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As faces da febre dos minerais

A procura insaciável pelo lítio e outros “metais críticos” está a deixar o mundo baralhado. Vê a bateria meia vazia ou bateria meia cheia?

No final de outubro, o U.S. Bureau of Land Management aprovou uma nova e gigantesca mina de lítio no deserto do Nevada – naquilo que será o prenúncio de um rápido aumento da extração dos chamados “minerais críticos” nos próximos anos.

Embora se pensa que a administração de Donald Trump possa reverter muitas iniciativas relativas aos elétricos, como aponta a Popular Science, a necessidade destes metais –  como cobre, níquel, alumínio, manganês, zinco, lítio – ultrapassa a política.

Os metais críticos estão no centro do iPhone, do Teslas e de inúmeros outros produtos de alta tecnologia de extrema importância para os EUA. Prevê-se que, nas próximas décadas, a procura global destes metais aumente rapidamente entre 400 e 600%.

Uma economia global cada vez mais high-tech exigirá muito destes elementos críticos do que os que estão a ser produzidos atualmente.

Um único smartphone, por exemplo, pode conter até dois terços de todos os elementos da tabela periódica. No entanto, por comparação, um veículo elétrico Tesla Model S requer tanto lítio como cerca de dez mil iPhones.

Tudo tem um custo

Toda esta nova e rápida procura de metais e dos produtos que alimentam pode estar a ultrapassar a oferta disponível.

Isto significa que as operações mineiras, que têm uma longa história de danos ambientais e de deslocação de comunidades, estão prestes a tornar-se muito mais comuns. Não só nos EUA, como em todo o mundo.

Ainda está quinta-feira, o Governo português deu luz verde à invasão de terrenos privados para a prospeção de lítio, em Boticas.

No entanto, os governos e as empresas que se apressam a extrair o maior número possível destes recursos da Terra correm o risco de poluir ainda mais o planeta.

Ironicamente, estes metais são cruciais para a construção das turbinas eólicas e dos painéis solares que estão a ser construídos para evitar uma futura catástrofe climática. Este dilema é um dos dilemas colocacos pelo jornalista Vince Beiser no livro, Power Metal: The Race For the Resources That Will Shape The Future”, onde acompanhou as várias faces da febre da mineração.

Bateria meia vazia?

Embora uma minoria de novas empresas esteja a experimentar processos químicos inovadores para extrair o lítio diretamente das rochas, a grande maioria da extração deste recurso utiliza atualmente técnicas tradicionais de extração em salmoura, que requerem grandes quantidades de água e podem afetar a ecologia local.

Como exemplifica a Popular Science, na Argentina, as operações de extração de lítio já contaminaram riachos utilizados para irrigar as culturas.

Na China, por seu turno, uma mina de lítio terá poluído de tal forma um rio próximo que matou os peixes que nele viviam e os iaques que bebiam a sua água.

Nos EUA, a EPA calcula que 40% de todas as bacias hidrográficas dos EUA já foram contaminadas por várias formas de extração de rocha dura.

A exploração mineira, independentemente do recurso visado, deixa geralmente uma marca duradoura na sua fonte terrestre e nas pessoas responsáveis pela extração.

É contra isto que agora os ativistas do Nevada estão a lutar.

Ou bateria meia cheia?

Ainda assim, a extração de minerais críticos é mais amiga do ambiente do que o gás e o carvão.

A produção de apenas um gigawatt-hora de eletricidade a partir do carvão, por exemplo, exige 20 vezes mais pegada mineira do que a mesma quantidade de eletricidade produzida por energia solar ou eólica. A conclusão é de estudo publicado no início deste ano, pelo Breakthrough Institute.

Continuando a ver o copo meio cheio, a nível social, os líderes governamentais dos EUA e da Europa afirmam que as novas operações mineiras nacionais podem criar muitos postos de trabalho necessários para as economias em crise e ajudar a diversificar as cadeias de abastecimento globais.

A Agência Internacional da Energia (AIE) estima que o mundo necessitará de dez vezes mais lítio até 2050 para satisfazer a procura de energias renováveis.

ZAP //

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