Ainda sem maioria, Macron faz remodelação no Governo e pisca o olho à direita

jeso.carneiro / Flickr

O presidente francês, Emmanuel Macron.

Macron tem apontado políticos de direita com ligações aos Republicanos na esperança de conseguir formar uma coligação que lhe permita segurar a maioria na Assembleia Nacional.

Depois de as legislativas terem ditado a perda da maioria absoluta do partido de Macron na Assembleia Nacional, o Presidente francês anda agora a tentar remodelar o Governo na esperança de conseguir uma coligação que o deixe Governar mais confortavelmente. Esta é já a segunda mudança no elenco em seis semanas.

Desta vez, Macron decidiu convidar o ex-Ministro da Saúde que liderou o país durante a pandemia, Olivier Véran, a voltar a integrar o executivo e ser o porta-voz do Governo, nota o The Guardian.

A ex-Ministra da Igualdade, Marlène Schiapa, que foi retirada do Governo na primeira remodelação, afinal, deve voltar e assumir o cargo de Secretária de Estado da Solidariedade Económica e Social e da Vida Associativa.

Os dois nomes que estavam a ser falados para o cargo de Ministro da Solidariedade e para Secretária de Estado do Desenvolvimento — Damien Abad e Chrysoula Zacharopoulou, respectivamente — foram afastados depois de terem sido alvo de acusações de violação.

Três dos Ministros que Macron tinha nomeado antes das eleições perderam os seus lugares na ida às urnas. Clément Beaune, ex-Ministro da Europa, vai assumir a pasta dos Transportes, e o seu antigo cargo será agora ocupado por Laurence Boone, um economista e ex-conselheiro do antigo Presidente François Hollande.

As novas caras incluem também François Braun, que liderava os serviços de ambulância franceses e será o novo Ministro da Saúde. Outros nomes do novo Governo incluem membros dos Republicanos, partido de centro-direita que é uma das poucas esperanças de Macron para conseguir segurar o Governo e aprovar pacotes legislativos que precisem da luz verde da Assembleia Nacional.

Terá sido também por esta razão que o chefe de Estado fez uma escolha surpreendente para o cargo de Ministro das Relações com o Parlamento, que assume uma importância reforçada num Governo minoritário.

As apostas apontavam para Olivier Véran, mas Macron optou pelo Republicano Franck Riester, que foi director de campanha do ex-Presidente Nicolas Sarkozy e que liderada a formação política de centro-direita Agir, fundada em 2017.

Assim, apesar de ter piscado o olho à esquerda durante a campanha eleitoral perante o fantasma da subida da coligação NUPES — subida essa que se confirmou no dia das eleições — e de ter inclusivamente nomeado uma primeira-ministra com raízes socialistas, Macron está agora mais focado em negociar com os partidos à direita e esta escolha reflecte isso.

As escolhas de Bruno Le Maire (Ministro das Finanças), Gérald Darmanin (Ministro do Interior) ou Sébastien Lecornu (ministro da Defesa) são outras nomeações oriundas fa família política de direita.

Borne enfrenta protestos da oposição

A primeira-ministra francesa, Elisabeth Borne, fez hoje a primeira intervenção na Assembleia Nacional onde elencou as prioridades do Governo e se mostrou aberta a “construir” apesar da moção de censura apresentada pela esquerda.

“Uma maioria relativa não é nem será um sinónimo de uma acção relativa. Não é sem será um sinal impotência”, garantiu.

A líder do Governo francês admitiu que não há acordo para uma governação estável, sem hipótese de coligações para a força do Presidente, mas que vai constituir “uma maioria de projetos”, dizendo ser uma mulher pronta a “construir a França”.

A primeira-ministra disse que “o Estado vai voltar a deter 100% do capital da EDF”, empresa nacional de eletricidade, definindo a meta de que a França seja a primeira potência mundial a deixar de utilizar os combustíveis fósseis.

Tal como o Presidente tinha prometido na campanha das eleições presidenciais, a taxa do audiovisual vai deixar de existir até ao final deste ano, disse ainda. Entre as prioridades para os próximos cinco anos estão ainda as melhorias do poder de compra dos franceses, com Borne a dizer que vai começar uma consulta com os sindicatos, apostando no pleno emprego.

Uma vez que a primeira-ministra, ao contrário do que acontece tradicionalmente em França, não pediu um voto de confiança aos deputados, a esquerda já tinha apresentado uma moção de censura mesmo antes de proferir o seu discurso no hemiciclo.

“Eu não correspondo, talvez, ao retrato ‘robot’ que certas pessoas esperavam”, disse a primeira-ministra.

“Calha bem, vivemos uma situação inédita. Não tenho o complexo de mulher providencial. Fui engenheira, trabalhei numa empresa, fui governadora civil e ministra. O meu percurso seguiu apenas uma direção: servir. Só tenho uma bússola, construir o meu país”, adiantou.

O discurso da ministra aconteceu sob fortes protestos da oposição, com a presidente da Assembleia Nacional recém-eleita, Yaël Braun-Pivet, a ter de pedir vários vezes aos deputados para se acalmarem.

  Adriana Peixoto, ZAP // Lusa

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