De Bíblia na mão, Trump ameaça manifestantes com os militares (e pode invocar Lei com 200 anos)

Shawn Thew / EPA

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

Donald Trump apareceu de Bíblia na mão, em frente à histórica Igreja de St. John, em Washington, depois de ter dito que ia mobilizar “milhares e milhares de soldados altamente armados” para as ruas, para controlar os protestos por causa da morte de George Floyd. Um acto muito criticado por ser considerado um “atiçar das chamas” quando a violência prossegue de costa a costa dos EUA.

Muitas cidades dos EUA continuam a ferro e fogo depois da morte de George Floyd, um afro-americano que faleceu às mãos de um polícia, devido a asfixia provocada pela força do joelho do agente sobre o seu pescoço, conforme revela uma autópsia independente.

Incêndios, vandalismo em espaços comerciais e furtos continuam a acontecer por todo o país. Nas últimas horas, quatro polícias foram feridos nos protestos depois de Donald Trump ter ameaçado enviar os militares para as ruas para controlar as manifestações.

O Presidente dos EUA condenou a morte de George Floyd e prometeu que será feita justiça, mas afirmou que os protestos que têm razão de ser não podem ser afectados por uma “multidão irada”, apelando aos Governadores para tomarem medidas mais duras.

“Se uma cidade ou Estado recusar tomar as acções que são necessárias para defender a vida e a propriedade dos seus residentes, então vou destacar os militares dos Estados Unidos e resolver-lhes rapidamente o problema”, ameaçou também Trump, definindo-se como o presidente da “Lei e Ordem” e acusando o “terrorismo doméstico” de ser responsável pelos protestos.

“Enquanto falamos, estou a destacar milhares e milhares de soldados altamente armados, pessoal militar e agentes de segurança para parar os protestos, os roubos, o vandalismo, os assaltos e a destruição arbitrária de propriedade”, disse ainda.

Vamos acabar com os protestos e a falta de lei que se estão a espalhar pelo país. Vamos acabar com isto”, atirou também.

Depois destas declarações, Trump deslocou-se à Igreja de St. John, em Washington, e tirou uma foto à sua entrada de Bíblia na mão.

A Igreja sofreu um pequeno incêndio que terá sido provocado pelos manifestantes que se encontravam na zona em frente à Casa Branca. A polícia acabou por ter que intervir, dispersando os manifestantes com balas de borracha e gás lacrimogéneo numa acção que terá servido para que Trump pudesse deslocar-se até à Igreja, como avança a Reuters.

Trump já foi muito criticado por este gesto, não só por elementos da Igreja, mas também por Nancy Pelosi, a presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, que exigiu a Trump que seja o “curador em chefe” e que não “atice as chamas”.

Entretanto, a CNN avança que Trump pode invocar a lei Insurrection Act (“Acto de Insurreição”) de 1807 para destacar soldados para manterem a ordem nas ruas dos EUA.

Não há consenso sobre se o Presidente dos EUA o pode efectivamente fazer, mas esta Lei já foi utilizada antes para controlar protestos em Detroit. E foi invocada em 1992, durante os protestos em Los Angeles, na sequência da absolvição dos de quatro polícias brancos responsáveis pela  brutal agressão de Rodney King.

Há juristas que referem à CNN que ele pode invocar o Insurrection Act sem precisar de aprovação de Governadores ou do Senado.

George W. Bush lança farpas a Trump

O ex-Presidente George W. Bush veio, entretanto, fazer uma rara declaração pública onde não fala de Trump, mas deixando vincadas críticas implícitas.

“Esta tragédia – numa longa série de tragédias semelhantes – levanta uma pergunta muito antiga: como é que acabamos com o racismo sistémico na nossa sociedade”, questiona Bush, frisando que é preciso “ouvir as vozes dos muitos que estão a sofrer”.

“Aqueles que partem para o silêncio, essas vozes não percebem o significado da América – ou como se torna num local melhor”, refere ainda Bush, criticando a falta de “uma resposta urgente e adequada das instituições americanas” perante a desigualdade da justiça e a “repetida violação dos direitos das pessoas negras”.

Barack Obama, outro ex-presidente norte-americano, já tinha dito que a única forma de incentivar “uma mudança real” é garantir que “elegemos candidatos que vão actuar na reforma”, defendendo a importância de canalizar “a raiva justificada em acção pacífica, sustentável e efectiva”.

Também o irmão de George Floyd, Terrence Floyd, apelou ao fim da violência, frisando que a melhor resposta para homenagear o irmão deve ser dada aquando do voto nas próximas eleições.

A mãe da filha de George Floyd, que tem 6 anos, apareceu também numa conferência de imprensa a mostrar ao mundo que “Gianna não tem um pai” e que ele “nunca a vai ver a crescer”.

Enquanto isso, surgem preocupações por causa da pandemia de covid-19, com muitos americanos a violarem as regras de confinamento. Teme-se que os protestos acabem por ampliar o contágio da infecção.

Minnesota apresenta queixa contra Polícia de Minneapolis

O estado norte-americano do Minnesota apresentou uma queixa em matéria de direitos humanos contra o Departamento da Polícia de Minneapolis na sequência da morte de George Floyd. George Floyd morreu às mãos de um polícia de Minneapolis.

A apresentação da queixa foi anunciada pelo governador, Tim Walz, e pelo Departamento dos Direitos Humanos do Minnesota, numa conferência de imprensa.

O Departamento de Polícia de Minneapolis tem enfrentado décadas de alegações de brutalidade e outras discriminações contra afro-americanos e outras minorias, mesmo dentro do próprio organismo.

Os críticos afirmam que a sua cultura resiste à mudança, apesar da promoção de Medaria Arradondo como o seu primeiro chefe de polícia negro, em 2017.

O próprio Arradondo estava entre os cinco agentes negros que processaram o departamento de polícia, em 2007, por alegada discriminação nas promoções, nos salários e na disciplina.

No processo afirmaram que o departamento tinha um histórico de tolerância em relação ao racismo e à discriminação. A cidade acabou por resolver o processo por 740.000 dólares (662 mil euros).

ZAP ZAP // Lusa

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11 COMENTÁRIOS

  1. É caricato ouvir agora ex-presidentes, que nada fizeram durante os seus mandatos. Porquê? Porque pouco há a fazer que já não esteja feito. Se culpados, a justiça é servida, como aconteceu neste caso. Aliás, casos destes são raros, e a maior parte baseiam-se em informações falsas, como o caso de Michael Brown, que inicialmente tinha sido baleado com as mãos no ar, mas depois se confirmou que atacou e tentou roubar a arma ao agente. A verdade, depois, não interessou para nada… Vários protestos e todo um movimento criado com base numa mentira.
    Quanto à reacção de Trump. Só peca por ser tardia. Só quem está a sofrer com estes protestos é que sabe o quanto é necessária uma intervenção de força. É fácil apoiar os manifestantes, até verem a própria casa, negócio ou propriedades destruídos. Claro que a oposição só quer sangue, para manchar as mãos do Presidente. Mas qual é a alternativa? Conversar com vândalos e anarquistas? É preciso coragem, e felizmente os americanos têm um presidente que não se esconde.

  2. Ohh sim!… um presidente que manda a policia limpar á bomba uma praça cheia de manifestantes pacíficos só para ir á igreja do outro lado tirar uma foto com a bíblia na mão é, sem duvida, um bom presidente….
    Um louco varrido, apoiado por um bando de gansters e evangélicos é o que é!…

      • Estou bem acordado e vê lá, não te engasges com a risada…
        Sim, já percebi!.. Para os covardes, usar as ruas para protestar contra o que está errado é escolher o caminho errado… Seguir o que o pastor diz é que está certo!
        Fica com a tua que fico com a minha…o conservadozeco..

  3. Nem a política, nem as leis, nem as forças de segurança mudam a realidade. A realidade é que povos evidentemente diferentes e em permanente conflicto vivem no mesmo país. Neste momento a tensão parece ser entre pretos e brancos, mas a tensão é entre todos os grupos étnicos, nativos norte americanos, mexicanos, sul americanos, chineses, coreanos, indianos, africanos, europeus, árabes e sei lá mais o quê. Todos querem viver o sonho americano, só que o sonho americano não chega para todos e têm que tirar um pedaço do sonho dos outros para conseguir o seu. Não há coesão social nos EUA e nunca vai haver, é triste mas é a verdade.

  4. “Não há consenso sobre se o Presidente dos EUA o pode efectivamente fazer, mas esta Lei já foi utilizada antes para controlar protestos em Detroit. E foi invocada em 1992, durante os protestos em Los Angeles, na sequência da morte de Rodney King às mãos de quatro polícias brancos.”
    Rodney King não morreu. Foi brutalmente agredido mas não morreu.
    Os protestos ocorreram após a absolvição dos agressores.
    Informem-se.

  5. Algo me chamou a atenção….uma frase proferida (segundo o autor do artigo) por o Sr. Bush ;..” Repetida violação dos direitos das pessoas negras” . É com estas declarações que se dá força au Racismo, num País dito Democrático, não existe direitos diferenciados para as diversas Etnias. Existem sim, Direitos e Deveres comuns a qualquer Cidadão independentemente das suas Características Raciais,Ideológicas, Politicas ou Religiosas. Mas vindo a frase de quem vem, não me admira, é mais Gasolina para a fogueira !

  6. Em 2020, ver o presidente de um país como os EUA aparecer em público com a Bíblia na mão no meio de uma “guerra civil” só mostra o nível de alienação daquela gente!…
    Esse Trampa e companhia estavam bem era na Arábia Saudita junto com os outros radicais religiosos…

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