Polémica com obra sobre racismo de Grada Kilomba nas mãos da ministra da Cultura

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Grada Kilomba / Instagram

Grada Kilomba

A artista Grada Kilomba.

O Ministério da Cultura já recebeu o recurso quanto à exclusão do projecto artístico de Grada Kilomba, sobre racismo e colonialismo, da representação nacional na Bienal de Veneza. Entre acusações de “preconceitos racistas e misóginos”, cabe à ministra da Cultura, Graça Fonseca, resolver a polémica.

O curador Bruno Leitão, que propôs a obra de Grada Kilomba “A Ferida” para ser a representante portuguesa na 59.ª Bienal de Arte de Veneza, em 2022, avançou com o prometido recurso hierárquico junto do Ministério da Cultura na passada sexta-feira, como reporta o Público.

Em causa está o facto de o projecto de Grada Kilomba ter ficado em segundo lugar devido às notas de um dos jurados, o professor universitário e crítico de arte Nuno Crespo, que destoaram das restantes classificações do júri e que foram determinantes para excluir a candidatura de “A Ferida”.

A candidatura vencedora foi “Vampiros no Espaço” de Pedro Neves Marques que pode tornar-se na primeira pessoa não-binária, ou seja, uma pessoa que não se identifica nem com o género masculino, nem com o género feminino, a representar Portugal na história da Bienal de Veneza.

O projecto de Pedro Neves Marques recebeu uma pontuação de 90,50%, enquanto a obra de Grada Kilomba ficou-se pelos 87,75%.

Bruno Leitão criticou, em particular, a forma como Nuno Crespo justificou as suas notas baixas. Essas críticas tiveram eco lá fora, nomeadamente no Brasil, uma vez que Grada Kilomba é uma artista conceituada e reconhecida internacionalmente.

A Direcção-Geral das Artes (DGArtes), que organizou o concurso, já disse que não houve nada de “ilegal” no concurso.

O Ministério da Cultura tem agora 30 dias para analisar o recurso apresentado por Bruno Leitão.

Grada Kilomba “perdeu contra três homens brancos”

O caso tem feito correr tinta nos jornais portugueses, nomeadamente num artigo da investigadora Ana Teixeira Pinto, publicado a 2 de Dezembro passado no Público, onde fala de uma decisão “racista e misógina”.

Também a jornalista Bárbara Reis, ex-directora do Público, escreve que “não podemos fazer de conta que Kilomba perdeu num concurso contra três homens brancos e heterossexuais”.

“Forte convicção anti-anti-racista”

Numa carta aberta em defesa de Grada Kilomba e da sua obra, várias personalidades nacionais e internacionais também referem que a comissão de decisão “foi composta por quatro pessoas brancas“, e entre elas três mulheres e um homem, Nuno Crespo, deixando-nos com a complexidade das estruturas patriarcais e coloniais do sistema”.

Publicada pelo Expresso, esta carta aberta é assinada por figuras como o sociólogo Boaventura Sousa Santos, a deputada Beatriz Gomes Dias, a curadora da Tate Modern, Catherine Wood, e o director da Pinacoteca de São Paulo, Jochen Volz, entre outros.

“O sistema de avaliação permite que, em má-fé, um único membro do júri, ao dar uma nota exageradamente baixa, decida intencionalmente quem ganha e quem perde, anulando as notas dos restantes membros do júri”, criticam os signatários da carta.

“Quando, pela primeira vez desde sempre, Portugal tem mulheres negras internacionalmente reconhecidas como artistas candidatas (Grada Kilomba e Mónica de Miranda) e curadora (Paula Nascimento), mas seleciona novamente uma representação branca para o pavilhão”, apontam ainda os autores da carta.

A missiva ainda critica as “afirmações graves de Nuno Crespo para justificar a sua pontuação”.

O crítico de arte referiu que “a ideia de racismo como ferida aberta foi já objecto de inúmeras outras abordagens; de modo que a proposta apresentada não deixa perceber como numa exposição poderá rever, criticar ou prolongar, essa ideia tão já discutida e mesmo exibida de múltiplas formas”.

Esta alegação, segundo os subscritores da carta, “revela uma forte convicção anti-anti-racista por parte deste membro do júri”.

“Trata-se de uma pessoa que exerce o seu poder, sem escrúpulos, para tentar silenciar um debate urgente na sociedade portuguesa“, vincam ainda, notando que o “colonialismo português enquanto sistema político acabou há pouco mais de 40 anos” e que “nunca foi devidamente discutido em Portugal”.

Nesta carta aberta, critica-se também o facto de Nuno Crespo ter referido que “o mérito artístico da artista Grada Kilomba não é satisfatório” na justificação da sua nota.

É um indício de “preconceitos racistas e misóginos de Nuno Crespo”, reforçam os autores da missiva, lembrando que Grada Kilomba é “uma das mais reconhecidas artistas da cena artística contemporânea”.

  ZAP //

24 Comments

  1. Lá por ser negra tem de ser escolhida?
    Tem qualidade só por ser negra?
    Todos têm de ter a mesma opinião e, por mero acaso ser a favor da negra?
    F***sse, cada vez tenho mais nojo da sociedade pró-minorias.
    Não tarda nada o partido menos votado é que deve formar governo.

    • Três pessoas do júri deram nota máxima (19,20) a Grada Kilomba porque é a artista mais internacional e está representada nos melhores museus do mundo. A maioria votou nela e a artista não ganhou porque um homem que é racista deu-lhe 10, colocando-a em segundo lugar, quem errou?

      • Quem errou foi o sr(a) e sra Grada ao considerarem automaticamente racismo. E porque não machismo, prepotência, ignorância ou simplesmente o facto desse membro do júri não gostar do constante cliché já gasto de que Portugal é hoje o país mais racista do mundo porque na sua historia teve esclavagismo e colonialismo. Aos poucos e poucos os povos defensores da igualdade começam a ficar fartos de ouvir constantemente que são racista tudo baseado em descriminações que também acontecem entre brancos.

  2. Já pensaram se estas pessoas que estão a criticar os resultados não estão a ser racistas em relação à pessoa que venceu, afinal é uma pessoa não binária.

    O engraçado é que se esquecem de verificar os seus preconceitos (bias) antes de começar a criticar.

    Isto parece os EUA, sinceramente!

      • Será que ele gosta de…? E como o faz? Na opinião de FM faz como homem pois tem sexo masculino, mas como tem género indefinido após fazê-lo arrepende-se de tê-lo feito. No entanto faz sempre que pode. O ser humano é tão complexo… LOL

  3. Será que o racismo só existe de pessoas brancas relativamente a pessoas pretas??? assim sendo talvez fosse melhor mudar o termo racismo para Pretismo.
    Será que só as pessoas pretas é que sabem o que é racismo ???
    Será que um júri só é competente se tiver integrado uma pessoa de preta independentemente das suas competências ???

    • Assino por baixo.
      Cheirar a oportunismo. Mesmo que seja uma porcaria, se for lavrado por um elemento de minoria, tem que ser bom porque caso contrário é racismo! Haja paciência. Aliás, neste momento, acho até que minorias são os brancos..

  4. Racismo? Qual racismo, se ela tem tanto de negra como de branca?! E se, ainda por cima, é uma das provas vivas do bom da miscigenação do povo luso com o africano: é que ela é linda que se farta!!! Como aliás acontece na maior parte dos casos.
    É de ter-se presente que se de racismo alguma vez houver que falar em Portugal, tal não terá nada a ver nem com cor da pele, nem com origem geográfica, nem com língua, nem religião. Lamentavelmente é o “racismo” social que vigora por cá.
    É que há um sistema de castas, não oficial e não assumido, que vigora por cá, apesar do catolicismo dominante e das leis ditas democráticas e do Estado (dito) de Direito. E é aí, sim, em tal espaço, que as descriminações, os tráficos de influências, as exclusões de uns e as excessivas inclusões de outros e, bem assim, as injustiças acontecem. O que até pode ter sido o caso!

  5. A discussão do sexo dos anjos hoje em dia já se desmultiplica em considerações prévias de se os anjos são brancos, pretos ou não binários. É mesmo só à estalada…

  6. O mais engraçado disto tudo, é os brasileiros questionarem se Portugal é demasiado pequeno, estamos a falar de um país de terceiro mundo (Brasil).

  7. Oportunistas nunca vão ficar quietos! Nao entendem q o mundo mudou ha nto tempo. Dizem sempre a mesma coisa. So vêm a parte deles. Portugal nao é racista mas eles sao-no! O racismo acabou ha mto tempo! Ca e la, noutros paises vai sempre haver uma minoria insignificante que é preconceituosa mas verifica-se mto bem q a sociedade nao é racista nem preconceituosa! Acabem de vez c a conversa! Ja agora..se o machismo era mau pq é o feminismo bom? É igual! So falam nas minorias mas esquecem-se de outras minorias! Abram os olhos! Nao ganhou pq nao tem o mesmo valor!

  8. Agora cada vez que uma pessoa preta concorrer contra uma pessoa branca, tem de ganhar. Se não ganhar é racismo.

    E não há isso de pessoas binárias, lá porque uma pessoa do sexo masculino, um homem, gosta de ter sexo com homens e mulheres, não deixa de ser do género masculino.
    Isto de confundir preferências sexuais com género sexual já foi longe demais.

  9. Independentemente da qualidade de ambos, os concursos com juris são sempre parciais, isto não é um sorteio segundo percebo. Há que saber perder, ou então, não tendo essa capacidade mais vale nem participar…

  10. Sim! Portugal é racista.
    E depois?!?!
    Deveríamos ser excepção?
    Temos alguma obrigação de ser melhores do que os outros povos no que toca a questões de cidadania?
    Não me parece. Não é lógico pensar que, de alguma forma, o ónus da responsabilidade é maior connosco.
    Ninguém consegue comandar o que nos vai na alma/consciência/convicções/crenças.
    Podemos sim é evitar que esses sentimentos que não comandamos prejudiquem terceiros de forma evidente e consciente.

  11. Será que ele gosta de…? E como o faz? Na opinião de FM faz como homem pois tem sexo masculino, mas como tem género indefinido após fazê-lo arrepende-se de tê-lo feito. No entanto faz sempre que pode. O ser humano é tão complexo… LOL

  12. Daqui a nada, todos os concursos vão ter só participantes de raça negra e o tema sempre sobre racismo porque se não for, ou não é escolhido ou o resultado vai ser contestado até exaustão!
    Os juris têm de ser de raças e sexos diferentes (ou até não-binários, ou castrados, ou hermafrodita) mas o da raça branca só pode votar a favor do concorrente de raça negra para não ser considerado racista!
    Haja paciência!

  13. Os comentários são tão, tão primários, básicos, ignorantes, que uma pessoa fica com vergonha de pertencer a esta desumanidade.

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