Na saúde e na doença, nem um terramoto nos separa. Os desastres naturais podem aproximar os casais

Furacão Harvey atingiu o Texas em agosto de 2017, quando uma equipa de investigadores estudava, juntamente com 231 casais, o impacto a longo prazo do stress do dia-a-dia nos relacionamentos. 

Há amores mais forte e resistentes do que outros, sabemos, mas haverá amores à prova de sismos, tsunamis ou cheias? Um estudo recente, promovido pela Universidade do Texas, sugere que sim e que as relações amorosas podem até sair fortificadas quando os seus integrantes são submetidos a um desastre natural.Tal como os desastres, a forma como a investigação surgiu foi inesperada e até indesejável.

A equipa de investigadores da área da ciência pretendia estudar os efeitos a longo prazo do stress do dia-a-dia nas relações, pelo que conseguiu que 231 casais recém-casados, provenientes de bairros de diferentes contextos socioeconómicos, colaborassem num estudo que previa a comparação de seis pontos de avaliação da satisfação com a sua relação entre fevereiro de 2015 e março de 2019. Acontece que pelo meio apareceu o furacão Harvey, que atingiu a costa do Texas em agosto de 2017, devastando grande parte da região.

Perante este fenómeno, os investigadores tinham duas opções: incluí-lo na sua pesquisa ou abandonar o estudo. Optaram pela primeira, em grande parte devido à inexistência de dados científicos claros sobre como é que este tipo de fenómenos – imprevisíveis e, por isso, difíceis de avaliar do ponto de vista sociológico – poderia afetar as relações amorosas como um todo.

“Há muitos estudos que analisaram a forma como os desastres naturais e outros eventos, como o 11 de setembro, impactaram as relações amorosas, mas foram sempre feitos com dados agregados (por exemplo, a nível nacional), já que não havia informações relativas ao pré e ao pós evento num âmbito individual. Visto que éramos os primeiros a dispor destes dados, eu sabia que tínhamos de analisar a questão”, explicou Hannah Williamson.

Uma das constatações que fizeram foi a de que os casais estavam muito satisfeitos com as suas relações no início do estudo, no entanto, este indicador sofreu uma queda ao longo dos primeiros dois anos e meio do casamento. A inversão da tendência surgiu precisamente com o período do furacão Harvey, momento em que se registou um aumento temporário dos níveis de satisfação com as relações em que os participantes estavam envolvidos. Este crescimento foi maior entre os casais que antes do furacão se mostravam mais insatisfeitos.

“Uma das importantes conclusões a retirar é que os nossos parceiros de vida são incrivelmente importantes, mas é fácil ficarmos “atolados” com os pequenos problemas do dia-a-dia. O que vimos neste estudo é que um grande evento com consequências traumáticas e disruptivas pode ajudar a devolver a atenção para os parceiros e mostrar-nos novamente a importância destes”, descreveu a investigadora ao site PsyPost. “Acho que seria benéfico para as relações se conseguíssemos ter essa forma de perspetiva e relembrarmo-nos do quão importantes são os nossos parceiros, sem termos de passar por um evento traumático para tal.”

No entanto, este cenário cor-de-rosa também desaparece com o tempo, já que os investigadores também descobriram que os níveis mais altos de satisfação demonstrados pelo casais tendem a regressar aos valores pré evento traumático, se é que assim podemos dizer.

“Este declínio pós-furacão é consistente com o aumento temporário da adaptação hedónica, através da qual os casais regressam ao seu nível de relacionamento pré-evento traumático”, avança o estudo. “Como ta, à medida que a vida regressa à normalidade, os problemas que os casais enfrentavam outrora podem voltar e a capacidade que pareciam dispor para os ultrapassar também desaparecer”.

Ainda de acordo com o site Psy Post, os investigadores não encontraram dados que tornem clara a relação entre o nível de exposição aos furacões e o stress crónico, mas também o tipo de apoios sociais recebidos neste contexto. “Não conseguimos examinar esse tipo de fatos no que respeita ao aumento dos níveis de satisfação”, explicou a investigadora responsável, que chama ainda a atenção para a necessidade de novos estudos na matéria.

  ZAP //

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