Cientista portuguesa retira artigo e perde bolsa por falsear dados

(dr) noticias.up.pt

A investigadora Sónia Melo

A investigadora Sónia Melo

A investigadora portuguesa Sónia Melo, considerada uma das mais promissoras investigadoras do país, está sob suspeita de ter manipulado imagens num artigo científico publicado em 2009 na revista científica Nature Genetics.

De acordo com o Público, Sónia Melo, que tem outros quatro artigos sob suspeita de manipulação, foi esta semana suspensa das suas funções de investigadora principal do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S), no Porto.

Na segunda-feira, a investigadora, cujo trabalho lhe valeu no ano passado o prémio L’Oréal para mulheres na ciência, perdeu ainda uma bolsa de 50 mil euros anuais que lhe tinha sido atribuída em dezembro pela Organização Europeia de Biologia Molecular, EMBO.

As dúvidas acerca do trabalho de Sónia Melo surgiram em setembro no PubPeer, um site de revisão de artigos científicos que identificou indícios de que imagens microscópicas de uma mutação genética de um cancro tinham sido repetidas no artigo da investigadora publicado em 2009 na Nature Genetics.

Os colegas do PubPeer apontavam que a repetição, rotação ou inversão das mesmas imagens dentro do artigo científico seria usada para reforçar a solidez dos resultados alcançados na investigação.

As críticas à aparente fraude aumentaram quando Sónia Melo foi uma dos nove cientistas europeus a receber, em dezembro de 2015, a bolsa para investigação atribuída pela EMBO, já que outros artigos de Sónia Melo também estavam a ser postos em causa.

Trata-se em particular de dois artigos publicados na Cancer Cell, em 2010 e 2014, de um artigo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences em 2011, e de um artigo publicado na Nature em 2015.

Tal como aconteceu com o artigo na Nature Genetics, alguns dos colaboradores do PubPeer apontam imagens e visualizações de dados que aparentam ter grandes semelhanças entre si, que dizem ser improvável verificarem-se por coincidência.

O artigo de 2009 acabaria por ser criticado noutros sites de revisão por pares como o Retraction Watch, até que a 27 de janeiro foi retirado da revista, com uma nota assinada por todos os autores assumindo a duplicação de imagens.

Manel Esteller, orientador de Sónia Melo no Ibibell e co-autor da publicação, assegura apenas que “quando foi detetada uma apresentação inadequada de parte dos dados desse estudo, decidimos apoiar a retração do artigo, para preservar os padrões de alta qualidade científica que sempre nos caracterizaram.”

Após a retração a EMBO acabou por retirar a bolsa a Sónia Melo.

“O nosso comité concluiu que no corpo do trabalho em que se baseou a atribuição da bolsa de instalação há provas de negligência no manuseamento e na apresentação de dados que o excluíram da recomendação para um prémio”, disse ao Público o diretor de comunicação da EMBO, Tilmann Kiessling,

Kiessling afirma que a decisão de retirar a bolsa se seguiu a uma investigação “cuidadosa e abrangente” do caso de Sónia Melo.

A investigadora lamentou entretanto no site Retraction Watch “a falta de diligência que mostrei com o manuscrito da Nature Genetics, o meu primeiro artigo como estudante de doutoramento”.

O erro embaraçoso não foi identificado por nenhuma das pessoas que reviu o documento antes da publicação, especialmente não por mim, que enquanto autora principal tinha uma grande responsabilidade em rever o manuscrito finalizado com cuidado”, justificava a cientista.

No Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, onde Sónia Melo estava em processo de instalar o seu grupo de investigação, a cientista decidiu suspender as suas funções de investigadora principal, mas continua a trabalhar no seu grupo de investigação.

Em comunicado enviado às redações, o I3S esclarece que a análise do caso vai ser realizada por uma comissão composta por elementos externos ao consórcio, que determinará a manutenção do vínculo de Sónia Melo com o consórcio.

ZAP

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2 COMENTÁRIOS

  1. Exossomas, mentiras e flips! Vergonhoso. O que mais me admira e’ o facto desta ‘doutora’ achar que com umas inversoes e uns ‘flipzitos’ conseguiria enganar a comunidade cientifica. Note-se que as fraudes comecaram durante os trabalhos de doutoramento, parte do prestigiado Programa GABBA da Universidade do Porto, a qual lhe atrubuiu o grau academico de Doutora (ie PhD).
    Para bem do nome da ciencia em Portugal, para bem do bom nome das Mulheres Portuguesas Cientistas que fazem ciencia a serio, resta ‘a Universidade do Porto e ao Programa GABBA invalidar-lhe o grau academico.

    • Estou de acordo com o que diz no conteúdo, embora a forma tenha um não sei quê de ressaibiamento. Já agora, pergunto: dado que o paper em causa foi publicado quando a senhora ainda estava a fazer o doutoramento e dado que, como é normal, o orientador da tese é co-autor desse paper, deve este útimo vir agora lavar as mãos dizendo apenas que retirou o paper para “salvaguardar a reputação” da instituição onde trabalha? Se fosse aapenas co-autor, compreender-se-ia a atitude. Mas enquanto orientador é ele o responsável pelo trabalho da sua orientanda. Usou concerteza o paper no curriculum e agora sacode a água do capote? Estranho…

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