Associação das Forças Armadas considera diretiva para comunicação inclusiva uma “provocação”

jfcbrunssum / Flickr

Militar português em treino com espingarda lança-granadas em Tancos

O presidente do Conselho Nacional da Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA) afirmou que a nova diretiva do Governo que implementa uma comunicação inclusiva em todos os documentos oficiais é uma provocação aos militares e admite uma “manifestação ruidosa”.

“Esta diretiva, independentemente das motivações que levaram o senhor ministro a solicitar à secretaria-geral que fizesse um trabalho deste género, na prática está a causar na generalidade dos militares um desconforto, mais um. Diria que está a ser até bastante complicado, está a ultrapassar-se algumas marcas que nós próprios não imaginámos que isto pudesse trazer”, disse ao Expresso o tenente-coronel António Mota.

“Como não deveria deixar de ser, os militares estão é preocupados com as condições de trabalho, com o sistemas de armas, com as remunerações que são baixíssimas, com o problema da saúde militar”, disse, frisando as promoções “que não foram feitas este ano”. Segundo declarou, os militares encaram a diretiva como uma “ofensa” e uma “afronta”.

No documento, divulgado na terça-feira pela TSF e enviada ao Estado-Maior-General das Forças Armadas, à Marinha, ao Exército e à Força Aérea informa sobre alterações na comunicação, nomeadamnete nos textos e imagens partilhadas e difundidas pelos militares, convidando a “termos neutros”, sensíveis “ao género”, evitando a “utilização de linguagem discriminatória”, eliminando “estereótipos existentes”.

“Na língua portuguesa é comum o recurso à utilização do género masculino para designar as pessoas de ambos os sexos, o que gera indefinições quanto às pessoas, homens e mulheres a que se refere, e torna as mulheres praticamente invisíveis na linguagem”, pode ler-se no documento do Ministério da Defesa, citada pela TSF.

Para o presidente do Conselho Nacional da AOFA indicou que “o que provoca a revolta é que os assuntos das Forças Armadas e militares são muito graves e continuam sem solução. Já não temos pessoal praticamente nenhum. Há pessoal com cargas de trabalho de 70 e 80 horas semanais. Auferem o que auferem e depois o Ministério preocupa-se com, e peço desculpa pelo termo, baboseiras destas. Isto é ridículo. É uma provocação, é assim que os militares estão a reagir”.

“É atentatório e ridículo”, referiu, indicando ainda muitos dos militares insatisfeitos são mulheres. “Só estou à frente da associação há quase dez anos, ainda não tive tempo para perceber o que vai na cabeça de quem passa pelo Ministério da Defesa. E não estou só a falar do ministro João Cravinho, mas também do anterior, Azeredo Lopes, um brilhantíssimo ministro, e o anterior, Aguiar Branco, outro brilhantíssimo ministro”, disse.

O responsável acrescentou: “Não percebo as políticas de defesa deste país. Isto é ultrapassar as marcas. Andamos fartos de avisar que já pisaram as linhas vermelhas todas e mais algumas”.

Quanto à palavra “asneira”, explicou que “pode querer dizer fazer-se uma manifestação ruidosa, uma coisa que não estamos habituados a fazer, e que legalmente não podemos fazer. Os militares fazem manifestações desde que não tenham palavras de ordem, nem cartazes, nem coisa nenhuma, nem estejam fardados. São alguns desvios a coisas destas que podem perfeitamente acontecer”.

“E não são crimes nenhuns. Mas podem perfeitamente acontecer e, se acontecerem, são sinais que devem ser levados muito a sério de que começa a haver um conjunto vasto de militares que está a pressionar os outros militares para irem um bocadinho mais longe. Vamos continuar a pugnar por fazer valer o que está na lei e por fazer valer os direitos e interesses dos militares. É bom que o poder político nos dê realmente ouvidos e não reaja com patetices destas como esta diretiva”, concluiu.

ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Já agora como seria a linguagem inclusiva no Governo? Como iria o senhor primeiro ministro apresentar os documentos? Deixará de existir primeiro ministro? Passará a assinar sob o nome de “a pessoa que é responsável pelos ministérios”? Sim, porque se disser que é responsável pelos ministros, já está implícito que os ministros são homens. A língua portuguesa é muito traiçoeira! O que posso dizer é que é pior a emenda que o soneto!

  2. Algo vai mal e muito perigosos. As forcas de defesa e justica devem ser independentes de qualquer forca politica ou governo…senao nao temos poder para responder a exigencia das corrupcoes, invacoes do territorio etc etc…

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