Vitória do Sinn Féin nas eleições, divisão unionista e sombra do Brexit perpetuam crise na Irlanda do Norte

sinnfeinireland / Flickr

Líder do Sinn Féin na região, Michelle O’Neill

O partido nacionalista Sinn Féin obteve 29% dos primeiros votos escrutinados nas eleições regionais realizadas na Irlanda do Norte, que confirmam também a recuperação de partidos do centro e uma divisão no sindicalismo.

A contagem eleitoral provisória evidencia que a antiga ala política do IRA e firme defensora da reunificação da Irlanda está a caminho de uma vitória histórica, aguardando-se qual será a composição final da Assembleia de Belfast com 90 lugares.

O Partido Unionista Democrático recebeu até agora 21,3% dos votos, enquanto o Partido Aliança, do centro-liberal, obteve 13,5%, consolidando-se na terceira posição.

Com este resultado, a líder do Sinn Féin na região, Michelle O’Neill, concorrerá ao cargo de ministra-chefe, funções nunca ocupado por um político nacionalista nos 100 anos de história daquela província britânica.

“Foi muito positivo, acho que fizemos uma campanha muito positiva”, disse Michelle O’Neill, enquanto a presidente do partido, Mary Lou McDonald, salientou que o Sinn Féin venceu “as eleições mais importantes em uma geração”.

Após assegurar o cargo, Michelle O’Neill reiterou que quer “trabalhar em cooperação com os outros” grupos políticos para resolver problemas que afetam a cidadania, como “o custo de vida ou a saúde”.

O Sinn Féin falou durante a campanha eleitoral desses assuntos, mas a questão da reunificação da Irlanda chamou mais uma vez a atenção do sindicalismo num momento em que o Brexit ameaça colocar em risco a união com a coroa britânica. .

O Partido Unionista Democrático, maioritário nos últimos 20 anos, reiterou que não fará parte de um governo de coligação se as conversas mantidas por Londres e Bruxelas não levarem à eliminação do protocolo do Brexit para a região .

“Até que essa questão seja resolvida, podem realizar as eleições que quiserem, mas não haverá governo até que seja consertada a questão do protocolo”, disse Ian Paisley, deputado do Partido Unionista em Westminster.

O líder do Partido Unionista salientou que, à luz dos resultados das eleições, Londres “agora terá que se concentrar em resolver” os problemas que os acordos comerciais pós-Brexit estão a causar na Irlanda do Norte.

O Partido Unionista forçou a queda do governo em fevereiro último e agora não tem intenção de apresentar, no caso de ficar em segundo lugar nestas eleições, um candidato ao cargo de vice-ministro-chefe de Michelle O’Neill.

Segundo o acordo de paz da Sexta-feira Santa (1998), que pôs fim ao conflito, nenhum dos dois cargos pode existir sem o outro e, embora ambos tenham o mesmo estatuto, o cargo de ministro-chefe tem uma enorme carga simbólica para o sindicalismo protestante.

Como previam as sondagens durante a campanha, o cansaço do eleitorado com as constantes crises constitucionais fez com que surgissem formações não alinhadas aos dois blocos tradicionais, como o Partido Aliança, liderado por Naomi Long, que foi quinta força política nas eleições de 2017.

A Aliança pode agora firmar-se na terceira posição, não muito distante do Partido Unionista, para entrar com força no próximo executivo.

Na legislatura anterior, Long integrou um governo autónomo dominado pelo Partido Unionista, Sinn Féin, Partido Nacionalista Social Democrata e Trabalhista (SLDP) e Partido Unionista do Ulster (UUP), que agora obtiveram 9,1 e 11,2 % dos votos, respetivamente, nos primeiros resultados escrutinados.

O Brexit, rejeitado pelo eleitorado da Irlanda do Norte no referendo de 2016, teve consequências negativas no resultado do Partido Unionista, que continua a defender o Brexit, o que provocou a “divisão” do bloco protestante, conforme reconheceu hoje o seu líder, Jeffrey Donaldson.

  // Lusa

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