Naufrágio no Canal da Mancha gera crise diplomática. Negociações foram canceladas

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Conversações foram suspensas nas últimas horas, depois de Boris Johnson ter revelado publicamente o conteúdo de uma carta endereçada a Macron na qual propunha a devolução de todos os migrantes que atravessassem o Canal da Mancha rumo ao Reino Unido.

Horas depois de um dos episódios migratórios mais trágicos da Europa — um naufrágio que motivou a morte de 27 migrantes no Canal da Mancha — parecem ser poucos os pontos de concórdia entre os detentores das pastas do Interior nos governos de Boris Johnson e Emmanuel Macron. Na realidade, as reações dos representantes políticos têm consistido num autêntico passa culpas com altas probabilidades de resvalar para uma crise diplomática — a relação entre os dois países tem-se pautado pela tensão nas últimas semanas face às questões da pesca no cenário pós-Brexit.

De ambos os lados, é pacífica a ideia de que a solução só irá ser resolvida com as intervenções dos dois países, mas, para já, ainda se tentam apurar (e empurrar) responsabilidades do acidente de quarta-feira, no qual morreram 17 homens, sete mulheres e três crianças.

Priti Patel, ministra britânica do Interior, revelou durante a sua audiência no Parlamento que, durante uma chamada telefónica com o seu homólogo francês, apresentou uma proposta “muito, muito significativa” para a partilha de equipamento tecnológico e para o destacamento de polícias britânicos para o Canal da Mancha, os quais seriam integrados, por exemplo, nas forças que patrulham as praias da região norte de França. O objetivo, escreve o Público, “é fazer o que for preciso para que pessoas vulneráveis não arrisquem as suas vidas em embarcações frágeis”, disse Patel.

Ainda assim, não escapou ao número do passa culpas. Patel atribuiu a maior fatia da responsabilidade da recente crise migratória (marcada pelo aumento de migrantes a saírem de Calais em direção ao Reino Unido) ao Governo francês e afirmou mesmo que está nas mãos de Emmanuel Macron impedir que novas tragédias aconteçam.

As indicações deixadas por Priti Patel foram confirmadas por Boris Johnson que, depois de uma chamada telefónica com o seu homólogo francês, recorreu ao Twitter para dar a conhecer o seu plano de cinco pontos para controlar a crise migratória — que terá sido discutido com Macron. São eles:

  • Patrulhas conjuntas para prevenir que mais barcos deixem a costa francesa;
  • Mais tecnologia, como sensores ou radares, para uma melhor deteção das embarcações;
  • Patrulhas marítimas recíprocas nas águas dos dois países e vigilância no transporte aéreo;
  • Aprofundar o trabalho da Célula de Inteligência Conjunta, com uma melhor partilha de informações para conseguir mais detenções e acusações em ambos os países;
  • Trabalho imediato em acordos bilaterais de devolução e negociações para estabelecer um acordo de devolução entre o Reino Unido e a União Europeia.

Do lado francês, Gérald Darmanin, ministro do Interior, também concordou que a resolução do problema só será possível caso os dois países trabalhem em conjunto, mas recusa a ideia de que o caminho passe pelo reforço de polícias ao longo da costa. Para o governante, a responsabilidade da vaga migratória e do acidente desta semana deve ser atribuída aos “contrabandistas“.

“Estamos a falar de organizações mafiosas que operam na Bélgica, nos Países Baixos, na Alemanha e no Reino Unido. Sim, a França e o Reino Unido têm de trabalhar em conjunto. E não podemos continuar a ser os únicos países a lutar contra estes contrabandistas”, disse, em entrevista à rádio RTL. Gérald Darmanin fez também duras críticas ao Reino Unido, que acusa de não controlar bem a “migração ilícita“.

“França expulsa cerca de 20 mil migrantes ilícitos por ano. O Reino Unido expulsa seis mil, cerca de quatro vezes mais do que França, apesar de o Reino Unido receber cerca de metade”, disse Darmanin. “E é também a atractividade do Reino Unido que está em questão, em particular o seu mercado de trabalho.Toda a gente sabe que há mais de um milhão de imigrantes em situação ilegal no Reino Unido, e que os empregadores usam essa força de trabalho para produzirem as coisas que os britânicos consomem”, disse o ministro francês.

De acordo com a CNN, ss autoridades francesas endereçaram um convite aos ministros belga, alemão, holandês e britânico responsáveis pela imigração, assim como a Comissão Europeia, para uma reunião em Calais, a qual se deveria realizar no domingo. “Esta reunião deverá permitir definir as vias e meios de reforçar a cooperação policial, judicial e humanitária” para “melhor combater as redes de traficantes envolvidas nos fluxos migratórios”, explicou o gabinete do primeiro-ministro francês, Jean Castex.

No entanto, esta e outras reuniões podem não acontecer. De acordo com a imprensa britânica, França decidiu suspender as negociações com o Reino Unido depois de Boris Johnson ter decidido revelar publicamente uma carta endereçada a Emmanuel Macron. No documento pode ler-se as novas políticas que o primeiro-ministro britânico pretende implementar para resolver a crise migratória, nomeadamente a devolução ao continente europeu de todos os migrantes que consigam passar o Canal da Mancha.

O ministro do Interior francês já reagiu aos mais recentes acontecimentos, qualificando a carta e o seu conteúdo como “inaceitável” e contra as discussões que tinham vindo a ser feitas. Simultaneamente, o representante afirmou ainda que tornar a carta pública “piorou ainda mais” a situação, daí ter avançado com a retirada do convite que enviou a Priti Patel para a reunião de domingo — algo que as autoridades britânicas já pediram que o Eliseu reconsidera-se.

“Nenhuma nação pode resolver isto sozinha. Espero que os franceses reconsiderem [a decisão]”, afirmou o ministro dos Transportes, Grant Shapps, à BBC. “É do nosso interesse. É do interesse deles. É certamente do interesse das pessoas que estão a ser traficadas para o Reino Unido, resultando nestas cenas trágicas que estamos a assistir – pessoas a perder as suas vidas”, acrescentou, citado pelo Observador.

  ARM //

1 Comment

  1. Os humanos continuam a insistir no seu maior erro: procuram razões para se desentenderem, ao invés de razões para se entenderem.

    Errata: onde se lê “já pediram que o Eliseu reconsidera-se”, leia-se “já pediram que o Eliseu reconsiderasse”.

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