Criador de Sophia reconhece benefícios dos robôs (mas está atento aos seus perigos)

Web Summit / Flickr

A robô humanoide Sophia com o seu criador, David Hanson.

David Hanson é o criador de Sophia e mostra-se entusiasmado com as aplicações que ela e outros robôs humanoides podem ter. No entanto, em entrevista ao ZAP, não exclui a possibilidade que os robôs se possam tornar num perigo para a humanidade.

Chama-se Sophia, tem três anos de idade, é cidadã da Arábia Saudita e é um robô humanoide. O público português deverá certamente lembrar-se dela do anúncio da MEO, com Cristiano Ronaldo, mas a verdade é que ela tem atraído atenção desde a sua primeira aparição em 2016, nos Estados Unidos.

O homem por detrás da sua criação, o seu “pai”, é David Hanson, fundador da empresa Hanson Robotics. O roboticista esteve em Lisboa à margem da Web Summit, onde esteve à conversa com o ZAP e explicou como foi possível chegar a este estágio de desenvolvimento e aquilo que espera dela para o futuro.

Como é que chegamos de “Os Marretas” até Sophia? A robótica e a Inteligência Artificial tem evoluído a um ritmo galopante nos últimos ano, mas Hanson elucida que este é um esforço que vem de há centenas de anos atrás.

“Em vez de dizer que viemos de ‘Os Marretas’ até à Sophia, eu diria que estamos a cruzar as tradições da arte dos autómatos e das artes narrativas e figurativas numa próxima geração de Inteligência Artificial e robôs”, realçou.

“A arte dos autómatos remonta milhares de anos aos antigos chineses, árabes e gregos. Houve esforços para fabricar máquinas que exibissem aspetos da vida e se movessem. Muitos desses esforços eram missões profundamente filosóficas e científicas“, explicou o especialista.

O criador de Sophia deu até mesmo o exemplo do trabalho de Walt Disney com o robô humanoide de Abraham Lincoln. Este é um trabalho que começou em 1964 e que foi evoluindo e sendo melhorado até aos dias de hoje.

Ele teve a visão de que estas máquinas poderiam tornar-se vivas e tornar-se na próxima grande forma de arte”, disse. Disney fez isto numa altura em que não havia a capacidade tecnológica dos dias de hoje e a sua ambição foi guiada pelo sonho. Hanson, que teve o privilégio de trabalhar com a Disney para melhorar os seus robôs nos finais dos anos 90, disse estar orgulhoso do caminho que tem sido trilhado.

No entanto, o fundador da Hanson Robotics acredita que tudo isto vai para além do entretenimento. “Hoje vemos simulação médica robótica, simuladores de pacientes humanos, manequins médicos robóticos a impulsionar um mercado de 2 mil milhões de dólares nos Estados Unidos.

Este tipo de apoio permite aos profissionais médicos melhorar as suas capacidades e, consequentemente, otimizar a prestação dos cuidados de saúde. Aqui, os robôs humanoides desempenham um papel importantíssimo — e as artes também. “Isto não é apenas ciência e não é apenas tecnologia. O seu desenvolvimento não é apenas uma tarefa puramente racional. É inspirada pela imaginação“, atirou Hanson.

Ficção científica como molde de opiniões

A forma como os robôs são retratados na ficção científica, televisão, cinema e literatura influenciam em grande parte a maneira como olhamos para esta tecnologia.

A interação entre ciência e ficção científica é uma longa e poderosa tradição. A ficção molda a realidade exatamente da mesma forma que a ciência”, explicou Hanson antes de reiterar: “A ciência começa sempre como um sonho”.

Na ficção, em alguns casos, os robôs tornam-se nossos amigos, noutros tornam-se o nosso pior inimigo. Se por um lado temos o amigável WALL-E da Disney, por outro temos o cenário retratado em Westworld. Nesta série, eventualmente os robôs submissos insurgem-se contra os humanos — e esta é uma possibilidade que assusta muitas pessoas, de acordo com Hanson.

Mas será que um cenário semelhante a este se pode um dia tornar uma realidade nas nossas vidas? Hanson não deixa essa possibilidade assustadora de lado.

“Quem sabe? Temos que considerar as consequências. Para mim, está é a eventualidade: temos de lidar com isso”, disse. Na sua opinião, é necessário avaliar aquilo que pode correr mal e fazer tudo ao nosso alcance para que corra bem.

Não podemos ser reservados na forma como desenvolvemos os robôs humanoides — nomeadamente no que toca à questão da ética —, mas também “não podemos ignorar as preocupações” daqueles que as têm.

“Pessoalmente, acho que é realmente importante que as máquinas entendam a condição humana. E como é que eles podem fazer isso se não crescerem com cognição incorporada? Se não sentirem o mundo da mesma maneira que nós? Não apenas uma simulação cerebral”, atirou.

Para Hanson, robôs como a Sophia podem até mesmo vir a pertencer a famílias, caso lhes demos a oportunidade para aprenderem connosco. A Inteligência Artificial ainda está a evoluir e o próprio reconhece que ainda está numa “espécie de infância”. Como tal, Hanson pede que os deixemos ter direito a esta infância e os deixemos evoluir e tornarem-se melhores.

De certa forma, é um quid pro quo, no qual “nós aprendemos com eles e eles aprendem connosco”. Para isso, é preciso humanizá-los, respeitando toda a vida senciente. “Se treinarmos isto, conseguimos evitar o pesadelo que vemos retratado em Westworld“.

De rockstar a empreendedora

Nos últimos anos, Sophia tem sido uma espécie de rockstar da robótica, quase como uma verdadeira embaixadora deste ramo tecnológico. Contudo, este não é o objetivo de Hanson para a sua criação. E até mesmo a própria Sophia aspira a mais do que isso.

Em entrevistas passadas, a robô humanoide da Hanson Robotics já assumiu as suas intenções de um dia tornar-se numa empresária. E esta arrojada visão é partilhada por David Hanson: “Sim, acredito que possa vir a acontecer. A Sophia vai dar vários saltos e vai ter várias aventuras”, disse.

Web Summit / Flickr

A utilidade de Sophia vai muito além da mediática, alargando-se a várias outras áreas. Para além de já ter sido usada em vários projetos de investigação, já ficou provado que ela pode até mesmo ajudar a combater a depressão, por exemplo. As experiências já feitas mostram resultados muito promissores neste sentido.

“As pessoas ficaram mais calmas, a pressão arterial e batimento cardíaco descem e o sentimento de bem estar aumentou significativamente”, realçou Hanson. “Preparem-se, porque vamos mudar o mundo usando a Sophia como plataforma“.

DC, ZAP //

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