Milhares de ilhas vão ser inabitáveis por falta de água daqui a 30 anos

O aumento do nível do mar, devido ao aquecimento global, pode “apagar” do mapa milhares de pequenas ilhas. Mas antes disso, daqui a cerca de 30 anos, muitas delas ficarão inabitáveis devido à falta de água potável, segundo apurou uma nova investigação.

Os efeitos das alterações climáticas vão tornar inabitáveis milhares de pequenas ilhas do Pacífico e do Índico, de acordo com uma investigação de cientistas dos EUA, da Holanda e da Índia que foi publicada esta semana na revista Science Advances.

O degelo e outros eventos relacionados com o aquecimento global estão a fazer subir o nível do mar e ilhas paradisíacas, como as Maldivas e as Seychelles, podem acabar por ficar submersas. Não se sabe quando, mas é quase certo que o mar vai apagar do mapa as ilhas com as altitudes médias mais baixas.

Mas antes disso, milhares dessas ilhas ficarão inabitáveis por falta de água potável. Esta é a conclusão da investigação que se baseou na análise às consequências que a grande onda de 2014 provocou no aquífero de Roi-Namur, um dos mais de 1000 ilhéus que integram as Ilhas Marshall, no Oceano Pacífico.

Os autores do estudo concluíram que o aumento do nível do mar amplifica o impacto das ondas grandes. Com esse aumento a fixar-se em um metro, Roi-Namur será atingida por, pelo menos, uma grande onda por ano até meados do século XXI, segundo as estimativas dos investigadores.

“As avenidas de água do mar costumam provocar a incursão de água salgada no subsolo, contaminando o aquífero de água doce”, explica ao El País o hidrólogo do Serviço Geológico dos EUA (USGS) e um dos autores da pesquisa, Stephen Gingerich.

As infiltrações da chuva acabariam, normalmente, por expelir a água salgada. Mas com a redução das precipitações e com o aumento das ondas de grande dimensão, como consequência do aquecimento global, “as chuvas não bastarão para expulsar a água salgada e renovar o abastecimento de água da ilha antes da chegada da tormenta do ano seguinte, repetindo a incursão”, explica Gingerich.

Este ciclo mortífero vai repetir-se em muitas outras ilhas, até porque Roi-Namur “é um dos atóis de maior altitude do mundo”, como nota o especialista em morfologia costeira do Instituto holandês de Investigação Deltares, Ap van Dongeren, outro dos investigadores envolvidos na pesquisa, também em declarações ao El País.

“A maioria dos outros atóis são mais baixos, pelo que são mais susceptíveis a inundações”, sustenta Van Dongeren.

Paraísos turísticos como as Maldivas e as Seychelles, e também algumas ilhas do arquipélago do Hawai, podem vir a ser afectados.

Muitas destas pequenas ilhas são formadas pela acumulação de material orgânico, tendo como principal protecção os recifes de coral que formam uma espécie de barreira contra a força das ondas. Mas no caso de Roi-Namur, de nada serviu – a grande onda de 2014 ultrapassou essa barreira e inundou a parte norte da ilha.

“O ponto de inflexão em que a maioria dos atóis deixará de ter água potável será superado em meados do Século XXI, o mais tardar”, prevê o geólogo do USGS, Curt Storlazzi, o principal autor do estudo.

Estas ilhas vão então sofrer incursões frequentes da água do mar. Estas inundações vão afectar “negativamente as infraestruturas, a água doce, a agricultura e os habitats, tornando complicado, se não impossível, a vida nas ilhas sem significativas e, provavelmente, onerosas medidas de mitigação”, nota Storlazzi.

No caso de Roi-Namur, tem a seu favor o facto de acolher um centro de investigação e de testes de mísseis balísticos dos EUA, factor que pode contribuir para a sua salvação. Já no caso das restantes ilhas, o futuro é uma incógnita.

ZAP //

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