União Europeia conseguiu vacinas a preço de saldo — mas a que custo?

Christian Bruna / EPA

A União Europeia uniu esforços na procura e compra de vacinas contra a covid-19, conseguindo alguns dos preços mais baixos do mercado. Agora, o tiro saiu pela culatra e vários líderes nacionais estão a denunciar o excesso de burocracia que está a atrasar todo o processo de vacinação.

Enquanto os Estados Unidos e o Reino Unido davam início à vacinação, a União Europeia manteve-se paciente. Com isso conseguiu preços mais baixos, maior responsabilidade para os fabricantes de medicamentos e vacinas para toda a UE. Em contrapartida, os atrasos na chegada das vacinas estão a fazer com que os países questionem se esta terá sido a melhor abordagem.

Esta é a dúvida que assola principalmente os países mais ricos, que avaliam se a solidariedade vale o atraso, escreve o POLITICO.

A União Europeia emprestou 80 milhões de euros à CureVac para testar e produzir as suas vacinas na Europa, com receio de que os Estados Unidos a monopolizassem. A aposta saiu algo furada, já que a BioNTech aliou-se à Pfizer e adiantou-se na produção de uma vacina contra o novo coronavírus.

Bruxelas criou ainda um sistema para controlar o poder de compra de 37 países – a UE27 e dez dos seus vizinhos – para comprar máscaras e ventiladores. Relativamente às vacinas, continuava a não haver um plano eficaz, fundamentalmente devido à burocracia.

Antes de poder fazer uma encomenda, a Comissão Europeia teve de esperar que cada país da UE assinasse o contrato. Alguns países, fartos de idas e vindas intermináveis, simplesmente compravam os itens por conta própria.

A 13 de junho, França, Alemanha, Países Baixos e Itália anunciaram um acordo para conseguir entre 300 milhões e 400 milhões de doses da vacina Oxford/AstraZeneca. Este grupo de países adiantou-se à própria Comissão Europeia, que ainda procurava por candidatos. Os países mais pequenos viram isto como uma ameaça.

Apenas quatro dias depois, a Comissária da Saúde, Stella Kyriakides, apresentou o que se tornaria o novo plano de vacinas da UE. Em vez de obter aprovações de cada país da UE, a ferramenta deu a Bruxelas a capacidade de comprar vacinas diretamente, inicialmente alocando para o efeito cerca de 2,1 mil milhões de euros.

Depois de aprovados pelos reguladores, as vacinas foram distribuídas aos países da UE de acordo com as suas populações.

Apesar daquilo que ficou prometido em contrato, as vacinas estão a chegar com um atraso significativo aos países. Reina um clima de tensão entre a União Europeia e a AstraZeneca, depois de a farmacêutica ter revelado que iria reduzir as entregas da sua vacina devido a problemas de produção.

O CEO da farmacêutica britânica, Pascal Soriot, disse que estavam a fazer o melhor que podem e que o Reino Unido não estava a ter estes problemas porque esse contrato “foi assinado três meses antes do europeu”.

O Executivo comunitário não se deixou ficar sem uma resposta. “Rejeitamos a lógica do ‘primeiro a chegar é o primeiro a ser servido’. Isso pode funcionar no talho do bairro, mas não em contratos, e não nos nossos acordos prévios de aquisição”, afirmou Stella Kyriakides.

“Apelo à AstraZeneca que se empenhe totalmente na reconstrução da confiança, no fornecer de informações completas e cumprindo as suas obrigações contratuais, societárias e morais”, acrescentou.

A possibilidade de se atrasar nas entregas, segundo a empresa, está prevista numa “cláusula de melhores esforços” no contrato assinado com Bruxelas, algo que o Executivo comunitário rejeita.

“A visão de que a empresa não está obrigada a cumprir porque assinámos um acordo de melhor esforço, não é correta nem aceitável. Assinámos um acordo prévio de aquisição para um produto que ainda não existia e que ainda hoje não está autorizado. E assinámo-lo precisamente para garantir que a empresa adquire capacidade produtiva para produzir a vacina mais cedo, a fim de poder distribuir um certo volume de doses no dia em que tiver autorização”, disse ainda a comissária.

A Agência Europeia do Medicamento (EMA) prevê aprovar, até ao final desta semana, a vacina da AstraZeneca, apesar dos problemas de fornecimento.

Assim, apesar da frente unida na procura e compra de vacinas contra a covid-19, a União Europeia está agora atrasada em comparação com os Estados Unidos e com o Reino Unido.

Daniel Costa Daniel Costa, ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. O problema da Europa é antigo e não tem solução à vista: Subjugados à obrigação de ter em conta as opiniões e interesses de todos os estados membros, torna a liderança da Europa ‘morna’… frouxa, cheia de buracos e pontos fracos.

    Por isto e por mais não ser que um projeto mercantilista, a Europa irá falhar sistematicamente em alturas de crise ou conflito.

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