Afinal, os sacos de plástico descartáveis são melhores para o ambiente que os de papel

Os sacos de plástico foram substituindo os de papel desde a década de 1970 na maioria dos países, devido ao facto de durarem mais tempo. Com a crescente polémica sobre a contaminação ambiental causada por este material, os sacos de papel voltaram a estar em voga. Alguns estudos mostram, contudo, que esta opção não é a mais benéfica, nem a nível ecológico nem a económico.

Anualmente, são produzidas 381 milhões de toneladas de plástico. Este material circula pelo planeta, ao vestirmos casacos de polímero sintético que nos mantêm aquecidos no inverno, ao utilizarmos embalagens para conservar alimentos e ao recorrermos a dispositivos eletrónicos. É a era do plástico, mas também da poluição por ele causada.

O lixo plástico está presente nas cidades e nos oceanos, contaminando o solo, o ar, a água do mar e a água doce, e levando à morte de milhões de animais a cada ano. A segurança dos produtos químicos utilizados na sua produção uma preocupação crescente. O uso e a gestão deste material como um substituto barato para as tradicionais cestas e sacolas reutilizáveis ​​tem sido um desafio para várias agências ambientais em todo o mundo.

Para se ter uma ideia sobre os sacos ecologicamente mais rentáveis, é necessário ter em consideração um conjunto de critérios, entre eles a energia utilizada para a sua produção, a duração – quantas vezes pode ser reutilizada -, o processo de reciclagem e a velocidade com que se decompõem.

De acordo com um artigo da BBC Brasil, divulgado em janeiro de 2019, uma pesquisa da Assembleia da Irlanda do Norte revelava que era necessário quatro vezes mais energia para fabricar um saco de papel do que para um de plástico. Por serem mais pesados, o seu transporte exige também maiores esforços, aumentando a pegada de carbono.

O mesmo relatório indicava que os sacos de plástico eram produzidos através de sub-produtos de petróleo, enquanto os de papel requerem o corte de árvores. O processo de produção deste último origina igualmente uma maior concentração de componentes químicos tóxicos, em comparação com os sacos plásticos descartáveis (mais finos, distribuídos gratuitamente nos supermercados).

Em 2006, a Environment Agency – órgão do governo britânico que trabalha em prol do ambiente – examinou uma variedade de sacos produzidos com diferentes materiais para descobrir quantas vezes esses precisariam ser reutilizados para ter uma menor contribuição no aquecimento global do que um saco de plástico descartável.

A pesquisa mostrava que os sacos de papel precisam ser reutilizados três vezes, uma a menos do que os sacos de plástico mais resistentes. Não obstante os benefícios da sua utilização, “é improvável que o saco de papel possa ser regularmente reutilizado o número necessário de vezes, devido à sua baixa durabilidade”.

Apesar da sua baixa durabilidade, contudo, o papel decompõe-se muito mais rapidamente do que o plástico e, portanto, é menos provável que seja uma fonte de lixo e represente um risco para a vida selvagem. É também amplamente reciclável, enquanto o plástico pode levar entre 400 a mil anos para se decompor.

O artigo da BBC Brasil indica ainda que os sacos de algodão, apesar de necessitarem de mais carbono na produção, “são os mais duráveis e têm uma vida muito mais longa”, embora exijam um maior número de reutilizações (131) para serem mais “amigos do ambiente”, devido à alta quantidade de energia utilizada na sua produção.

Uma outra investigação, realizada pelo Earther e divulgada pelo HypeScience, em junho de 2018, mostra que, embora a proibição do uso de sacos plásticos seja vantajosa, apenas o é em regiões próximas ao mar. Nas outras partes do globo, o melhor é usar os sacos plásticos e reutilizá-los o maior número de vezes, antes de os usar para o lixo doméstico.

Enquanto em relação ao descarte a hierarquia começa nos sacos reutilizáveis e mais resistentes (feitos de polipropileno), passando para os de papel e, por último, os sacos de plástico mais finos. Porém, quando o foco são as emissões de carbono, a uso de água e de energia, o papel e os sacos reutilizáveis ficam “muito atrás da boa e velha sacola de petróleo”, lê-se no artigo.

Noutro estudo, realizado pela Agência de Proteção Ambiental da Dinamarca e conhecido em fevereiro de 2018, demonstrou-se que, entre 14 tipos de sacos analisados, esses sacos de plástico mais finos deixam uma pegada ecológica bastante menor que as outras opções, como o algodão ou o plástico mais resistente.

A investigação identificou os materiais mais nocivos utilizados na produção de sacos, tendo em consideração 16 parâmetros ambientais diferentes, como o impacto climático, a toxicidade humana e ambiental e o uso de recursos na sua produção.

Os resultados indicam que os sacos de algodão têm de ser utilizados pelo menos 52 vezes para compensar o seu impacto climático (149 vezes, se for feito de algodão orgânico) e mais de sete mil vezes caso sejam focados todos os parâmetros.

Quanto aos sacos de papel, estes têm que ser reutilizados 43 vezes para “zerar” o impacto ecológico, enquanto os de plástico mais resistentes, vendidos com as insígnias dos hipermercados, têm que ser usados oito vezes. Caso se tenha em conta as 16 categorias do estudo, esse número sobe para 84.

Além disso, o estudo indica que os sacos de papel produzem quatro vezes mais resíduos sólidos, 142% mais poluição do ar e 15% mais desperdício de água. Já os sacos de algodão criam problemas ambientais porque o seu ciclo de vida envolve produtos que agridem a camada de ozono.

Em suma, esta análise sugere que o plástico é mais rentável para o ambiente que o algodão e o papel, devido ao facto de ser mais leve, conseguir carregar mais peso e necessitar de menos energia para ser produzido.

Com resultados semelhantes, um outro estudo, do Governo do Quebeque (Canadá), de dezembro de 2017, mostrou que, quando comparado com as restantes opções, o convencional saco de plástico é melhor, tanto ao nível ambiental como económico.

Segundo as conclusões, além de o saco convencional ter uma taxa de reutilização de 77%, principalmente para depositar o lixo doméstico, as alternativas mais difundidas para substituir os substituir – seja o plástico duro, o papel ou o algodão – têm “uma pegada ecológica muito maior” e são “potencialmente piores para o aquecimento global”.

Quase 60 países já proibiram o uso dos sacos plásticos

Segundo uma pesquisa do World Atlas, o polietileno foi criado por acidente, numa fábrica de produtos químicos em Northwich, na Inglaterra, em 1933, e usado secretamente pelos militares britânicos durante a Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, com recurso a esse material, Sten Gustaf Thulin criou os sacos de plástico.

Quatorze anos depois, em 1979, os sacos de plástico controlavam 80% do mercado de sacolas na Europa, com lojas e supermercados a oferecê-los aos clientes, com o intuito de estimular as compras. Posteriormente, foram introduzidos nos Estados Unidos (EUA), comercializados por serem considerados superiores aos sacos de papel.

Já em 1997, o marinheiro e pesquisador Charles Moore chocou o mundo ao descobrir o Great Pacific Garbage Patch, uma grande parte do oceano que acumulou uma enorme quantidade de lixo, principalmente plástico. Desde então, vários aglomerados de lixo foram descobertos nos oceanos.

Com o objetivo de minimizar o uso de plástico, vários países introduziram políticas que incluem a proibição total de sacos plásticos, o aumento dos impostos sobre esses objetos e campanhas ambientais. Cerca de 60 estados já instituíram mecanismos de controle.

 

A primeira proibição total de sacos de plástico ocorreu no Bangladesh, em 2002, com outros países a seguiram depois o exemplo. Em 2017, o Quénia foi elogiado por impor a mais dura proibição de sacos plásticos do mundo: o seu transporte inclui multas e pena de prisão, enquanto a produção e a importação podem levar a penalizações que variam entre 19 e os 38 mil dólares (entre 16,7 e 34 mil euros) e penas de prisão até 4 anos.

Ruanda é considerada a nação mais limpa da África, tendo sido uma das primeiras do desse continente a impor a proibição do plástico, em 2008, depois de as autoridades locais terem alertaram sobre a maneira controversa como os sacos de plástico eram descartados após o seu uso.

No entanto, apesar da proibição, países como Ruanda e Quénia registam um número elevado de contrabando de grandes quantidades de sacos plásticos para uso doméstico, comércio ilícito atribuído a uma demanda local esmagadora, com muitas pessoas a considerarem ainda os sacos plásticos baratos, convenientes e higiénicos.

Prevenir o uso e melhorar a gestão do plástico

Com o crescimento da controvérsia relativa ao plástico, têm crescido também as iniciativas e as propostas para diminuir a poluição causada por este material, desde a criação de embalagens biodegradáveis até a incentivos monetários para uma melhor gestão.

Em abril de 2018, o Guardian avançou que um grupo de cientistas conseguiu aprimorar a ‘performance’ de uma bactéria que decompõe plástico milhões de vezes mais rápido que a natureza, descoberta em 2016, no Japão. O grupo acredita que, um dia, será possível reduzir drasticamente a exploração de petróleo para a produção de garrafas de plástico.

Um relatório de 2018 dos Reis Jardins Botânicos de Kew, no Reino Unido, indicava que os cogumelos da espécie Aspergillus tubingensis são capazes de comer plástico. Em semanas, foram capazes de decompor um tipo de plástico muito utilizado para o isolamento de arcas congeladoras e couro sintético, que demora anos a decompor-se.

Outro dos exemplos foi desenvolvido por uma empresa escocesa, que adiciona um granulado feito de plástico reciclado ao processo de fazer o asfalto, existindo já “estradas de plástico” no Reino Unido, no Canadá e na Austrália. Cada tonelada de asfalto contém 20 mil garrafas de plástico ou cerca de 70 mil sacos de plástico.

Com uma pequena mudança na fórmula do plástico, que permite substituir o petróleo pela pedra calcária, um grupo de empreendedores chilenos conseguiu fabricar sacos plásticos e de tecido reutilizáveis que são solúveis em água e que não contaminam. A descoberta surgiu enquanto tentavam fabricar um detergente biodegradável.

Já a cadeia de supermercados Netto, em parceria com o World Wildlife Fund for Nature (WFF), iniciou um projeto-piloto nas suas lojas na Dinamarca, cobrando o equivalente a cerca de sete cêntimos por cada saco de plástico. Depois, por cada saco devolvido pelos clientes, as lojas devolvem 13 cêntimos.

Por outro lado, por cada saco que não for devolvido, a Netto pagará esses mesmos 13 cêntimos (uma coroa dinamarquesa) à WFF para a ajudar a organização a remover plásticos da natureza e a combater a poluição mundial. Atualmente, a Suécia encontra-se a estudar uma alternativa parecida.

A Lego, que há 60 anos produz peças em plástico, anunciou em março de 2018 que, a partir de 2030, vai deixar de usar este material, optando por outros mais sustentáveis ou à base de fibras de plantas, nomeadamente cana-de-açúcar. A marca segue, assim, outras grandes multinacionais, como a McDonald’s, a Nestlé e a Starbucks.

Taísa Pagno, ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

  1. No meu ver, as pessoas tem que ser mentalizadas para usar os sacos e não os deitar fora, optando pelo uso das bolsas vendidas pelo PingoDoce e Continente!.

  2. E quem é que disse que os sacos de papel eram melhores?!
    Melhores são os reutilizáveis e foi sempre desses que se falou como alternativa; nunca nos de papel!!

  3. preocupam-se com os sacos mas já não se preocupam em andar a mudar continuamente de smartphone….

    que para além de plásticos contém baterias etc.
    é que um não gera empresas como as google e apple o outro gera esses mega monstros.

  4. É fácil, passa-se a taxar também os sacos de papel, os sacos de algodão, os reutilizáveis, todos. Taxas e mais taxinhas. Haja “SACO”.

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