Mercúrio pode estar repleto de diamantes

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Os cientistas pensam que a superfície do planeta mais pequeno do sistema solar pode estar coberta com pedras espaciais, devido a uma abundância de carbono e à pressão causada pela colisão de asteroides.

De acordo com estudos recentes, os tumultuosos anos iniciais de Mercúrio poderão ter tornado este planeta um mundo incrustado de diamantes.

Segundo a Wired, as rochas espaciais que colidiram com Mercúrio podem ter esmagado camadas de carbono, que cobre grande parte do planeta, criando  estilhaços de diamantes.

“A onda de pressão dos asteroides ou cometas que atingem a superfície a dezenas de quilómetros por segundo, poderia transformar grafite em diamantes“, explica Kevin Cannon, geólogo da Colorado School of Mines, que apresentou as suas  descobertas na Conferência Cientifica Lunar e Planetária em Houston, no dia 10.

“Poderá haver uma quantidade significativa de diamantes perto da superfície” de Mercúrio, explica o geólogo.

Acontece que Mercúrio não é apenas um pedaço de rocha quente que orbita de perto o sol, é um mundo complexo. As descobertas de Cannon e outros geólogos revelam novos detalhes sobre a sua história geológica única, incluindo a provável presença de muitos diamantes.

Mercúrio é menor do que duas das luas do nosso sistema solar (Titã e Ganímedes), e é conhecido pelos anos curtos e dias longos, orbitando o Sol a cada 88 dias da Terra e completando uma rotação a cada 59 dias.

As temperaturas diurnas atingem os 426°C — apenas Vénus é mais quente. A falta de atmosfera de Mercúrio implica por outro lado que as suas temperaturas noturnas descem para -143°C.

Mas estas estatísticas espantosas não são o que o distingue, em termos geológicos, mas sim o carbono abundante do planeta (sob a forma de grafite) e a grande quantidade de colisões de asteroides há cerca de 4 mil milhões de anos.

Durante um período violento e destrutivo, o Intenso Bombardeamento Tardio, Mercúrio registou provavelmente o dobro das colisões que a Lua teve — e o nosso vizinho lunar está completamente marcado com crateras.

Como muitos outros planetas do nosso sistema solar, incluindo a Terra, o jovem Mercúrio estava coberto de oceanos de magma, que mais tarde arrefeceram e endureceram.

Mas ao contrário de outros planetas, uma camada de grafite flutuou sobre a rocha derretida. No seu estudo, ainda em curso, Cannon modelou os efeitos de impactos frequentes nos 19 mil metros superiores da crosta de Mercúrio ao longo de milhares de milhões de anos.

Segundo o geólogo,a grafite poderia ter tido mais de 8000 m3 de espessura, e a pressão de impacto dos asteroides teria sido suficiente para transformar 30% a 60% dessa grafite no que Cannon chama “diamantes de choque“.

Estas joias espaciais, talvez 16 quadriliões de toneladas delas, estima o geólogo, são provavelmente minúsculas e estarão espalhadas e enterrados.

Dados de outras investigações também apoiam esta conclusão.

Alguns meteoritos, como os fragmentos de rocha conhecidos como Almahata Sitta que caíram no deserto Núbia do norte do Sudão em 2008, continham pequenos diamantes, possivelmente produzidos pelo choque de colisões entre asteroides.

E cientistas planetários como Laura Lark, investigadora da Universidade Brown em Providence, Rhode Island, que também apresentou o seu estudo mais recente na conferência do LPSC, identificaram pontos escuros de grafite na superfície de Mercúrio em imagens captadas por câmaras a bordo da nave espacial Messenger da NASA, que orbitou e mapeou o planeta entre 2011 e 2015.

Os mapas a cores falsos feitos a partir dessas imagens — os mais detalhados atualmente disponíveis — mostram áreas de material primordial, com baixas taxas de reflexão, que os investigadores acreditam ser grafite.

“Se este material for grafite, que é o que pensamos, então são camadas espessas. É mais carbono do que esperaria num oceano de magma“, diz Lark, “o que pode significar que Mercúrio era particularmente rico em carbono desde o início”.

À medida que Mercúrio se formava, elementos metálicos afundaram-se e acabaram por construir o núcleo do planeta, com as rochas a solidificarem-se no topo.

Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory / Carnegie Institution of Washington / NASA

A contração global de Mercúrio começou há mais de 3,85 mil milhões de anos

Em muitos planetas, a maior parte do carbono acaba por se tornar parte do núcleo metálico no manto que lhe está por cima. Mas Mercúrio parece ter acabado com muito carbono incrustado na crosta do planeta, em vez de descer, diz Lark.

Pelo contrário, na Terra, os diamantes só surgem do subsolo profundo do carbono, sob intensa pressão.

Novas pesquisas sobre os asteroides que esmagaram Mercúrio poderiam resolver outro mistério: porque  o planeta tem um núcleo anormalmente grande apesar do seu pequeno tamanho.

Alguns cientistas acreditam que o seu núcleo faria mais sentido se o planeta fosse muito maior e depois resistisse a um impacto gigantesco que atirasse pedaços por todo o sistema solar.

Atualmente, Mercúrio tem um décimo oitavo da massa da Terra.

“Calculo que o proto-Mercúrio poderia ter sido entre 0,3 e 0,8 massas da Terra. Isto é consistente com as simulações”, que produzem sempre versões maiores de Mercúrio do que a que temos atualmente, diz Camille Cartier, cientista planetária da Universidade de Lorena, em França, que também participou na conferência.

Com base nos seus modelos, Cartier argumenta que como Mercúrio e o resto do sistema solar ainda estavam a juntar-se, cerca de 10 ou 20 milhões de anos após a formação dos planetas, um enorme objeto poderia ter colidido com Mercúrio, projetando a maior parte das suas camadas superiores para o espaço.

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Alguns desses pedaços de rochas acabaram mais tarde em Vénus, Terra, e na cintura interna de asteroides. Outros regressaram mais tarde à Terra como meteoritos.

Kevin Cannon questiona se planetas semelhantes, mais distantes, poderão também ter diamantes-choque à superfície e outros formados através de pressão no subsolo profundo. “É excitante pensar em exoplanetas que possam ter ainda mais carbono”, diz o geólogo.

“Poderia ter uma estrutura sanduíche de diamantes, grafite, e mais diamantes”, sugere o geólogo.

  Inês Costa Macedo, ZAP //

2 Comments

  1. espero que a ESA mande rapidamente uma missão a Mercúrio recolher diamantes. a missão pagar-se-ia a si própria e ainda sobrava para mais um PRR – que vamos precisar, depois desta guerra na Ucrania.

  2. Aquilo que faz os diamantes terem valor é a sua raridade. Inundar o mercado com diamantes extraterrestres faria cair o seu valor muito consideravelmente. Em todo o caso, não é de desprezar os usos industriais dos diamantes. Mas não me parece que vão a correr buscar diamantes ao espaço como iriam se fosse lítio.

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