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O negacionismo não é de agora. No século XVIII, D. Maria I não vacinou os filhos (e o herdeiro morreu com varíola)

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Palácio Nacional de Queluz / Wikimedia

A extrema religiosidade de D. Maria I levou a que a monarca não inoculasse os filhos contra a varíola. Em três meses, a rainha acabou por perder quatro pessoas próximas com a doença, incluindo o filho varão — D. José.

A hesitação sobre as vacinas está longe de ser algo novo — e Portugal teve um exemplo de uma figura famosa que recusou a imunização no passado.

No século XVIII, a rainha D. Maria I recusou vacinar os filhos contra a varíola, alegando motivos religiosos, recorda a BBC Brasil. A decisão acabou por ter grandes consequências na vida da monarca e também na política de Portugal e do Brasil.

O filho varão e herdeiro da coroa, D. José, sucumbiu à doença em 1788, aos 27 anos. Nascido em 1761, o príncipe era a esperança de Portugal, especialmente para os críticos do reinado de D. Maria, que se opunham à ideia de ser uma mulher a liderar os destinos do país — incluindo o próprio pai da rainha.

Após o regresso do príncipe de uma visita a Caldas da Rainha, os sintomas já se notavam: febre, dores musculares, dificuldade na respiração e manchas vermelhas. Inicialmente, pensava-se que era um caso brando de varíola, mas o prognóstico piorou. Apesar das muitas preces da rainha, o filho acabou por morrer.

Dois meses depois, a varíola matou também a filha, Mariana Vitória, o genro e o neto de D. Maria I, tudo num intervalo de poucas semanas. Pouco depois, morreu também Carlos III, rei de Espanha e seu primo, e o padre confessor de D. Maria, frei Inácio de São Caetano.

As sucessivas tragédias acabaram por ter um impacto na saúde mental da rainha, que caiu numa profunda depressão e ficou conhecida como “A Louca”.

A varíola foi declarada como erradicada em 1980, depois de enormes campanhas de vacinação. No século XVIII, a doença matou cerca de 400 mil pessoas anualmente só na Europa e um terço dos que sobreviviam ficavam cegos.

Esta foi também a primeira doença para a qual foi criada uma vacina, pelas mãos do médico Edward Jenner, que a desenvolveu a partir da varíola que afectava as vacas, depois de se aperceber que as pessoas que ordenhavam os animais ficavam imunes à mutação da doença que se espalhava pelos humanos.

Ainda antes da invenção de Jenner, já havia “vacinas” caseiras. As culturas da Ásia e da África já tinham notado que os sobreviventes da doença ficavam imunes, o que levou à criação das predecessoras das vacinas actuais, através do contacto de pessoas saudáveis com o pus dos doentes, para que o corpo criasse defesas.

Na China, as crostas secas da pele dos infectados eram trituradas e o pó era soprado no nariz. Este tipo de técnicas ficaram conhecidas como variolação ou inoculação e chegaram à Europa no início do século XVIII, trazidas pelos turcos.

Estas vacinas e tratamentos tinham ganhado popularidade entre as famílias reais — o risco de morte era dez vezes menor para quem se inoculava — mas, alegando motivos religiosos, D. Maria I recusou sempre inocular os filhos.

De acordo com o livro “D. Maria I: Uma Rainha Atormentada por um Segredo que a Levou à Loucura”, de Isabel Stillwell, o rei inglês George III “tinha uma afeição particular pela rainha D. Maria I e era um apologista fanático da variolação” e pediu-lhe que protegesse o príncipe D. José. A corte austríaca fez um apelo igual.

Mas nada deteve a vontade da rainha, que acreditava que “a varíola era sempre mais benigna” nos países do sul da Europa. O seu catolicismo profundo foi também um factor: D. Maria I acreditava que a inoculação contrariava a vontade de Deus, numa época em que a religião era um dos pilares da sociedade portuguesa.

Isabel Stilwell credita a resistência de D. Maria I à variolação mais à “ansiedade crónica e à progressiva dificuldade em tomar decisões”, mas sublinha que a monarca era influenciada pela freira carmelita Priora da Estrela, que “tendia a desvalorizar os médicos”.

A morte do herdeiro do trono acabou também por, naturalmente, ter consequências para o país. A coroa passou assim para D. João VI, irmão de D. José, que passou a ser regente em 1790 devido aos problemas mentais da rainha. O filho de D. João VI, D. Pedro, foi depois o primeiro imperador do Brasil.

  Adriana Peixoto, ZAP //

6 Comments

  1. A lógica é difícil de seguir.
    A doença era vontade de Deus mas o tratamento não era? Afinal não é tudo vontade de Deus, tanto doença como tratamento?
    O acto humano de tratar é contrário à vontade de Deus, mas o acto humano de rezar pela cura já não é?

    • Cara leitora,
      Obrigado pelo seu reparo.
      Apesar de a vacina de Jenner só ter sido inventada em 1796, antes dela já havia “vacinas caseiras”, que, conforme explicamos no texto, eram predecessoras das vacinas actuais, bem como “técnicas que ficaram conhecidas como variolação ou inoculação”, que “tinham ganhado popularidade entre as famílias reais — o risco de morte era dez vezes menor para quem se inoculava” — e que D.Maria I se recusou a aplicar aos filhos, “apesar dos apelos do rei de Inglaterrra e da corte austríaca”.

      • Mas, então, seria como utilizar uma medicina tradicional chinesa, algo em que nem os próprios cientistas confiam. Claro que com isto não pretendo afirmar que a rainha tivesse um espírito científico. Na verdade, os desequilíbrios mentais da senhora começaram muito cedo, quando, ainda criança, foi obrigada a assistir à execução da família Távora. Não era para menos!…

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