Centenas de cientistas chineses sob suspeita de espionagem nos EUA

QUT Science and Engineering / Flickr

Há mais de 200 investigações em curso em 72 faculdades de Medicina dos Estados Unidos (EUA), visando obter provas contra centenas de cientistas de origem chinesa que terão realizado investigações financiadas pelas universidades americanas para depois entregarem fórmulas e patentes à China.

Esta gigantesca investigação do FBI, revelada na segunda-feira pelo New York Times e citada esta quarta-feira pela Visão, está em curso desde o ano passado, tendo sido pedido o apoio de 18 mil funcionários académicos para a obtenção de provas.

Os agentes do FBI entregaram às universidades software para analisar todas as comunicações de mais de 200 cientistas chineses, procurando detetar palavras chaves em mandarim. Num dos e-mails intercetados entre um investigador e o seu contacto na China seguia anexada documentação confidencial do laboratório americano, com uma mensagem sem qualquer encriptação: “Aqui segue tudo o que precisas”.

Estes roubos não envolvem segredos militares, mas descobertas científicas, desenhos e fórmulas, dados e métodos que podem levar ao desenvolvimento de novos tratamentos médicos rentáveis.

Alguns dos cientistas investigados obtiveram patentes na China para o trabalho financiado pelo governo dos EUA e que seria, portanto, propriedade de instituições americanas. Outros são suspeitos de criar laboratórios-espelho na China, que secretamente duplicavam toda a investigação realizada na área biomédica nas universidades americanas.

Casos como estes não são inéditos, embora a dimensão da rede descoberta pelas autoridades federais não tenha qualquer precedente. Uma das primeiras investigações do género ocorreu em 1999, quando Wen Ho Lee, um cientista do Laboratório Nacional de Los Alamos, foi acusado de roubar planos de ogivas nucleares para a China.

Este esteve detido durante vários meses, mas acabou por ser libertado por falta de provas suficientes. Mais recentemente, o Departamento de Justiça norte-americano teve de deixar cair acusações de roubo contra pelo menos quatro cientistas sino-americanos, que se arrastavam desde 2014.

Agora terão sido encontradas evidências demasiado claras para que os espiões chineses possam escapar, acredita o FBI. Por exemplo, um cientista do Centro M.D. Anderson, um centro de pesquisa e tratamento do cancro, em Houston, Texas, foi detido no aeroporto, a caminho de Pequim, com uma mala cheia de discos externos.

Noutro caso, um professor falava claramente de como pretendia entregar materiais da sua pesquisa a colegas na China. “Devo ser capaz de levar todos os conjuntos necessários para te entregar (isto se eu descobrir como meter uma dúzia de tubos de DNA congelado num avião)”, escreveu.

Estes serão dois um dos cerca de 20 cientistas que se demitiram ou foram despedidos este ano na sequência destas investigações, sendo ainda desconhecidas as acusações concretas a que terão de responder em tribunal.

O roubo de informação económica pode representar 20 anos de prisão, mas as penas, aliadas à espionagem a favor de outra potência, poderão ser ainda mais severas. Isto se estes investigadores forem detidos nos EUA. Muitos terão já abandonado o país nos últimos meses, quando o cerco começou a apertar-se.

O National Institutes of Heath (NIH), agência governamental que financia centros de investigação norte-americanos, aconselhou as instituições a reverem as suas medidas de segurança informática. Deixaram de poder levar-se computadores do trabalho para casa, não é permitido o uso de ‘wifi’, ‘clouds’, ‘pens’ e discos externos, e todos os e-mails passaram a ser monitorizados.

Em vários países, além dos EUA, como o Reino Unido, França, Alemanha, Holanda, Canadá e Austrália, têm-se multiplicado os processos judiciais contra cientistas chineses, tendo sempre por base o roubo de informação científica e/ou de patentes, beneficiando a China. A desconfiança começa a tornar-se um problema para toda a comunidade – mesmo para aqueles que se naturalizaram ou já nasceram noutros países, referiu a Visão.

Os serviços secretos chineses terão apostado nos últimos anos no recrutamento de estudantes e professores colocados nas melhores universidades do mundo ocidental, seguindo a sua estratégia de preservar a segurança da China através da obtenção de segredos comerciais, tecnológicos e militares.

O pouco que se sabe da imensa rede criada (alguns autores falam em dois milhões de espiões), foi revelado por desertores – informações que a China nega veementemente.

Com o escalar da guerra comercial e tecnológica entre os EUA e a China, começaram a falar-se mais abertamente das desconfianças existentes, nas mais variadas áreas. No mês passado, por exemplo, as organizações federais dos EUA foram proibidas de comprar drones chineses, alegando casos anteriores de espionagem.

Há ainda a questão do poderio mundial da Huawei e do que poderá representar a sua rede 5G. A fabricante chinesa é acusada de espionagem industrial e outros 12 crimes pelos FBI, que tem perseguido os seus responsáveis, tendo até decretado no ano passado a prisão da diretora financeira do grupo, no Canadá, solicitando a sua posterior extradição.

Além disso, os EUA têm vindo a pressionar outros países, como Portugal, a excluírem a empresa no desenvolvimento das redes 5G, alegando razões de segurança. A sustentar os receios está uma lei chinesa que requer às empresas que colaborem com o Governo sempre que solicitado. Um risco que a maioria dos países europeus – Portugal incluído – parecem dispostos a correr, em nome do enorme avanço tecnológico previsto.

A Huawei desmente as acusações de espionagem, insistindo que não vai aceder e controlar dispositivos sem o conhecimento dos utilizadores. Na abertura da WebSummit, em Lisboa, o CEO da Huawei, Guo Ping, não abordou diretamente os problemas criados à marca pelo bloqueio dos EUA, preferindo manter um discurso de vitória: “O 5G é a nova eletricidade e quem for nosso parceiro irá vencer”.

ZAP //

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