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Ataques à pedrada e com excrementos. Pandemia agravou racismo contra chineses

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“Olhares recriminatórios”, “bocas”, insultos e até pedradas ou excrementos atirados à cabeça. Estas são as queixas de alguns chineses que vivem em Portugal, e que dizem que a pandemia de covid-19 veio agravar os sentimentos racistas contra esta comunidade.

Há casos de pessoas impedidas de entrar em cafés ou de outras que se sentem postas de parte em filas de supermercados. Mas também há situações que envolvem o arremesso de pedras, como a que é relatada ao Expresso pelo jovem estudante Yue Chen.

Este aluno da Universidade do Minho diz ao semanário que sentiu uma mudança na forma como é tratado em Braga, a cidade daquela instituição de ensino, desde que o coronavírus chegou à Europa.

Yue Chen conta que foi insultado e apedrejado por jovens que “o culpavam de espalhar o vírus, apenas porque era chinês”, como relata ao Expresso, lamentando que as pessoas que assistiram a tudo, nada fizeram para o ajudar.

Gosto muito de Portugal, mas fiquei muito triste com o que se passou naquele dia”, confessa.

O empresário Liang Zhan, director do jornal chinês em Portugal “Europe Weekly”, conta ao mesmo jornal que recebeu a denúncia de um estudante chinês a quem atiraram excrementos à cabeça quando andava no centro de Lisboa.

“Sentimos no início da pandemia algum tipo de racismo. Sobretudo as crianças foram alvo de alguma discriminação na escola“, conta ainda ao Expresso o líder da Liga dos Chineses de Portugal, Y Ping Chow, relatando que houve apenas “palavrões” e nunca “agressões”.

A título de mau exemplo, Y Ping Chow refere um acórdão do juiz José Registo, do Tribunal Central Criminal de Lisboa, que chamou “vírus chinês” ao novo coronavírus. Uma situação que motivou uma queixa da Liga dos Chineses de Portugal ao Conselho Superior da Magistratura (CSM).

O CSM acabou por arquivar o caso, considerando que o juiz não teve intenção de denegrir a comunidade chinesa.

O receio de contágio

“A percepção do chamado ‘perigo amarelo’ não é um fenómeno novo, mas uma crise como esta faz espoletar mais inseguranças e incertezas“, considera ao Expresso a professora Rosa Cabecinhas, do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, da Universidade do Minho.

“Os nossos estudantes asiáticos dizem-se discriminados devido ao receio de contágio. Falam de afastamento de convívio por parte de outros alunos e de desconfiança contra eles”, acrescenta Rosa Cabecinhas.

A antropóloga Irene Rodrigues, do ISCSP/Instituto do Oriente, em Lisboa, refere ainda ao semanário que “antes da pandemia, a comunidade já sentia alguma discriminação”.

“Mas a primeira geração de trabalhadores chineses confessam-no com muita vergonha e renitência. E alguns até acabam por aceitar o racismo, que chega a ser visto como algo normal por serem estrangeiros”, relata.

Já a segunda geração sente mais o preconceito. “As ofensas são mais perceptíveis para eles do que o eram para os seus pais, sobretudo por dominarem a Língua“, aponta Irene Rodrigues.

“Desde que começou a pandemia comecei a sentir mais violência no discurso tanto no espaço público como nas redes sociais”, aponta, por seu lado, também ao Expresso, a luso-chinesa Michelle Chan que vive em Portugal desde que tinha um ano de idade.

Nas redes sociais é onde o discurso de ódio vai mais longe, com inúmeras referências perjorativas a “chinocas” e outros termos negativos.

Mas além das “bocas” racistas, há ainda os “olhares recriminatórios” nas ruas e nas lojas ou até situações de quem tenha sido “impedido de beber o seu café ao balcão, porque os empregados receavam que contaminassem o resto da clientela”, reporta o Expresso.

Numa loja asiática do norte, os empregados portugueses terão desaparecido por terem medo de ficar contaminados por trabalharem com chineses.

“Os chineses sentem-se culpados pelo facto de a pandemia ter tido início na China, não é necessário que lhes apontem o dedo”, avisa Michelle Chan.

  ZAP //

19 Comments

    • Se sabes quem foram os culpados faz denúncia à PJ, caso contrário não faças acusações sem evidencia nenhuma.
      Nos EUA os africanos estão a atacar os asiáticos, Poortugal tem de copiar a agenda e toca a procurar alguma coisa para mostrar que é assim em todo o lado.

      • Apoiado !!! Quando o mundo apoia um movimento racista ” Black lives matter” ficamos com a sensação que só as as vidas negras interessam, todas as outras vitimas de racismo são secundarias. Quando os idiotas perceberem que ” All lives matter” talvez os extremismos se atenuem.

    • Se tivesse vivido na Rússia durante a ditadura Estalinista tinha aprendido na pele o que é a ideologia identitária…

  1. O racismo é outro vírus que tem que ser combatido. Enquanto não se condenar realmente quem fizer comentários ou tenha atitudes racistas não se avança para uma civilização evoluída.

  2. A ser verdade, não acredito que estas reacções tenham a ver com convicções políticas. Isso já são traumas da esquerda doentia.
    Mas, a ser verdade, claro que atitudes racistas serão sempre condenáveis.

    • Ninguém detesta mais a esquerda Identitária dos metoos e da Cancel/Woke Culture, do que eu. Mas também ninguém detesta mais a direita populista fascizoide, dos nacionalismos e das xenofobias, do que eu.

      Os extremos tocam-se e é ao Centro ou nas esquerda/direita moderada, que está a virtude.

      • Kkkk… O centro não existe! Ou se é de esquerda, ou se é de direita! Se não sabe de que lado está… Então está na corda bamba…

  3. Não há razão para culpar os chineses que cá vivem pelo sucedido na China! Penso serem vítimas apenas da ignorância de alguns poucos cidadãos e sem motivos políticos; se querem condenar, tenham a coragem de condenar os governantes, esses sim, culpados da nossa dependência económica da China a partir do momento que a Europa abriu as portas à globalização matando as nossas indústrias e deslocando-as para a China e outros países asiáticos onde até essa data condenavam a exploração laboral nesses países sobretudo crianças.

    • …de tantas culturas que decidiram compartilhar o nosso país connosco. os chineses ainda são dos que melhor se adaptaram para ambos os lados, respeitam a cultura e os costumes portugueses sem impor a deles de forma abusiva, e nós já não passamos sem eles.
      Claro que há excepções e nem tudo está bem, mas por mim são muito bem vindos.
      (Espero que a dona da “Vera Shop” esteja a ver isto, quero um desconto, ok?)

    • Já viu alguma loja chinesa falir? Pois não, um estado não vai a falência assim. O chinês, que tem esta estratégia de lojas pelo globo para escoar a sucata que lá fabricam. Já para não falar da concorrência desleal que fazem aos portugueses…

      • …concorrência a quais portugueses?
        A grande maioria que nada produz?
        Que só procura o subsidio?
        Que usa e abusa das baixas médicas?
        Que faz greve por dá aqui aquela palha?
        Que tem sempre um nível de vida superior ao que pode sustentar?
        Que quer salários ao nível da europa mas produzindo uma fracção desta?

        O problema da falta de competitividade é muito mais cultural que político, embora concorde que o poder político deveria promover muito mais o desenvolvimento e a produção que os subsídios que mantêm esta cultura de vícios.

        Já sei que muita coisa está mal, nomeadamente o apoio à exploração de lojas chineses que é mais vantajoso que as nacionais, mas usar isso como justificação é apenas desviar o c* da seringa.

        Mas culpar os chineses pela nossa incapacidade é que me parece muito mau.

  4. Queixam-se os rotos dos nus. Os chineses são pouco racistas também. O que o mundo devia ter aprendido com esta pandemia é que estamos dependentes daquele país asqueroso e que já não sabemos fazer nada, muito menos produzir. E isto é que devia ser contrariado com medidas de estímulo à industrialização ( que afinal é o que faz o governo comunoide chinês, fazendo as empresas chinesas uma concorrência estupidamente desleal ).

    • Isto (estimular a produção interna) se faz com tarifas aduaneiras, mas vai em sentido oposto à doutrina da UE. Portanto estamos condenados a não produzir e pensar que vivemos muito verdinho e limpinho

      • Concordo caro Etter, mas os países nórdicos como a Dinamarca, Noruega ou Suécia tem as mesmas limitações e (pelo menos) o triplo do nosso PIB, (Ok, mas não têm vinho).
        As tarifas simpáticas, o verdinho e o limpinho, (utilizando apenas os exemplos citados, há muito mais) são algo porque vale a pena lutar, pois são efectivamente o único investimento que “fica” para o futuro, mas claro que não é fácil.

  5. Lamento que existam pessoas racistas… Deveriam ser julgadas em tribunal pelos seus atos.
    Não vejo ligação política à situação…

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