidos, elevado a população global de tigres nestas condições para 25.000″.

Em termos de comparação, existem menos de 4.000 tigres em liberdade na natureza – bem logo dos 100.000 identificados há um século.

Leis vagas e complicadas

Na mesma resposta dada ao portal The Conversation, Skidmore explica que a legislação sobre a posse de animais selvagens nos Estados Unidos é vaga e complicada.

Na prática, continua, não existem estatutos ou regulamentos federais que proíbam de forma clara e expressa a propriedade privada destes animais selvagens. As jurisdições estaduais e locais receberam autoridade nesta matéria, tendo algumas proibido a posse e outras exigido uma permissão específica.

Ao todo, existem 32 estados norte-americanos que proíbem total ou parcialmente a posse destes animais. Outros 14 estados permitem a propriedade desde que existam uma licença ou uma permissão. Há ainda quatro estados norte-americanos – Alabama, Wisconsin, Carolina do Norte e Nevada – sem qualquer regulamentação ou supervisão.

Mesmo nos estados onde a proibição foi decretada, é possível contornar a lei, segundo Skidmore. “Mesmo nos estados que proíbem a propriedade privada, há falhas. Por exemplo, em todos os estados, exceto em três, os proprietários podem solicitar a chamada “licença federal de expositor”, que é notavelmente barata e fácil de obter e contorna as leis estaduais ou locais mais rigorosas em vigor”.

Por último, a especialista recorda ainda que as redes sociais, onde se têm multiplicado centenas de imagens de pessoas junto a grande felinos são um problema, uma vez que mascaram o facto de a espécie estar sob ameaça.

“Posar com tigres redes sociais como o Instagram e em aplicações de encontros tornou-se num grande problema. Não só pode representar um risco para a saúde e segurança de humanos e tigres, como também promove uma falsa narrativa”.

“Se vemos milhares de fotografias de pessoas com tigres em cativeiro, estamos a mascarar o verdadeiro problema dos tigres em perigo na natureza (…) A realidade dos tigres selvagens ficou escondida por trás da pompa e circunstância das redes sociais. E esta situação marginaliza as ideias de conservação e a verdadeira situação dos tigres como um dos grandes felinos mais ameaçados”.

A série, que rapidamente se tornou num sucesso mundial, terá, na próxima semana um novo episódio, revelou Jeff Lowe, um dos donos do zoológico que participou na produção.

Quanto ao debate sobre a propriedade e conservação destes animais, certamente continuará.

ZAP //

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