ADN de cadáveres com 4 mil anos desmente história bíblica sobre os “povos malditos”

(dr) Claude Doumet-Serhal

Um dos cadáveres com 4 mil anos dos povos cananeus da escavação arqueológica em Sídon, no Líbano.

Análises genéticas feitas a cinco cadáveres com 4000 anos demonstram que os cananeus, os povos malditos da Bíblia, não foram exterminados, como sugere o livro sagrado, e que deixaram marcas até hoje, no ADN dos libaneses.

Os cananeus ou canaanitas eram os povos que viviam na chamada Terra Prometida, há cerca de 4 mil anos, no tempo de Abraão, e habitavam o território que é hoje ocupado por Israel, Líbano, Cisjordânia e parte da Síria.

Apesar de serem considerados os inventores de um dos primeiros alfabetos conhecidos, as únicas referências que existem sobre estes povos constam da Bíblia.

No livro sagrado são considerados “povos malditos”, descritos como imorais, adoradores de falsos ídolos e capazes até de sacrificarem crianças. Assim, Deus ordenou a “destruição total dos cananeus” para que os descendentes de Abraão ocupassem a região e não fossem contaminados pela sua imoralidade.

A história da Bíblia sugere assim, que os cananeus foram expulsos pelos israelitas e que acabaram por ser aniquilados.

Mas a investigação, realizada por elementos do Instituto Sanger do Wellcome Trust, no Reino Unido, contraria essa ideia, e apurou que os libaneses actuais descendem desses povos – que terão habitado na zona, de forma contínua, durante a Idade do Bronze e a Idade do Ferro.

“Pela primeira vez, temos provas genéticas de uma continuidade substancial, na região, desde a população canaanita da Idade do Bronze até aos dias actuais”, destaca um dos autores da investigação e director das escavações arqueológicas, Claude Doumet-Serhal, citado num comunicado do Instituto Sanger.

“Mais de 90% do ADN dos libaneses vem dos cananeus”

Os investigadores estudaram cinco cadáveres de cananeus enterrados em Sídon, no Líbano, que foi uma das grandes cidades destes povos antigos.

No artigo científico publicado na revista da Sociedade de Genética Humana dos EUA, explicam que foi graças à técnica de perfuração do osso petroso – a parte mais densa do osso temporal que contém o ouvido interno e que se situa na base do crânio – que foi possível extrair ADN dos cadáveres.

Assim, conseguiram o genoma completo dos cinco cadáveres que foi, depois, comparado com o ADN de 99 libaneses da actualidade.

As conclusões indicam que “mais de 90% do ADN dos libaneses actuais vem daquele povo”, diz o geneticista Chris Tyler-Smith, um dos autores do estudo, ao El País.

A restante percentagem de ADN dos libaneses provém de “diferentes populações da Eurásia”, diz o Instituto Sanger em comunicado. “Os investigadores estimam que os povos da Eurásia se misturaram com a população canaanita há cerca de 2200 a 3800 anos”, acrescenta ainda.

A análise genética permitiu também concluir que os cananeus descendiam de grupos de agricultores que assentaram no Médio Oriente, durante o período neolítico, e que, há 5 mil anos, se cruzaram com imigrantes da Eurásia “geneticamente relacionados com os iranianos calcolíticos“, aponta-se no estudo.

Essa mistura genética encontra-se nos libaneses actuais. “Há uma forte continuidade genética entre a população antiga e as modernas”, atesta o co-autor do estudo, o espanhol Javier Prado, também em declarações ao El País.

Ambas as populações “têm pigmentação da pele, olhos e cabelos semelhantes, ainda que seja provável que os cananeus tenham tido a pele mais escura, já que não possuem uma variante num gene, o SLC45A2, que é, curiosamente, o mesmo que está relacionado com o albinismo de Copito”, refere ainda Javier Prado.

Os cientistas querem agora alargar o estudo a outras populações da região, suspeitando de que “esta linhagem deve ser comum entre todas as pessoas do Médio Oriente” e que “o seu peso será semelhante nos habitantes dos países vizinhos”, conclui Tyler-Smith.

SV, ZAP //

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8 COMENTÁRIOS

  1. Esta descoberta não desmente a história bíblica sobre os cananitas. Antes pelo contrário, confirma o relato bíblico. Títulos sensacionalistas e desconhecimento da Bíblia.

    • sr/sra não é preciso desmentir um livro de estórias. o que é importante é confirmar as hipóteses da ciência e do conhecimento. já não estamos na idade média e no tempo da inquisição, em que tudo girava à volta da Terra.

      • sr/sra
        Estou de acordo com a sua afirmação que não é preciso desmentir um livro de estórias e sabemos que a historiografia séria usa o método científico.
        Mas o que escreve no final é que revela preconceito medieval.

  2. Quando é que metem na cabeça, que a Bíblia não se desmente nem se confirma é apenas literatura , como não se confirma nem se desmente os Lusíadas que também se baseia na história dos portugueses

  3. Cuidado com as traduções! “osso petroso – a parte mais densa do osso temporal que contém a orelha interna”. Orelha interna??? Ouvido interno!

  4. A propósito de traduções…
    Geneticista e não genetecista.
    Calcolítico (ou Idade do Bronze) e não chalcolítico.

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