Protestos na Venezuela já fizeram dez mortos

Miguel Gutierrez / EPA

Protestos pelo referendo na Venezuela

Protestos na Venezuela

Uma pessoa morreu e pelo menos outras cinco ficaram feridas nas últimas horas na Venezuela, elevando para dez o número de mortes ocorridas durante os protestos contra o Governo venezuelano, que se intensificaram nas últimas três semanas.

A morte da última vítima foi confirmada pelo alcaide de Sucre, Carlos Ocariz, e ocorreu no populoso bairro de Petare (leste de Caracas), tido como um bastião do chavismo.

“Com muita dor informo da morte, pelo impacto de uma bala, de Melvin Guaitan, um humilde trabalhador, vizinho de Sucre, Petare. (…) Foi assassinado durante os protestos desta noite. Exigimos que se investigue e castigue os culpados”, escreveu o alcaide na sua conta do Twitter.

Na última noite, registaram-se protestos em várias zonas de Caracas, entre as quais La Candelária, El Valle, El Paraíso, Baruta, La Califórnia, La Urbina, Santa Fé e La Trinidad.

Em El Valle (sul) um grupo de 30 manifestantes saqueou dois supermercados, uma loja de bebidas alcoólicas e uma padaria.

Funcionários da Guarda Nacional Bolivariana (GNB, polícia militar) acudiram ao sítio com vários veículos blindados militares. Pelo menos cinco pessoas ficaram feridas em confrontos com a polícia.

Ainda em El Valle, 54 crianças que se encontravam internadas no Hospital Materno Infantil foram retiradas num confuso incidente que o Governo venezuelano diz ter sido produto de um ataque e que a imprensa local atribui ao efeito do gás lacrimogéneo lançado pelas autoridades.

Por outro lado, em La Campinha (centro-leste) a polícia venezuelana interveio quando um grupo de 25 pessoas tentou saquear o Supermercado Maturín, propriedade de madeirenses radicados na Venezuela.

Residentes na zona dizem que a tentativa de saque ocorreu pelas 00h30 horas locais de hoje (05h30 horas em Lisboa) e que, apesar da intervenção policial, os saqueadores conseguiram fugir com vários produtos.

Agentes da GNB permanecem no local, a guardar o supermercado.

A oposição venezuelana está a apelar à população para protestar pacificamente e evitar ocasionar danos a estabelecimentos comerciais.

Ontem, o provedor da Justiça, Tarek William Saab, explicou, através da sua conta no Twitter, que um juiz ordenou a detenção de 14 membros da Guarda Nacional Bolivariana “envolvidos no crime de Grunesy Canelón”.

O jovem foi atingido por um disparo à queima-roupa, que lhe causou lesões no “pulmão direito, diafragma e fígado”, acabando por falecer 30 horas depois, de acordo com as informações dadas à EFE pelo deputado opositor do estado de Lara, Alfonso Marquina.

Por sua vez, o Presidente venezuelano ordenou a abertura de um processo judicial contra o líder da oposição Henrique Capriles por “acusar o Governo e exército” do homicídio de uma jovem no estado de Táchira. Na quarta-feira, Paola Andreína Ramírez Gómez foi morta a tiro, nas proximidades do local onde decorria uma manifestação.

“Autorizei que se faça uma queixa pela honra da gente acusada e que este senhor [Capriles] se tiver que ir para a cadeia, que vá para a cadeia e pague pela difamação e injúria, e todos os delitos que tem cometido. Sabem que não tenho medo nem deles nem de ninguém”, declarou Maduro, numa intervenção transmitida pela televisão estatal.

O Governo atribuiu a responsabilidade da morte da jovem ao partido opositor Vente Venezuela (Vem Venezuela). A oposição “enche as pessoas de ódio, manda matar e depois desembaraçadamente acusa gente honrada” do Exército, do Governo e o Presidente por este “triste assassínio”, declarou Maduro.

Desde há três semanas que os protestos contra o Governo do Presidente Nicolás Maduro se intensificaram na Venezuela, após a divulgação de duas sentenças em que o Supremo Tribunal de Justiça concede poderes especiais ao Chefe de Estado, limita a imunidade parlamentar e assume as funções do parlamento.

Parlamento condena agravamento da situação (com votos contra do PCP e PEV)

O Parlamento aprovou esta sexta-feira um voto de condenação proposto pelo CDS-PP sobre o agravamento da “situação de instabilidade e insegurança” na Venezuela, com a oposição do PEV e do PCP, acusado de “branquear” o regime “ditatorial”.

O voto aprovado por todas as bancadas, à exceção dos comunistas e dos ecologistas, “condena o agravamento da situação política e a perturbação grave da ordem democrática, com consequências terríveis para o povo venezuelano e para a comunidade portuguesa residente” naquele país.

O Parlamento português insta as autoridades venezuelanas a “conter a violência e a respeitar os direitos da oposição democrática, restituindo a ordem constitucional na Venezuela” e apela para que “permitam a atuação das organizações internacionais de ajuda” às populações.

O PCP viu aprovados dois pontos de um voto de “repúdio pelas ações de ingerência e desestabilização” contra a Venezuela, nos quais se reafirma “o direito do povo venezuelano a decidir soberanamente sobre o seu caminho de desenvolvimento livre de quaisquer ingerências e pressões externas e em paz”.

Com a abstenção do PS, os votos contra do PSD, do CDS-PP e de oito deputados socialistas, o segundo ponto aprovado manifesta “apoio e solidariedade à comunidade portuguesa” que, “como o povo venezuelano, é vítima da campanha de ingerência e desestabilização”.

A deputada do PSD Sara Madruga acusou o PCP de “branquear o que se passa na Venezuela”, considerando que “falar de ingerência externa é ser cúmplice do regime antidemocrático da Venezuela”.

Em defesa do voto apresentado pelo PCP, Carla Cruz defendeu que a Venezuela é vítima de “ações de ingerência, desestabilização” interna e externa há vários anos e criticou o “oportunismo do PSD e do CDS-PP”, que acusou de “instrumentalizar a comunidade portuguesa” que reside naquele país.

Pelo PS, Paulo Pisco considerou que a situação na Venezuela, de “rotura de bens alimentares e medicamentos, de inflação descontrolada e de falência do sistema de saúde” é “uma realidade que não se pode mascarar alegando que todos os males são provocados por ingerência externa”.

Já o deputado do CDS-PP Telmo Correia considerou que a posição do PCP “é uma vergonha”, frisando que a oposição na Venezuela pede “eleições livres e justas e a libertação dos presos políticos”.

ZAP // Lusa

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