Sinn Féin perto de ganhar eleições pela primeira vez na Irlanda do Norte

Aidan Crawley / EPA

Mary Lou McDonald, líder do Sinn Féin

No dia 5 de maio, a Irlanda do Norte vai eleger os deputados da Assembleia regional e as sondagens indicam que o Sinn Féin poderá ganhar a maioria, o que significaria um primeiro-ministro nacionalista republicano pela primeira vez.

O Partido Democrata Unionista (DUP) dominou a política nos últimos 19 anos, desde 2003, mas tem vindo a ver perder terreno para o rival histórico Sinn Féin, que focou a campanha na melhoria das condições de vida e contra o ‘Brexit’.

Uma derrota do DUP, que perdeu apoio após alinhao com os Conservadores eurocéticos de Boris Johnson, poderá resultar num vazio no poder em Stormont, pois o partido ameaçou inviabilizar um Executivo regional enquanto o Protocolo pós-‘Brexit’ não for abolido.

Visto pelos unionistas como uma ameaça à integridade territorial do Reino Unido, o texto criou controlos aduaneiros adicionais entre a província e o resto do Reino Unido, mantendo na prática a Irlanda do Norte no mercado único europeu e na união aduaneira.

Em fevereiro, o primeiro-ministro norte-irlandês Paul Givan, do DUP, demitiu-se em protesto contra o protocolo, resultando na queda da vice primeira-ministra, Michelle O’Neill, do Sinn Féin.

O primeiro-ministro e o vice-primeiro-ministro têm na prática a mesma importância, pois um não pode tomar uma decisão sem a aprovação do outro, pelo que a saída do DUP do posto de primeiro-ministro tem sobretudo um peso simbólico.

De acordo com o sistema desenhado pelos acordos de paz de 1998 na Irlanda do Norte, o Governo regional tem de ser partilhado pelos partidos das duas fações do conflito, ‘unionistas’ protestantes leais à coroa britânica e republicanos católicos favoráveis à reunificação política da ilha da Irlanda.

O Sinn Féin é o antigo braço político do Exército Republicano Irlandês (IRA), grupo responsável por atentados bombistas que mataram centenas de pessoas entre os anos 1960 e 2000, o que já em si é motivo para aversão entre muitos eleitores.

O partido irlandês tem ainda como política fundamental promover um referendo para sair do Reino Unido e juntar-se à República da Irlanda, o que o DUP e outros partidos ‘unionistas’, bem como o Governo de Boris Johnson, querem evitar.

“O sucesso do Sinn Féin poderá ter implicações profundas no ‘unionismo’, na política britânica, para os habitantes da Irlanda do Norte, por isso é um momento significativo”, afirmou o professor de ciências políticas da universidade London School of Economics, Tony Travers.

Igualmente importante será o resultado dos partidos que não são nem nacionalistas nem ‘unionistas’, como o Alliance, Verdes e People Before Profit, que rejeitam o sectarismo que tem marcado a política norte-irlandesa.

Negociações para formar Governo prolongam-se normalmente durante vários meses, pois o Executivo tem de envolver os partidos mais votados e respetivas sensibilidades, muitas vezes contraditórias entre parceiros da coligação.

Ao todo, vão a votos os 90 assentos na Assembleia da Irlanda do Norte nos 18 círculos eleitorais.

As últimas eleições, em 2017, resultaram em três anos de impasse político, até ser formado um Governo regional em 2020.

Boris Johnson enfrenta teste

As eleições autárquicas britânicas de 5 de maio representam um teste à popularidade do Partido Conservador, do primeiro-ministro Boris Johnson, sob pressão devido à crise do custo de vida e ao prolongamento do escândalo “Partygate”.

Embora o que está realmente em causa nas eleições são os problemas locais – como o estado das estradas, limpeza das ruas ou o funcionamento de serviços como a recolha do lixo -, alguns eleitores deverão aproveitar a ocasião para enviar uma ‘mensagem’ ao Governo sobre a situação política nacional.

Em Inglaterra, vão ser disputados 4.360 postos em 146 autarquias, na Escócia serão 1.227 assentos em 32 localidades e no País de Gales vão a votos 1.200 lugares em 22 municípios. Na Irlanda do Norte estão em disputa todos os 90 assentos na Assembleia Legislativa, eleitos por cada um dos 18 distritos eleitorais.

As eleições locais em Inglaterra realizam-se quase todos os anos, mas em diferentes autarquias. Nos locais do ano passado em Inglaterra, os Conservadores conquistaram mais 235 postos e o Partido Trabalhista perdeu 327, mas este ano o partido da oposição parte com vantagem nas sondagens.

A crise económica pós-pandemia, agravada pela guerra na Ucrânia, está a pesar no custo de vida, em especial nos preços da energia, combustíveis e alimentação, coincidindo com o aumento de impostos para tapar o buraco orçamental causado pela despesa na saúde criada pela covid-19.

Os britânicos estão prestes a sofrer a maior queda no nível de vida desde a década de 1950, de acordo com a Resolution Foundation, podendo empurrar 1,3 milhões de pessoas em todo o Reino Unido para a pobreza nos próximos meses.

Além disso, Boris Johnson está a sofrer do desgaste causado pelo escândalo “Partygate” relacionado com o desrespeito por funcionários do Governo das restrições para controlar a pandemia, incluindo na residência oficial do primeiro-ministro, em Downing Street.

Johnson, a esposa Carrie e o ministro das Finanças, Rishi Sunak, foram multados pela polícia, que continua a investigar mais “festas”, e o parlamento decidiu abrir um inquérito para determinar se o chefe do Governo mentiu aos deputados quando negou qualquer irregularidade.

Apesar da guerra na Ucrânia, o escândalo conseguiu ganhar espaço na agenda mediática, causando cada vez mais desconforto dentro do Partido Conservador, devido ao descontentamento dos eleitores.

Embora este seja um conjunto diferente de eleições relativamente a 2021, já que em causa estão maioritariamente assentos ocupados por trabalhistas, será ainda assim um teste à liderança de Boris Johnson.

A mais valia de Johnson como um trunfo eleitoral será posta à prova em municípios tradicionalmente conservadores em Londres, como Wandsworth e Barnet, e noutras partes do país, como Harlow, Southampton, Newcastle-under-Lyme ou Thurrock.

Algumas sondagens indicam que o Partido Conservador poderá perder mais de 800 assentos no total.

O politólogo Tony Travers admite que isto desencadeie uma “revolta” no Partido Conservador, se um número suficiente de deputados observar nos resultados uma ameaça à própria reeleição nas próximas legislativas, a acontecer até 2024.

“Tudo se resume à pergunta: será que vou manter o meu lugar? Se considerarem que o primeiro-ministro já não garante que tal aconteça, ele fica em apuros”, afirmou o professor de ciências políticas da universidade London School of Economics.

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Porém, acrescenta Sara Hobolt, académica na mesma instituição, Johnson tem a favor o facto de nenhum potencial candidato à sucessão se destacar atualmente.

“Se os deputados conservadores soubessem que havia alguém que fosse tão popular com os eleitores, Johnson seria posto fora em breve, mas não parece que seja o caso”, comentou.

O Partido Trabalhista tem nestas eleições o desafio de recuperar eleitores perdidos para os ‘tories’ nas regiões norte e centro de Inglaterra por causa do ‘Brexit’ nas legislativas de 2019 e credibilizar a aspiração do líder Keir Starmer em chegar ao poder.

Embora as atenções em Inglaterra estejam centradas no teste de forças do ‘Labour’ e dos ‘tories’, estas eleições são também importantes para os Liberais Democratas, que querem restabelecer a nível local apoio perdido nos últimos anos.

As eleições locais são também uma oportunidade para os Verdes, partidos menores e candidatos independentes “brilharem” e conquistarem algumas cadeiras, o que a nível nacional é mais difícil devido ao sistema eleitoral de maioria simples.

  ZAP // Lusa

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