Os líderes mundiais estão em Glasgow para falar sobre o ambiente, mas entre eles o clima não deixa de estar tenso

Algumas das crises diplomáticas dos últimos meses e semanas deveriam ter sido resolvidas em Roma, nas reuniões bilaterais realizadas a propósito da cimeira do G20, mas as discussões prometem arrastar-se para Glasgow e podem eclipsar o propósito da reunião.

Depois de uma breve passagem por Roma, a propósito da cimeira do G20 e com múltiplas reuniões bilaterais pelo meio, os principais líderes mundiais deslocam-se para Glasgow, na Escócia, onde irão participar na cimeira do clima promovida pelas Nações Unidas. Após dias de numerosos contactos diplomáticos, sobre as mais variadas questões, seria de esperar que todos regressassem aos respetivos mais esclarecidos sobre as opiniões de aliados, parceiros e inimigos, mas não parece ser esse o cenário. Na antecâmara da COP26, o clima era de tensão.

Por exemplo, um dos temas quentes em matéria de política internacional e europeia, a disputa entre França e Reino Unido a propósito das licenças e respetivas áreas de pesca – a qual já levou a apreensões de uma embarcação britânica– foi naturalmente discutido. Depois de dias com ameaçadas de parte a parte, com Boris Johnson a admitir publicamente a possibilidade de desencadear uma ação formal contra França no âmbito do Acordo de Comércio e Cooperação, os líderes dos dois países encontraram-se presencialmente em Roma.

Acontece que até nas comunicações que resultaram do encontro – que terá durado uma hora e meia – parece existirem desentendimentos. Num primeiro momento a mensagem emitida pela delegação francesa deva conta da vontade das duas partes em chegarem a um caminho comum que permitisse a resolução da disputa. Segundo os responsáveis franceses, os dois países teriam concordado em medidas “práticas e operacionais”. “Da nossa parte existe abertura para a diminuição da tensão entre os dois países nas próximas horas”, foi dito.

Mas, aparentemente, a equipa de Boris Johnson não recebeu (ou percebeu) a mensagem. Um porta-voz do primeiro-ministro britânico afirmou mesmo que as partes não tinham chegado a qualquer acordo sobre esta matéria e que não existiam planos formais para mais reuniões.

“Tive a oportunidade de ler algumas notícias sobre o assunto. Caberá aos franceses decidir se querem abandonar as ameaças feitas nos últimos dias relacionadas com uma possível quebra do protocolo do Brexit. Obviamente, veríamos com bons olhos se eles estiverem disponíveis para desconstruir a escalada de tensão”, explicou o responsável britânico.

Questionado sobre possíveis reuniões futuras, o mesmo porta-voz remeteu novamente respostas para o lado francês. “Se o governo francês desejar esclarecer os conformes e os passos que pretende dar neste caminho, rumo à normalização do processo que eles insistirem em extremar, também estaremos recetivos.”

Ainda assim, Downing Street não explicou o porquê de a comitiva francesa ter saído da reunião com os britânicos com sensações tão distintas.

Antes do encontro, Clément Beaune, ministro francês com a pasta da Europa, usou a sua sua conta do Twitter para insinuar que o Reino Unido estava a fazer “escolhas políticas” através da área das pescas, já que no âmbito 1700 licenças emitidas pelas autoridades britânicas para que embarcações europeias possam operar nas suas águas, 40% dos pedidos franceses foram recusados. O gabinete de Boris Johnson negou a acusação.

“Tivemos a oportunidade de ver alguns comentários feitos por Clément Beaune que são completamente falsos e que diziam respeito às nossas decisões de atribuir menos licenças às embarcações francesas. Adotamos uma abordagem razoável, baseada em evidências, a todos os pedidos, independentemente do estado-membro de onde provêm.”

O que parecia ser um assunto resolvido – ou a meio caminho da resolução -, é, afinal, ainda motivo para antagonismo. Em todas as suas declarações, Boris Johnson – enquanto representante do país organizador – tentou minimizar a hipótese de o tema marcar a COP26, por considerar que os assuntos que lá serão tratados maior relevância, sobretudo a longo prazo. Ainda assim, é expectável que Emmanuel Macron não deixe cair o tópico, assim como os seus ministros.

Numa outra frente, também a envolver os franceses, a cimeira do G20 e a própria COP26 poderiam ser palcos de diálogo proveitoso, mas, até agora, sem avanços claros. Em causa, o pacto AUKUS, que junta Austrália, Estados Unidos da América e Reino Unido em áreas como a segurança, a defesa, a tecnologia, a ciência e a diplomacia.

O que causou descontentamento, sobretudo no Eliseu – para além de ter sido apanhado de surpresa – foi a primeira iniciativa desta aliança: ajudar a Austrália a obter uma frota de submarinos movidos a energia nuclear e criar uma infraestrutura para a manter e desenvolver. Esta configura apenas a segunda vez que os EUA irão partilhar a sua tecnologia de propulsão nuclear para este tipo de embarcação – a primeira cooperação foi com o Reino Unido.

No cerne da questão está um acordo realizado em 2016 entre o Governo australiano e a empresa francesa Naval Group, no qual estava prevista a renovação da frota de submarinos a troco de 31 mil milhões de euros – na altura foi apelidado “acordo militar do século”. Perante a aliança trilateral, o negócio – que também assumia a forma de acordo militar por prever a cooperação entre as defesas dos dois países – foi direto para o lixo.

Tudo isto gerou tensão entre países aliados. Jeans-Yves Le Drian, ministro dos Negócios Estrangeiros francês, caracterizou o acordo como uma “facada nas costas” e comparou a jogada à postura do antigo presidente norte-americano, Donald Trump. “Esta decisão brutal, unilateral e imprevisível faz-me lembrar bastante aquilo que o Sr. Trump costumava fazer. Estou zangado e amargurado. Isto não se faz entre aliados.”

Joe Biden parece ter tomado nota das palavras e, de forma a distanciar-se do seu antecessor, fez algo que este dificilmente faria: reconheceu o erro. Depois de uma reunião com Macron m Roma, Biden fez o mea-culpa e admitiu mesmo que a forma como o processo decorreu foi “desajeitado”.

“Acho que o que aconteceu, para usar uma expressão em inglês, é que o que fizemos foi desajeitado. Não foi feito com muita elegância. Fiquei com a impressão de que certas cosas tinham acontecido, e afinal não”, admitiu. O presidente dos Estados Unidos, num claro esforço para recuperar as relações para os níveis em que estavam anteriormente, acrescentou ainda que França é um parceiro “extremamente valioso” e uma “potência em si mesma”.

Macron, por sua vez, falou de uma reunião “importante” e, na declaração aos jornalistas, preferiu olhar para o futuro no restaurar de confiança diplomática entre os dois países. “O que realmente importa agora é o que vamos fazer juntos nas próximas semanas, meses, anos.” Mesmo assim, o presidente francês lá deixou escapar uma prova do seu ressentimento. “A confiança é como o amor: declarações são boas, mas provas são melhores”, atirou.

É neste clima quente, poder-se-á dizer, que os líderes mundiais, entre outras polémicas paralelas, se preparam para discutir se limitar a subida da temperatura global a 1,5 face aos níveis pré-industriais ainda é possível.

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