José Coelho / Lusa

Desfasamento entre criminalidade real e perceção pública preocupa especialistas. Cobertura mediática intensiva, exploração política dos casos e redes sociais contribuem para o problema.
A criminalidade participada em Portugal diminuiu ligeiramente (1,3%) entre 2020 e 2024, mas as capas dos principais jornais do país não refletem isso — pelo contrário.
As capas de jornais com destaque para crimes aumentaram 130% nesse período de 4 anos, segundo um estudo do Observatório de Segurança e Defesa da SEDES citado esta segunda-feira pelo Diário de Notícias, e que alerta para um desalinhamento entre a realidade criminal e a perceção de insegurança da população.
A cobertura mediática intensiva e a exploração política de certos casos contribuem para agravar o sentimento falso de insegurança, destaca o relatório, que também aponta o dedo às redes sociais, que serve muitas vezes como amplificador de desinformação.
A SEDES chama ainda a atenção para comportamentos desviantes não criminalizados que, apesar de não constituírem crime, influenciam negativamente a perceção de segurança.
Além disso, o estudo critica a inconsistência e falta de comparabilidade dos dados nos Relatórios Anuais de Segurança Interna (RASI), o que dificulta a análise objetiva da evolução da criminalidade.
Entre as soluções propostas estão a realização regular de inquéritos de vitimação, a normalização estatística no RASI, uma comunicação institucional mais clara e eficaz, e uma maior articulação entre forças de segurança e sistema judicial.
Recorde-se que a polémica saída de um capítulo sobre a presença da extrema-direita em Portugal, eliminada da apresentação do último RASI anual, foi um acordo das forças de segurança que integram o Gabinete Coordenador de Segurança, e teve a aprovação de duas ministras — as da Administração Interna e da Justiça, Margarida Blasco e Rita Júdice.
O director nacional da Polícia Judiciária (PJ), Luís Neves, tem vindo a reforçar que o sentimento de insegurança é gerado pelo aumento da desinformação e das “ameaças híbridas”, e que os números de criminalidade violenta desmentem essa ideia e que não há ligação ao aumento da imigração.