Jornalistas e académicos turcos estão a fugir de Erdogan em botes de refugiados

Tolga Bozoglu / EPA

O presidente da Turquia, Recep Erdogan

O presidente da Turquia, Recep Erdogan

A purga política que Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, impôs no país não tem fim à vista e há um crescente número de intelectuais, incluindo jornalistas e académicos, que estão a fugir para a Grécia em botes de refugiados.

Foi dessa forma que o ex-director da prestigiada revista política turca Nokta, Cevheri Güven, saiu da Turquia com a família, antes de ser condenado a 22 anos e 6 meses de prisão por causa de duas capas polémicas da publicação.

O editor da revista, Murat Çapan, também condenado à mesma pena de prisão, tentou igualmente, fugir da Turquia misturado com os refugiados, mas acabou preso.

Condenação por duas capas controversas

Murat Çapan foi detido, na quarta-feira à noite, quando tentava atravessar a fronteira, juntamente com um académico e dois professores que tinham perdido os seus empregos, após decretos presidenciais recentes, conforme relata Cevheri Güven ao El Confidencial.

“Conseguiram entrar na Grécia, mas foram devolvidos a território turco pela polícia grega”, explica o jornalista que fugiu da Turquia em Setembro do ano passado.

Os dois responsáveis da Nokta foram condenados por “incitar uma revolução armada contra o Governo turco”, depois de a revista ter publicado uma capa retratando Erdogan como responsável pela violência que tem marcado o país.

A imagem revela uma fotomontagem com uma folha de calendário na data de 2 de Novembro, o dia seguinte à vitória do partido de Erdogan nas eleições, assinalando que foi o início da “guerra civil na Turquia”.

https://twitter.com/PersecutionsTr/status/867452730587086849

Há ainda outra capa associada à condenação dos dois jornalistas que mostra Erdogan a tirar uma selfie em frente a um funeral militar.

Depois desta polémica imagem, a Nokta foi banida, em 2015, e o presidente Recep Erdogan acusou os responsáveis da revista de serem “desonestos”, sublinhando que haveriam de “pagar o preço”.

Os novos “refugiados turcos”

Cevheri Güven chegou a estar preso durante dois meses, após ter sido acusado, numa prisão repleta de “jornalistas, músicos, juízes, procuradores, polícias, oficiais do exército e académicos”, conforme relata num artigo no The Globe Post.

O jornalista conta que foi libertado, enquanto esperava pelo julgamento, e que os juízes que determinaram essa decisão foram demitidos e um até foi preso, tal como o seu advogado.

Ele acabou por decidir que tinha que deixar o país de forma ilegal, já temendo o pior dos cenários, ou seja, a condenação.

“Sabia que já não havia justiça para os jornalistas, que qualquer turco crítico para com Erdogan acabaria atrás das grades“, destaca no El Confidencial.

Cevheri Güven refere que procurou os traficantes de pessoas que ajudam os refugiados a sair da Turquia e diz que teve uma proposta de 20 mil euros para ir num bote com a mulher e os dois filhos. “O preço para os refugiados é mais baixo, mas quando sabem que és um fugitivo, as máfias sobem o preço”, explica.

Vendeu o carro e outros bens para financiar a fuga que foi concretizada num “pequeno bote de madeira”, onde viajava também uma arquitecta turca procurada pela polícia, refere.

Foi assim que chegou à Grécia, onde tem agora o estatuto de “refugiado turco”, como destaca, prevendo que, a curto prazo, milhares de outras pessoas vão vestir essa pele, fugindo do terror imposto por Erdogan.

Regime de Erdogan só tem lugar para os islamistas

Cevheri Güven diz que o país está “refém de um ditador” e acusa Erdogan de ter “destruído a democracia, empurrado a Turquia para longe do Ocidente, apoiado grupos jihadistas na Síria e obliterado cidades curdas com tanques”.

O presidente turco acredita que “é o líder do mundo islâmico e que é o escolhido”, pelo que, “considerando o poder turco, o perigo é suficientemente grave para não o ignorarmos”, alerta o jornalista no The Globe Post, reforçando que “não há lugar para ninguém no regime que Erdogan está a construir, excepto para os islamistas”.

Cevheri Güven continua a fazer o ofício de jornalista nos campos de refugiados, para publicar artigos na Internet, reforçando a sua intenção de continuar a lutar pela liberdade no seu país.

“A Turquia precisa, mais do que nunca, de jornalismo corajoso“, escreve no The Globe Post, frisando que é “imperativo” não permitir “que Erdogan silencie os média” com a detenção de jornalistas.

De acordo com dados da Plataforma turca para o Jornalismo Independente P24, há, neste momento, 165 profissionais dos média detidos na Turquia, conforme cita o El Confidencial.

Susana Valente SV, ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. A Turquia transformou-se num país onde quem for do contra melhor será fugir de lá antes que se manifeste e não aconselhável a qualquer um lá entrar mesmo que seja por visita pois está transformado num barril de pólvora e de suspeição onde todos desconfiam de todos.

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