Relatório condena Governo chinês por matar e coletar os órgãos de minorias

Um tribunal especial criado para investigar alegações de longa data sobre a extração ilegal de órgãos de minorias étnicas e religiosas por parte do Governo chinês apresentou evidências condenatórias.

Segundo noticiou o Independent, citado pelo All That’s Interesting (ATI), o relatório do Tribunal da China mostra que as pessoas detidas pelo Governo, pertencentes a grupos minoritários, foram mortas e “abertas enquanto ainda estavam vivas para que os rins, o fígado, o coração, o pulmão, a córnea e a pele fossem removidos para venda”.

O Tribunal da China, sediado em Londres, é um painel independente, criado pela International Coalition to End Transplant Abuse in China (ETAC) para investigar especificamente alegações repetidas de extração forçada de órgãos pelo Governo chinês. É presidido por Geoffrey Nice, promotor do tribunal criminal internacional durante o julgamento de crimes de guerra de Slobodan Milošević, ex-presidente da Jugoslávia.

As conclusões do tribunal mostram que a principal fonte da extração forçada de órgãos da China veio de centenas de milhares de pessoas de diferentes minorias étnicas e religiosas, algumas delas da minoria étnica muçulmana uigure, cuja detenção em campos de concentração para “reeducação” pelo Governo foi amplamente divulgada no ano passado.

A maior fonte de transplantes de órgãos, segundo informações obtidas em hospitais da China, teria sido de seguidores do Falun Gong. O Falun Gong (também conhecido como Falun Dafa) é uma prática espiritual banida da China há 20 anos, depois que 10 mil seguidores fizeram um protesto silencioso no complexo da liderança chinesa em Pequim.

Embora os relatórios das conclusões do Tribunal da China tenham sido divulgados pela primeira vez ao público em junho de 2019, um interesse renovado surgiu depois de Hamid Sabi – um advogado internacional de direitos humanos – ter apresentado formalmente as conclusões ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra.

“Vítima por vítima e morte por morte, cortar os corações e outros órgãos de pessoas vivas, inocentes, inofensivas e pacíficas constitui uma das piores atrocidades em massa deste século”, disse Hamid Sabi. O advogado exortou também os membros da ONU a agir com base nas descobertas dos supostos crimes de direitos humanos da China.

E acrescentou: “O transplante de órgãos para salvar vidas é um triunfo científico e social. Mas matar o doador é criminoso”.

O tribunal afirmou igualmente que há evidências de extração forçada de órgãos de detidos da minoria muçulmana uigure, tibetanos e membros de algumas seitas cristãs.

O tribunal encontrou evidências de que os prisioneiros uigures estavam a ser “usados ​​como banco de órgãos” e submetidos a exames médicos regulares. Os ex-prisioneiros do Falun Gong e dos uigures testemunharam no tribunal que foram submetidos a repetidos testes médicos nas prisões chinesas.

“No dia em que fomos transferidos para o campo de trabalho, fomos levados para um centro médico, onde fizemos exames físicos. Fomos interrogados sobre quais doenças tínhamos e eu disse-lhes que tinha hepatite”, disse ao Guardian a ativista do Falun Gong Jennifer Zeng, que fugiu da China em 2001 após ser libertada da prisão.

A ativista descreveu dois outros casos em que os presos foram algemados e submetidos a exames de raio-x num hospital e tiveram o seu sangue coletado. Jennifer Zeng contou que, embora não tenha visto nenhuma evidência direta de extração de órgãos, não tinha a certeza do que aconteceu com os outros prisioneiros.

“Os reclusos não tinham permissão para trocar informações, não havia como nos encontrarmos depois de libertados. Quando alguém desaparecia do campo, eu pensava que essa pessoa tinha sido libertada e voltado para casa”, referiu. Agora, a julgar pelo depoimento de outros ex-reclusos, a ativista suspeita que os testes físicos possam ter sido uma forma de selecionar doadores de órgãos.

Durante a investigação, o Tribunal da China obteve dados de médicos especialistas, investigadores de direitos humanos e outros. Com base nas informações, o tribunal concluiu que a prática de transplante forçado de órgãos pelo Governo chinês pode ter começado na década de 1970 e, provavelmente, continua até hoje.

A China negou repetidamente as acusações de violação dos direitos humanos, divulgando uma declaração no início deste ano em que acusa o tribunal de perpetuar “rumores”, insistindo que pararam de colher órgãos de prisioneiros executados em 2015.

De acordo com as estimativas do tribunal, cerca de 90 mil cirurgias de transplante são realizadas na China todos os anos, gerando mais de um bilião de dólares (cerca de 900 milhões de euros) para o país. A maioria dos recetores de órgãos é chinesa, mas muitos também viajam de outros países para o procedimento, visto que na China o tempo de espera para transplantes é significativamente menor que noutros lugares.

A extração ilegal de órgãos é um negócio em expansão, não apenas na China. Em 2017, um relatório da Reuters revelou que uma rede ilegal opera nos Estados Unidos há mais de uma década.

TP, ZAP //

PARTILHAR

1 COMENTÁRIO

  1. A China é o lugar mais horrendo do planeta terra….
    Ainda assim há quem lhes faculte as lojas dos trezentos por todo o mundo…. ACORDEM BURROS

RESPONDER

Governo vira-se para Rio para mudar a Lei e garantir o novo aeroporto

O Governo está a preparar uma alteração à Lei para evitar que o projecto do novo aeroporto do Montijo seja chumbado. Uma medida que passará, necessariamente, pela necessidade de um entendimento entre PS e PSD …

"Entretenimento saudável". Santa Casa desvaloriza estudo sobre raspadinhas

O Departamento de Jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa desvalorizou a investigação da Universidade do Minho que aponta para o vício das raspadinhas. Esta sexta-feira, um artigo científico publicado na The Lancet alertou para …

"Diga-lhe para ligar ao FBI". Autocarro com a cara do príncipe André circula em Londres

Um autocarro escolar, com a cara do príncipe André, andou a circular por Londres, esta sexta-feira, numa campanha da advogada Gloria Allred para pressionar o filho da Rainha a falar com o FBI. Esta sexta-feira, um autocarro …

Suspeito de terrorismo ouvido em tribunal (com o juiz a recusar ver os seus vídeos por não ter Internet)

O arguido Rómulo Costa, um dos oito portugueses acusados por financiamento ao terrorismo e recrutamento, adesão e apoio ao Estado Islâmico, foi interrogado, esta sexta-feira, na fase de instrução do processo que vai decorrer no …

FC Porto recorre do castigo de um jogo à porta fechada

O FC Porto vai recorrer do castigo de um jogo à porta fechada, aplicado pelo Conselho de Disciplina (CD) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) por ofensa a um agente desportivo. "O FC Porto vai recorrer …

Moita Flores investigado por corrupção. Antigo PJ fala em "coincidência" com empréstimo aos filhos

Francisco Moita Flores, antigo inspector da Polícia Judiciária e ex-presidente da Câmara de Santarém, está a ser investigado por suspeitas de corrupção. Há transferências de dinheiro de uma construtora para empresas a que esteve ligado …

SOS Animal vai constituir-se assistente no processo contra João Moura

A SOS Animal anunciou, esta sexta-feira, que se vai constituir assistente no processo criminal contra o cavaleiro tauromáquico detido, na quarta-feira, por suspeitas de maus-tratos a cães em Monforte, no distrito de Portalegre. Em comunicado, a SOS …

SMS de Rangel revelam teia de corrupção na Relação de Lisboa. Juiz Vaz das Neves tem empresa contra a lei

O ex-presidente do Tribunal da Relação de Lisboa, Luís Vaz das Neves, que foi constituído arguido na Operação Lex, tem uma empresa que se dedica à arbitragem extrajudicial de conflitos, o que constitui uma violação …

Presidente da PwC esteve em Lisboa para controlar danos do Luanda Leaks

O presidente mundial da PricewaterhouseCoopers (PwC) esteve em Lisboa, há duas semanas, para controlar os danos provocados pelo caso Luanda Leaks. Bob Moritz, presidente mundial da PricewaterhouseCoopers (PwC), esteve em Lisboa, há duas semanas, para perceber até …

CM Lisboa vai negociar avenças em parques para moradores da envolvente da Baixa

O presidente da Câmara de Lisboa afirmou, esta sexta-feira, que a autarquia irá tentar acordar com os operadores dos parques de estacionamento da envolvente da Zona de Emissões Reduzidas da Baixa-Chiado a criação de "avenças …