Portugal vai ter “um problema de cor de pele” (por muitos anos e com conflitos)

cm-leiria.pt

António Barreto

O sociólogo António Barreto.

O sociólogo António Barreto considera que Portugal vai “ter um problema” de “cor de pele” e “por muitos anos”. Uma ideia defendida numa entrevista onde se reporta para “o que se passa em toda a Europa e nos Estados Unidos” por esta altura.

O tema veio à baila numa entrevista de António Barreto ao jornal Nascer do Sol numa altura em que as questões raciais e a colonização têm sido debatidas em Portugal. O sociólogo lembrou também o discurso do Presidente da República nas comemorações do 25 de Abril que referiu que é preciso “assumir o passado, sem auto-justificações nem auto-flagelações”.

“Quem quer ser proprietário da História não é para ser proprietário da História, é porque quer o poder político. Quer mandar em Portugal. E está convencido de que a História é um processo de legitimação”, aponta Barreto a este propósito na dita entrevista.

E embora com receio de ser mal interpretado, o sociólogo considera que “vamos ter um problema de pele”, “de cor de pele” e “por muitos anos”. “Veja o que se passa em toda a Europa e nos Estados Unidos. E até no Brasil, que é um dos países mais multirraciais”, destaca o também cronista.

E “viver com isto durante anos” significa viver “com conflitos”, aponta ainda.

“Hoje em dia um livro pode ser bom se for preto – ou branco, ou asiático. Para mim, a origem não é o início de nenhuma avaliação. Se é branco, preto, amarelo ou castanho, se é nórdico ou asiático, é-me totalmente indiferente. Temos de ver o que está lá dentro”, acrescenta Barreto, considerando que “o mundo está a organizar-se de tal maneira que a origem do gesto já é meio caminho andado“, tanto “no bom” como “no mau sentido”.

“Portugueses sentem culpa e orgulho indevidos”

“A cor da pele e o racismo em certos sítios resumem-se a duas coisas: branco e preto”, diz ainda, apontando que “o conflito entre cores é muito facilmente explorável, porque não dá trabalho nenhum.

“Isto vai envenenar a democracia durante muitos anos”, considera também, notando que ainda não viu, em lado nenhum, “reflexão suficientemente serena, liberal” e “com autoridade moral para encarar esse problema”.

O que Macron está a fazer é das maiores tolices do mundo. Já pediu desculpa a tudo o que era cor, já prometeu restituir tudo o que está em França, nos museus e nas academias. Ainda não restituiu nada, mas anda há cinco anos a dizer que vai restituir”, destaca.

“Os países europeus estão cheios de complexos de culpa, só sabem ceder, ceder, ceder, e sentir-se culpados. Que é das coisas mais confrangedoras”, salienta também.

“Eu não sinto orgulho por ter chegado à Índia, porque não fui eu que cheguei, nem foi ninguém conhecido”, realça entre risos. “Não sinto culpa nenhuma, nenhuma, nenhuma. Mas a maior parte do mundo europeu, e os portugueses em particular, sentem culpa e sentem orgulho. Sentem orgulho indevido e sentem culpa indevida. E não há pior receita para conflitos”, conclui.

“Justiça do Antigo Regime era mais séria”

Na mesma entrevista ao Sol, António Barreto constata também que “o 25 de Abril ainda não chegou à Justiça”.

“A Justiça democrática é um monumental fiasco”, salienta, realçando que “a Justiça civil e penal do Antigo Regime era mais competente e mais séria do que agora”.

A título de exemplo disso mesmo, o sociólogo fala da corrupção, notando que “há 20 ou 30 anos que estamos a ser alertados” para este problema e “para a insuficiência da Justiça”. “Sabe-se tudo, já se percebeu que tanto o PS como PSD são os grandes viveiros da corrupção em Portugal”.

“Estes dois partidos contribuíram seguramente para a democracia, para a estabilidade, para a integração europeia”, “mas também são os dois partidos que mais contribuíram para a corrupção em Portugal”, acrescenta, salientando que “não se preocuparam em combatê-la”, pois “fizeram leis anódinas, tão emaranhadas, tão complicadas, tão burocráticas que não servem para nada”.

Barreto confessa que tem “um bocadinho de tristeza resignada” porque não vê luz ao fundo do túnel para o problema.

“Não há vontade e não há liberdade”, refere, frisando que para haver mudança é preciso “não estar preso aos interesses”.

“E não vejo quem esteja totalmente solto nos grandes partidos para fazer frente à corrupção. E não vejo uma Justiça suficientemente livre, entre os diferentes sectores não vejo corpos profissionais suficientemente livres e isentos – e, sobretudo, não interessados em rivalizar uns com os outros”, acrescenta.

Despacho de Ivo Rosa “merece um romance”

Na crítica à justiça portuguesa, Barreto fala do processo Operação Marquês e da “guerra” entre os juízes Ivo Rosa e Carlos Alexandre, considerando que “parece uma caricatura”.

“É um tribunal que só tem dois juízes, que são opostos e que estão a trabalhar no mesmo caso… Parece uma banda desenhada. O problema é que há muitos Rosas e muitos Alexandres em Portugal”, lamenta.

O sociólogo acha que “Carlos Alexandre errou” porque “aumentou o processo até limites insuportáveis para a força humana”, enquanto diz que Ivo Rosa errou por “excesso de ‘juridismo’ ou formalismo”.

“Errou em muitos dos juízos que faz naquele despacho, errou ao tentar ele próprio julgar – não era para isso que estava lá – e creio que errou ao tentar desculpar a maior parte dos arguidos”, aponta.

O despacho de Ivo Rosa sobre a fase de instrução da Operação Marquês “tem algo de terrível, que merece um romance“, diz ainda, notando que “iliba dezenas e dezenas de crimes, acaba com dezenas de processos, iliba dezenas de arguidos, parece uma operação de saneamento – ninguém é culpado de nada“. Mas, “em meia dúzia de casos, é muito mais assertivo do que o anterior”, constata Barreto.

Em suma, o sociólogo entende que a decisão de Ivo Rosa revela também uma certa “incompetência cúmplice” que é “uma condenação histórica da Justiça e do Estado em Portugal”.

ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. Só é pena é que muitos comentaristas que habitualmente destilam ignorância aqui no ZAP não tenham vindo pronunciar-se… Já fiz afirmações que vão no sentido do que referiu o Dr. António Barreto, E o resultado ou foram injúrias ou simplesmente a censura do lápis azul.
    Volto a dizer, não devo nada às ex-colónias. Nem considero que Portugal deva alguma coisa. Se algum político acha que deve, então ele que pague. Eu não crítico ninguém por causa da cor da pele… O que acontece é que já não se pode ter opinião, quando alvo é alguém com cor de pele mais escura. Essas pessoas adquiriram o estudo de protegidos e isso só serve para alimentar uma espécie de conflito silencioso, que qualquer dia rebenta. Até lá, fiquem bem.

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