Winston Churchill morreu há 50 anos

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O carismático Winston Churchill poderá ter sofrido de Síndrome de Napoleão

O carismático Winston Churchill poderá ter sofrido de Síndrome de Napoleão

Winston Churchill morreu há 50 anos e, apesar dos aspetos mais controversos, o legado de uma das figuras mais marcantes do século XX continua patente sobretudo pela oposição contra todas formas de totalitarismo.

“Em 1965 (24 de janeiro) aconteceu uma coisa tremenda: foi a morte do patriarca. Foi o fim de uma determinada forma de ser britânico, afirma o historiador Simon Schama no último episódio do documentário da BBC “History of Britain”.

Schama estabelece o paralelo entre Churchill e o escritor George Orwell, que, apesar das profundas divergências políticas, acaba por homenagear o estadista dando o nome Winston Smith ao herói resistente do livro “1984” sobre um Estado futuro controlado à imagem do nazismo e do comunismo.

Winston Churchill, descendente do duque de Marlborough, nasceu em 1874, no Palácio de Blenheim, perto de Oxford, e tinha antepassados muito mais remotos do que a maior parte da realeza britânica, apesar de a mãe ser norte-americana.

“Churchill tinha – em parte por culpa própria – poucos estudos. As crenças que defendia tinham origens simples: acreditava na piedade e na bondade da ama, Mrs. Everest; nos códigos de fair play do colégio e na ética do Royal Military College (Sandhurst) e no regimento (Hussardos) em que serviu”, escreve o historiador britânico John Keegan na biografia “Uma Introdução à Vida de Churchill”.

Keegan recorda que apesar de ter frequentado a escola privada de Harrow, como a maior parte dos filhos dos aristocratas da época, Churchill não foi um estudante brilhante tendo aprofundado os conhecimentos e um estilo de escrita eloquente através da leitura de obras clássicas durante os anos em que serviu como militar na Índia colonial.

Por necessidades financeiras, Churchill comentava e publicava frequentemente os factos da própria vida, quer nos livros (“A minha Juventude” e “Memórias da I Guerra Mundial”) quer nos textos jornalísticos e conferências sobre a Guerra dos Boers, na África do Sul, na qual tomou parte tendo sido feito prisioneiro, ou a guerra de independência de Cuba de que foi testemunha.

Como militar, em vez de aceitar tornar-se oficial de um regimento de elite, optou por ser um simples atirador de cavalaria, “alistando-se a tempo de participar na última carga de cavalaria do exército britânico, na Batalha de Omdurman”, no Sudão em 1898, destaca o historiador Tony Judt no livro “Pensar o Século XX”.

Judt refere que a carreira política de Churchill viu-o alternar em três ocasiões diferentes entre os partidos conservador e liberal, no decurso das quais ascendeu a altos postos governativos: ministro da Administração Interna, Finanças e da Marinha, em cujas funções foi responsável pela catástrofe militar de Gallipoli, na Turquia, (1915) durante a Grande Guerra.

“Até 1940, a sua carreira fora a do intruso demasiado talentoso: bom de mais para ser ignorado, mas demasiado original e ‘pouco fiável’ para ser nomeado para o mais elevado dos cargos”, escreve Tony Judt.

Como parlamentar, nos anos 1930, manifestou-se frontalmente contra o rearmamento da Alemanha de Hitler e, em plena crise política no Reino Unido, na sequência da demissão do primeiro-ministro Neville Chamberlain, após a invasão da França pelos nazis, em maio de 1940, o rei Jorge VI acaba por nomear Churchill chefe de governo.

Chefe de Governo

Winston Churchill tinha 65 anos quando tomou posse como chefe do Executivo britânico sem “nada mais para oferecer a não ser sangue, suor e lágrimas” tendo sido capaz de mobilizar imediatamente o país na operação de retirada das Forças Expedicionárias que se encontravam encurraladas em Dunquerque, no norte de França.

No contexto da guerra aproximou-se dos Estados Unidos, tendo conseguido empréstimos para financiar as forças armadas e montando uma máquina de guerra contra a Alemanha, a Itália e o Japão, com elevados custos impostos pela austeridade que se prolongaram até meados dos anos 1950.

Apesar dos feitos militares e da condução política nacional e internacional fechou os olhos, tal como Roosevelt nos Estados Unidos, à questão do extermínio dos judeus pela Alemanha nazi; não conseguiu evitar a anexação da Polónia pela União Soviética no final da guerra e autorizou o bombardeamento desnecessário de cidades alemãs, como Dresden, vitimando milhares de civis.

No final do conflito, as relações com Estaline degradam-se com Churchill a assumir-se como uma figura da Guerra Fria contra o mundo comunista atrás do que chamou Cortina de Ferro.

Apesar de ter vencido a guerra perde as eleições no Reino Unido para os Trabalhistas liderados por Clement Atlee em 1945 mas volta a candidatar-se e vence as legislativas de 1951, numa altura de declínio do Império, depois da perda da Índia, e com uma crise no Quénia e a guerra na Malásia.

Em 1953 é-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura sobretudo pelos seis volumes de memórias da II Guerra Mundial e em 1956, por motivos de saúde, abandona o cargo de primeiro-ministro.

Legado

A 10 de janeiro de 1965 sofre um acidente vascular cerebral e morre duas semanas depois, no dia 24, com 90 anos de idade.

“A nação chorou a sua morte, expressando o seu pesar no velório em Westminster Hall, quando trezentas mil pessoas desfilaram perante o seu caixão, e durante o funeral oficial, o primeiro dado a um membro da Câmara dos Comuns desde a morte do duque de Wellington, há mais de um século”, relata Martin Gilbert na longa biografia “Churchill — Uma Vida”

No mesmo texto, Gilbert, recorda que a rainha Isabel II referiu-se a Churchill como um “herói nacional” e Atlee descreveu-o como “o maior cidadão do mundo do nosso tempo”.

O caixão foi depois transportado numa barcaça ao longo do Tamisa até à estação de Waterloo e à passagem da embarcação, os enormes guindastes junto às docas nas margens do rio eram rebaixados como se fizessem uma vénia.

Winston Churchill está sepultado no local onde nasceu, o Palácio de Blenheim, junto aos pais e ao irmão.

// Lusa

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2 COMENTÁRIOS

  1. Bom dia,

    no artigo acima refere que Winston Churchill, descendente do duque de Marlborough, nasceu em 1847, no Palácio de Blenheim, perto de Oxford e que morreu a 24 Janeiro de 1965 com 90 anos.
    Sabe informar o que está correcto e o que está errado nestas datas?

    Obrigado

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