Há um anti-afrodisíaco inesperado que mata a tensão sexual entre as baratas

A aversão à glucose em algumas fêmeas faz com que estas interrompam a oportunidade de acasalar com os machos que lhes oferecem secreções com açúcar como presente.

A barata-macho pisca o olho à barata-fêmea e oferece-lhe um presente para a atrair e começar a criar o clima — uma mistura de secreções de gorduras e açúcares.

Mas quando quase se pode ouvir a Canção do Engate de António Variações a tocar no fundo, a fêmea parece não estar interessada e deixa o macho frustrado quando abandona o ritual.

A causa deste abrupto travão ao acasalamento? O açúcar. “Este é um comportamento reprodutivo nos insectos e em alguns outros animais: os machos dão um presente saboroso ou valioso às fêmeas — é como o Dia dos Namorados, mas todos os dias”, revela Coby Schal, professor de Entomologia.

Schal é um dos principais autores de um novo estudo publicado na Communications Biology que se debruçou sobre os rituais de acasalamento das baratas alemãs. A pesquisa mostra que as fêmeas com a aversão ao açúcar recebem um presente envenenado quando misturam a sua saliva com as secreções do macho.

“Estamos a ver as fêmeas aversas à glucose a rejeitarem este presente nupcial — e a oportunidade para acasalarem — e queríamos entender mais sobre o mecanismo por trás disto”, afirma Ayako Wada-Katsumata, outra autora principal da pesquisa.

Esta tendência pode parecer estranha quando nos lembramos de quanto as baratas adoram esconder-se nas cozinhas para fazerem banquetes com as migalhas e os restos de açúcar. No entanto, alguns animais não são assim tão gulosos.

Uma pesquisa de 2013 revelou que há um mecanismo neural que explica este fenómeno nas baratas alemãs e que este foi agravado devido à presença de açúcares simples nas armadilhas para os animais colocadas dentro das casas.

“A saliva das baratas tem uma classe de químicos que converte os açúcares complexos em glucose. Quando as fêmeas comem o seu presente, a maltose transforma-se rapidamente em glucose, e as que não gostam de glucose param de comer, o que também acaba com a oportunidade para o acasalamento”, refere Shal.

O processo reprodutivo das baratas começa quando os machos abordam as fêmeas, levantam as asas e lhes oferecem o presente libertado através das glândulas nas suas costas. As fêmeas atraídas pela oferenda sobem às costas dos machos e alimentam-se. Enquanto elas comem, os machos começam a colocar-se numa posição para acasalar.

A corte dura apenas alguns segundos, que são decisivos caso a fêmea em questão não seja apreciadora de glucose. Os cientistas levaram a cabo várias experiências e concluíram que as fêmeas com a aversão à glucose interrompem com maior frequência o processo, o que não dá aos machos tempo suficiente para começarem o acasalamento.

“Os machos podem mudar a composição das secreções — talvez produzindo mais maltotriose, que demora mais tempo a converter-se em glucose — ou então tentar acasalar mais rápido. Em suma, a aversão à glucose evoluiu dentro da selecção natural, mas dentro da selecção sexual está a levar a que os machos modifiquem a sua secreção e comportamento”, remata Wada-Katsumata.

  Adriana Peixoto, ZAP //

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