Cabanas africanas queimadas há mil anos confirmam risco de inversão dos pólos da Terra

NASA Goddard / Flickr

Conceito de artista do Campo Magnético da Terra

O campo magnético da Terra está num estado de “enfraquecimento dramático” que pode levar à inversão dos pólos, com consequências imprevisíveis para a humanidade. Esta é a conclusão de um novo estudo que detectou sinais deste possível cenário em cabanas queimadas em África há mil anos.

A inversão dos pólos magnéticos da Terra tem sido apontada como muito provável por vários cientistas. Ainda no passado mês de Fevereiro, investigadores da Universidade de Leeds alertaram que os pólos magnéticos da Terra podem inverter-se a qualquer momento.

A ideia é reforçada por uma nova pesquisa publicada a 15 de fevereiro no jornal científico Geophysical Review Letters, e que foi conduzida por cientistas da Universidade de Rochester, em Nova Iorque, nos EUA.

Estes investigadores detectaram uma anomalia na fronteira entre o núcleo e o manto da Terra, debaixo de África, que está a enfraquecer o campo magnético do planeta. A pesquisa fala num “enfraquecimento dramático”, segundo o Science Alert, considerando que pode ser um sinal de que o planeta está a preparar-se para virar os pólos magnéticos.

A última inversão completa dos pólos aconteceu há 780 mil anos. Há cerca de 40 mil anos, o fenómeno esteve perto de ocorrer de novo.

Os investigadores acreditam que a “culpa” para algumas das inversões já ocorridas, ao longo de milhares de anos, pode ter sido da chamada Anomalia do Atlântico Sul, situada na região que se estende do Chile até ao Zimbabué.

Uma inversão completa do planeta

A investigação focou-se precisamente nesta Anomalia, concluindo que o enfraquecimento do campo magnético se deve a um grande reservatório de rochas densas situado “logo acima da fronteira entre o líquido quente do núcleo externo e o manto mais rígido e frio” da Terra, explicam os cientistas em comunicado.

Aquele reservatório pode estar a “perturbar o fluxo do ferro e, em última análise, a afectar o campo magnético da Terra”, acrescentam.

A Terra é composta por “um núcleo interno sólido, rodeado por um núcleo externo giratório de ferro fundido” que “cria um dínamo que gera o nosso campo magnético, que actua como uma bolha protectora, envolvendo toda a Terra”, explica o The National Geographic.

Esse campo magnético determina “se a agulha de uma bússola aponta para norte ou sul, mas também protege o planeta de radiações nocivas do espaço“, destaca o comunicado.

“Tal como as rochas numa corrente podem criar redemoinhos”, esta região rochosa por baixo de África pode “fazer com que o núcleo externo circule de forma inusual, expelindo linhas do campo magnético do núcleo e diluindo o campo planetário acima dele”, realça o The National Geographic.

“Em circunstâncias raras, as linhas de campo expelidas podem ter criado um campo magnético regional que era o oposto da Terra como um todo, despoletando uma inversão completa do planeta”.

Registo congelado no tempo

As mudanças no campo magnético não são novidade, mas, até agora, não havia dados sobre se estas alterações eram habituais ou não na zona da Anomalia africana, como repara o físico Vincent Hare, um dos investigadores envolvidos na pesquisa.

A pista fundamental para concluir que estas anomalias já terão ocorrido no passado, e portanto influenciado mudanças no campo magnético, veio de minerais encontrados em argilas da Idade do Ferro, resultantes de queimadas rituais.

Há cerca de mil anos, os antigos africanos que viviam no Vale do Rio Limpopo, que banha países dentro da Anomalia, como o Zimbabué, a África do Sul e o Botswana, queimavam as suas cabanas de argila e caixas de grão em rituais para chamar a chuva, em tempos de seca.

“Quando se queima argila a temperaturas muito elevadas, está-se a estabilizar os minerais magnéticos, e quando estes arrefecem das temperaturas altas, bloqueiam um registo do campo magnético da Terra“, nota o geofísico John Tarduno, outro investigador da Universidade de Rochester que participou na investigação.

Esse registo congelado no tempo revela que este enfraquecimento do campo magnético, na região da Anomalia, não é um fenómeno isolado da história, mas que já se verificou nos anos 400-450, 700-750 e 1225-1550.

“Estamos a obter evidências mais fortes de que há algo inusual na fronteira do núcleo-manto sob África que pode vir a ter um importante impacto no campo magnético global”, aponta John Tarduno.

“Sabemos que este comportamento inusual ocorreu, pelo menos um par de vezes antes, nos últimos 160 anos, e é parte de um padrão maior de longo termo”, acrescenta Vincent Hare. O investigador alerta, contudo, que é “demasiado cedo para dizer com certeza se este comportamento vai levar mesmo a uma inversão completa dos pólos”.

Mas mesmo que isso não se verifique a médio-prazo, “a possibilidade de uma deterioração continuada da força do campo magnético é uma preocupação social que merece estudos e monitorização contínuos”, conclui John Tarduno.

Susana Valente SV, ZAP //

PARTILHAR

RESPONDER

Polícia Judiciária faz buscas na Câmara de Lisboa

A Polícia Judiciária (PJ) está, esta terça-feira, a fazer buscas na Câmara Municipal de Lisboa, nas instalações do departamento de gestão urbanística, situadas no Campo Grande, e nos Paços do Concelho. Ao que o jornal online …

Portugal regista mais 424 casos e cinco óbitos por covid-19

Portugal registou, esta terça-feira, mais cinco mortes e 424 novos casos de infeção pelo novo coronavírus, segundo o último boletim epidemiológico da Direção-Geral da Saúde (DGS). De acordo com o último boletim da Direção-Geral da Saúde …

Ministro reconhece que retoma do Ensino Superior tem de ser "gradual"

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior considerou, esta segunda-feira, que a retoma das atividades letivas tem de ser feita de forma “gradual e faseada”, mas mostrou-se satisfeito com a responsabilidade demonstrada por docentes …

Apenas uma em cada 500 pessoas foram vacinadas nos países pobres. Greta Thunberg apoia vacinação equitativa com 100 mil euros

Apenas uma em cada 500 pessoas, em média, foi vacinada contra a covid-19 nos países pobres, enquanto nos ricos uma em cada quatro já está parcial ou totalmente imunizada, revelou esta segunda-feira a Organização Mundial …

Mário Soares vai dar nome a uma rua na Covilhã

O antigo Presidente da República Mário Soares vai dar nome a uma das ruas da Covilhã, numa homenagem que integra as comemorações do 25 de Abril naquela cidade do distrito de Castelo Branco. O programa preparado …

"Estava em segredo". Comissão de inquérito abre investigação à divulgação do relatório secreto de Costa Pinto

A Comissão Parlamentar de Inquérito ao Novo Banco abriu esta terça-feira uma investigação sumária à divulgação do chamado “Relatório Costa Pinto”. A notícia é avançada esta terça-feira pelo jornal online Observador, o mesmo órgão de comunicação …

Cheias em Luanda fazem 14 mortos e mais de 8 mil desalojados

As chuvas torrenciais que esta segunda-feira provocaram o caos em Luanda, deixaram 14 mortos e mais de oito mil pessoas desalojadas, segundo dados transmitidos esta noite pelo porta-voz do serviço de protecção civil e bombeiros. Faustino …

De Ronaldo a Félix. Seleção pode perder oito jogadores com a Superliga

Se a Superliga Europeia avançar, assim como as ameaças da UEFA, a seleção das quinas poderia ficar sem oito jogadores, tendo em conta a última convocatória para os jogos de qualificação para o ​​​​​​​Mundial 2022. A …

Já se sabe o que causou a misteriosa "tempestade de asma", que vitimou dez pessoas em 2016

Em 2016, na cidade de Melbourne, aconteceu o evento de "tempestade de asma" mais grave do mundo. Os cientistas descobriram agora o culpado. No dia 21 de novembro de 2016, as urgências de um hospital em …

Franceses com passe para poder viajar. Grécia já recebe estrangeiros vacinados ou testados

Numa altura em que vários países já fazem planos de abertura ao turismo, como é o caso de França e Grécia, há outros que ainda se mostram com receio de avançar. Em Itália o número …