Santa Maria vai ter espaço para doentes com alta que não têm para onde ir

Mário Cruz / Lusa

O Hospital Santa Maria, em Lisboa, vai criar um espaço com 26 camas para pessoas que já tiveram alta clínica, mas que permanecem internadas por não terem para onde ir.

Em entrevista à agência Lusa, o diretor clínico do Centro Hospitalar Lisboa Norte, que integra o Hospital Santa Maria, explicou que a ideia é retirar doentes que já não precisam de internamento das camas para doentes agudos.

Trata-se de casos de pessoas que têm alta clínica, mas que aguardam vaga em lares ou na rede de cuidados continuados e que não têm também familiares com condições para as acolher.

A partir de meados de dezembro, o responsável do Santa Maria conta ter um espaço, que terá 26 camas, para essas pessoas que já têm alta clínica.

“Não é um lar, atenção. Não vamos criar um lar. Vamos ter um espaço de internamento onde temos equipas de enfermagem permanentes, não deixamos de ser um hospital e temos esse ADN e essa responsabilidade e teremos disponibilidade médica para identificação de problemas e resolução. Garantimos acompanhamento de enfermagem 24 sobre 24 horas. Não é uma enfermaria nem um lar, é algo intermédio”, explicou o diretor clínico, Luís Pinheiro.

O barómetro de internamentos sociais da Associação dos Administradores Hospitalares, divulgado em abril, indicava que cerca de mil camas dos hospitais públicos estão diariamente ocupadas por pessoas que não precisariam já de estar internadas, mas que não tinham alternativa.

Segundo o mesmo estudo, os doentes internados por motivos sociais ficam em média quase cem dias no hospital, o que representou um aumento superior a 40% em relação a 2018.

Incapacidade das famílias ou falta de respostas na comunidade são os principais motivos destes internamentos sociais.

Projeto para reduzir sobrelotação nos internamentos

No âmbito de um projeto mais amplo para tentar diminuir a sobrelotação dos internamentos, o Centro Hospitalar Lisboa Norte prevê melhorar os processos internos para reduzir o tempo de internamento desnecessário, evitando doentes internados em macas.

O diretor clínico admitiu que está traçado o diagnóstico de que “há doentes que estão internados além da dotação oficial e física de camas”, sendo a sobrelotação uma realidade destes hospitais, como de outros no país.

O problema da sobrelotação acontece sobretudo em áreas de especialidades médicas, que recebem muitos doentes das urgências, não afetando tanto as especialidades cirúrgicas, que conseguem manter uma atividade programada.

Luís Pinheiro indica que o objetivo é reduzir o tempo de internamento desnecessário. “O objetivo não é que o doente saia enquanto precisar de cá estar. O objetivo é que precise de cá estar menos tempo. É tentar encurtar não o serviço que prestamos, mas rentabilizar e retirar permanências desnecessárias. Se um doente está à espera dois ou três dias de um exame, se estiver um dia e meio, ganhamos. O objetivo não é dar alta mais cedo do que precisa, é fazer com que precise de estar menos tempo no hospital”.

Dentro de um ano, o CHULN pretende reduzir entre 0,3 a 0,5 dias de internamento por doente, em média. No serviço de medicina interna estão, por ano, em média, 10 mil doentes. Uma redução de 0,3 dias de internamento permitirá uma diminuição de 3.000 dias.

Atualmente, por exemplo, há num dia cerca de 40 doentes no Santa Maria além da lotação oficial nas enfermarias de Medicina, que representam cerca de 170 camas.

Luís Pinheiro frisa que mesmo os doentes internados além da lotação estão em enfermarias e com equipas médicas e de enfermagem atribuídas, tentando o hospital que cada doente não esteja mais de 24 horas fora da sua “cama definitiva”.

Perante o diagnóstico de sobrelotação, o Santa Maria vai começar hoje com um dos “quatro pilares” de um projeto mais amplo, que passa por “reorganizar os processos” dos serviços, em conjunto com os profissionais, para “agilizar o funcionamento interno”.

Hospitalização domiciliária

Além disso, o CHULC pretende avançar durante o próximo mês com o primeiro conjunto de meia dúzia de doentes em hospitalização domiciliária, uma resposta que permite a doentes recuperar em casa de uma doença aguda.

“A hospitalização domiciliária é uma realidade perfeitamente conhecida e validada. Há garantia de cuidados médicos e de enfermagem como se estivessem internados. São doentes cuja estabilidade clínica permite ter segurança de não estarem no espaço hospitalar, mas que carecem de cuidados que são hospitalares e prestados no seu domicílio”, indicou.

Cerca de 20 hospitais públicos em Portugal têm hospitalização domiciliária e a ministra da Saúde já assumiu que quer alargar estes projetos a todas as unidades hospitalares do SNS.

O Centro Hospitalar Lisboa Norte vai começar com cinco ou seis doentes em hospitalização domiciliária e pretende ir alargando progressivamente esse número.

“Em termos de objetivos, quantos mais doentes tivermos fora do hospital, maior a segurança para esses doentes. Estar no hospital é necessário em muitas situações, tentamos é que essa permanência seja reduzida ao mínimo, porque há sempre riscos associados”, declarou o diretor clínico.

Segundo o diretor clínico, Luís Pinheiro, o Santa Maria prevê ainda requalificar um espaço com 22 camas para doentes agudos, mas que tenha flexibilidade para receber doentes não agudos, um espaço que deverá estar pronto em meados de janeiro.

ZAP // Lusa

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