Misteriosa água-viva imortal é o “Benjamin Button” do mundo animal

Alvaro E. Migotto. Banco de imagens Cifonauta.

Água-Viva Turritopsis nutricula

O ser humano sempre desejou a imortalidade, procurando a fonte da juventude e o elixir da vida eterna. Mas, na vida real, há uma criatura que conseguiu esse feito: uma pequena água-viva com apenas 2 centímetros de diâmetro.

Depois de milhões de anos de evolução, este animal minúsculo conquistou um poder de regeneração surpreendente e não morre de causas naturais – só quando é atacado por predadores. Por isso, em tese, pode viver para sempre.

Baptizada de Turritopsis nutricula, é uma das cerca de 4 mil espécies de águas-vivas conhecidas. Foi descoberta em 1843 pelo zoólogo francês René-Primevère Lesson, mas só recentemente é que a sua imortalidade foi identificada.

Sempre a envelhecer e a rejuvenescer

Há duas versões acerca da descoberta desta característica inusitada, conta a BBC. Segundo uma delas, a imortalidade da Turritopsis nutricula foi encontrada por acaso, em 1988, pelo então estudante alemão de biologia marinha Christian Sommer.

Quando passava férias de verão na Riviera Italiana, no Mar Mediterrâneo, Sommer aproveitava para apanhar espécies de hidrozoários, seres vivos aquáticos como a hidra, para uma pesquisa, quando acabou por capturar a pequena e intrigante água-viva.

O jovem estudante levou o animal para o laboratório e observou-o durante vários dias. Ficou espantado com o que viu. O animal simplesmente não morria – pelo contrário, parecia que estava a seguir o caminho inverso do envelhecimento e da morte, e que se tornava cada vez mais “jovem”.

A água-viva chegou até a regredir a sua primeira fase de desenvolvimento, reiniciando o ciclo de vida, e assim continuou sucessivamente, envelhecendo e rejuvenescendo, para voltar a envelhecer e a rejuvenescer.

Uma outra versão diz que a descoberta da imortalidade da Turritopsis nutricula foi feita pelo investigador japonês Shin Kubota, actualmente um dos maiores especialistas do mundo em águas-vivas.

Kubota descobriu o poder de rejuvenescimento ou regeneração desta criatura quando encontrou, no mar do sul do seu país, uma delas cheia de espinhos no corpo.

Ao arrancá-los, percebeu que as feridas se curavam e que o animal rejuvenescia. Entre 2009 e 2011, o Kubota repetiu a experiência 12 vezes, ferindo as águas-vivas. E em todas elas, aconteceu a mesma coisa: elas regeneravam-se e voltavam ao estágio inicial do seu ciclo de vida.

‘Benjamin Button’ do mundo animal

De acordo com o professor de zoologia António Carlos Marques, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, no Brasil, a Turritopsis nutricula é imortal porque “os seus tecidos rejuvenescem e as fases de vida regridem, ao melhor estilo Benjamin Button“, conforme declarações à BBC.

Marques refere-se ao filme “O curioso caso de Benjamin Button“, de 2008, no qual o personagem principal, interpretado pelo actor Brad Pitt, nasce com aparência de idoso e vai ficando cada vez mais jovem à medida que o tempo passa.

Esta capacidade de se regenerar continuamente não significa que a água-viva nunca morra. O animal pode ser comido por um predador, por exemplo.

“É algo como os highlanders: são imortais até que a sua cabeça seja cortada“, compara o investigador brasileiro, agora em referência a outro filme, “Highlander – O guerreiro imortal”, de 1986.

O investigador Sérgio Stampar, do Laboratório de Evolução e Diversidade Aquática do campus de Assis da Universidade Estadual Paulista, explica à BBC que esta espécie de água-viva tem a capacidade de passar por um processo de reestruturação de tecidos e de voltar ao estágio inicial de vida, mesmo depois de atingir a maturidade sexual. “Fazendo uma analogia, seria como se nós adultos pudéssemos voltar ao estágio de bebé“.

Em tese, este processo de regeneração da água-viva pode acontecer para sempre. Mas para entender melhor este processo contínuo, é preciso conhecer o ciclo de vida dos hidrozoários – a classe animal a que esta água-viva pertence.

Tudo começa com um ovo fecundado, do qual eclode uma larva minúscula. Esta larva fixa-se num substrato no mar – algo sólido, como uma rocha ou o casco de um navio naufragado. De seguida, transforma-se num pólipo, que é a sua segunda fase de desenvolvimento.

Desse pólipo brotam medusas (águas-vivas) nadadoras, machos ou fêmeas. Esta é a fase adulta dos hidrozoários. Neste período da vida, produzem gâmetas, ou seja, óvulos ou espermatozóides – dependo do sexo do animal – que são libertados no mar, onde ocorre a fecundação. Os gâmetas fecundados formam um ovo e tudo recomeça.

Já com a Turritopsis nutricula, o processo é um pouco diferente. Depois de libertar os seus gâmetas, ela retorna à sua forma juvenil. “O ciclo dela pode ser invertido“, explica Marques. “Depois de ir a pólipo a medusa, vai de medusa a pólipo.”

Ainda não se percebe bem como a Turritopsis nutricula consegue realizar esta magia. O que se sabe é que a capacidade da criatura rejuvenescer envolve um processo conhecido como transdiferenciação celular, ou seja, a transformação de um tipo de célula noutro, como ocorre com as células-tronco humanas.

Isto significa que as células adultas desta água-viva, já especializadas em determinada função, são capazes de voltar a ser células-tronco, que, por sua vez, podem transformar-se em qualquer outra.

Alvaro E. Migotto. Banco de imagens Cifonauta.

Água-Viva Turritopsis nutricula

Das águas-vivas para os seres humanos

Originária das Caraíbas, actualmente, a Turritopsis nutricula encontra-se em mares de praticamente todo o mundo – acredita-se que tenha sido transportada pela água de lastro de navios. Não há  risco de vir a transformar-se numa praga, já que nas fases iniciais do seu ciclo de vida, é bastante vulnerável e alvo de muitos predadores.

Mas o que é que o ser humano pode aprender ou que benefícios pode retirar da imortalidade da Turritopsis nutricula? Por enquanto, nada, mas talvez no futuro possa conseguir alguma mais-valia.

“O mecanismo talvez possa ser repetido noutros organismos, quem sabe até nos seres humanos, mas exige um profundo conhecimento genético-molecular que ainda não temos”,  afirma Stampar.

ZAP // BBC

 

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