Aos 93 anos, David Attenborough não está preocupado com a Covid-19 (nem espera “lições de moral”)

Sir David Attenborough considera que a Covid-19 não é o pior mal que a humanidade terá que enfrentar nos próximos tempos. Perto de completar 94 anos de idade, o naturalista britânico está mais preocupado com os efeitos das alterações climáticas. É que o vírus “vai morrer amanhã”, mas a “urgência” climática vai ter efeitos nas próximas gerações.

Estas declarações foram feitas no âmbito do seu mais recente documentário, “David Attenborough: A Life On Our Planet”, cuja estreia estava prevista para Abril, mas que foi adiada para o fim do ano devido à pandemia de Covid-19.

Confrontado com o coronavírus que está a propagar-se por todo o planeta e a infectar e matar milhares de pessoas, o naturalista desvaloriza a situação. “Penso que nos ocuparemos dele perfeitamente”, salienta Sir David Attenborough. “Não penso que possamos desenhar uma grande lição moral sobre a forma como tratamos tão mal a natureza e como ela está a responder. Faz, simplesmente, parte da vida“, analisa o naturalista.

O que preocupa realmente Attenborough são os efeitos das alterações climáticas, por culpa das acções humanas no planeta, que vão ter consequências para as próximas gerações. “Estamos a falar dos meus netos a morrerem”, lamenta.

“Não arruinamos apenas o planeta, destruímos-lo”, sublinha Attenborough no documentário, onde deixa evidente que os efeitos da pandemia de Covid-19 não são nada comparativamente com as consequências trágicas das alterações climáticas.

“Não faço ideia se a humanidade se vai safar ou não”, mas “houve mudanças extraordinárias ao longo dos 5 a 10 últimos anos na atitude do grande público, e é por isso que penso que as pessoas reconhecem, realmente, que o ambiente está mesmo em dificuldades”, analisa Sir David Attenborough.

No seu documentário, o naturalista apresenta “o seu testemunho e a sua visão para o futuro”, relatando “a história sobre como é que fizemos deste o nosso maior erro“, como diz.

Attenborough destaca no filme que nos anos de 1930, 66% do mundo era selvagem e os níveis de CO2 na atmosfera situavam-se nas 310 partes por milhão (ppm). Já em 1997, a natureza selvagem tinha descido para 47% e o CO2 subido para 363 ppm. Actualmente, a natureza selvagem ocupa apenas 23% do planeta, enquanto o CO2 na atmosfera é superior a 410 ppm.

Da mesma forma, o naturalista lembra como no início da sua carreira era muito fácil encontrar locais intactos para filmar a natureza no seu estado puro, numa altura em que as pessoas nunca tinham visto uma série de animais selvagens. Um tempo que descreve como “o melhor momento da [sua] vida”.

Mas com o passar dos anos, Attenborough assistiu ao declínio da população de gorilas no Ruanda, onde estes animais passaram a ser cada vez mais difíceis de encontrar, e viu os orangotangos do Bornéu quase a desaparecerem, estando em vias de extinção.

No documentário, o naturalista aborda ainda a caça às baleias, a agricultura de grande escala, o branqueamento dos corais e o aumento das temperaturas médias a nível mundial para concluir que o “ataque cego” dos humanos ao planeta alterou “os fundamentos do mundo vivo”.

Mas “se agirmos agora, ainda podemos fazer as coisas certas”, alerta Attenborough, deixando um apelo urgente à acção e avançando algumas soluções.

Attenborough lembra que quando emitiu o seu primeiro programa na televisão, em 1954, o planeta tinha 2,7 mil milhões de pessoas – agora tem 7,8 mil milhões. Uma das soluções para o salvar passa, assim, por estabilizar os números da população mundial através da retirada de pessoas da pobreza, de modo a que tenham acesso a cuidados de saúde, nomeadamente contraceptivos, e a que possam manter as filhas na escola durante mais tempo.

A eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, apostando nas energias solar, eólica e geotérmica, e a criação de grandes áreas de “não pesca” para dar espaço para a reconstrução dos stocks de peixe, mantendo, ao mesmo tempo, oferta para as nossas necessidades de consumo, são outras soluções avançadas no documentário.

A redução da quantidade de terreno dedicada à agricultura para permitir o desenvolvimento da fauna e a mudança do tipo de alimentação da maioria da população são outras medidas. “O planeta não pode, simplesmente, suportar milhões de comedores de carne”, realça Attenborough.

O que falta saber, no fim de contas, é se haverá realmente vontade e “urgência” política para fazer o que é preciso para salvar o planeta – e com isso, salvar o futuro da humanidade.

SV, ZAP //

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