Nem os mortos escapam aos efeitos das alterações climáticas

As alterações climáticas estão a tornar-se num problema para diversos cemitérios localizados em zonas como a Califórnia, onde os incêndios levam à desintegração de lápides, ou no Luisiana, onde há caixões a flutuarem durante as inundações.

Há cemitérios cuja viabilidade está ameaçada a médio e longo prazo, de acordo com os alertas de responsáveis da área nos EUA.

As tempestades severas e as inundações que se seguem, também provocadas pelo derretimento da permafrost do Alasca, estão a criar novos problemas aos coveiros de zonas como o Luisiana. Neste Estado norte-americano, os caixões já são, habitualmente, colocados em túmulos selados situados acima do solo. Mas a humidade provocada pelas inundações acaba, muitas vezes, por desselar os túmulos, com os caixões a caírem para as águas.

Uma das principais tarefas de alguns dos funcionários dos cemitérios locais tem sido, nos últimos anos, “caçar” os caixões que são arrastados pelas cheias. Em épocas de furacões, são, por vezes, obrigados a atar caixões flutuantes a árvores e postes de luz para não os perderem de vista no meio das inundações.

Com o aumento do nível dos mares, a água está a ser arrastada até locais onde não era habitual, e a erosão da terra está a destapar sepulturas nalguns cemitérios.

“Quando se começa a falar de nível do mar, há literalmente centenas, se não milhares, de cemitérios que, em última instância, serão afectados”, revela Michael Trinkley, director da Fundação Chicora que se dedica à preservação histórica na Carolina do Sul, em declarações citadas pela Scientific American.

E resolver o problema não é nada fácil. A relocalização dos cemitérios ameaçados é uma alternativa, mas que pode ser demasiado dispendiosa, além de levantar questões éticas e legais.

“Há tantas regulações nos cemitérios que é bastante difícil simplesmente pegar e mudá-los”, frisa na mesma publicação Poul Lemasters, conselheiro geral da Associação Internacional de Cemitérios, Cremação e Funerais.

“Muitos cemitérios, se estiverem numa área má, vão continuar nessa área má”, constata Lemasters. “Em termos de inundação, há muito, muito poucas opções“, acrescenta Trinkley, reforçando que a única solução é garantir que os novos cemitérios projectados não enfrentem o mesmo problema.

Alguns cemitérios são geridos por privados que já têm dificuldades em fazer a manutenção rotineira, a partir do momento em que não há mais sepulturas para vender. “Ocasionalmente, recebemos chamadas de pessoas a tentarem perceber quem podem chamar para ir aos seus cemitérios lidar com estes caixões flutuantes”, revela Trinkley.

Por outro lado, os apoios governamentais costumam ser direccionados para as infraestruturas que apoiam os vivos e que estão também a sofrer com as alterações climáticas, como é o caso de hospitais e estradas.

“Se o cemitério desaparece [debaixo da água], a maioria das pessoas não fica terrivelmente preocupada”, “mas se começam a ver corpos à medida que passam, então ficam perturbadas”, reforça Trinkley, vincando que essa situação levará a enfrentar o problema com mais seriedade.

Além da homenagem aos entes queridos falecidos, os cemitérios têm um valor histórico, guardando registos antropológicos que estão em risco de desaparecer. Os cemitérios oferecem pistas essenciais em termos de dados sobre as dietas das pessoas enterradas, do ambiente em que viveram e dos traumas que sofreram, entre outras informações.

ZAP ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

  1. Estou a ver que a solução é mesmo não morrer para evitar mais problemas e assim sempre aumentará o egocentrismo daqueles que teimam que tudo está bem e que no mundo quantos mais formos melhor.

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