Hong Kong. Condições dentro da universidade agravam-se e há já quem se entregue às autoridades

Jerome Favre / EPA

Enquanto os confrontos entre manifestantes barricados na Universidade Politécnica de Hong Kong e a polícia se intensificam, há já quem se entregue às autoridades. A falta de comida, medicamentos e agasalho são algumas das principais razões.

A chefe do Governo de Hong Kong, Carrie Lam, disse hoje que a única solução pacífica para o caos vivido na Universidade Politécnica é a rendição dos manifestantes que continuam escondidos nas instalações.

“Este objetivo só pode ser alcançado com a plena cooperação dos manifestantes”, afirmou Lam, em conferência de imprensa. A chefe do executivo sublinhou que os manifestantes devem “entregar as armas e sair pacificamente enquanto ouvem as instruções da polícia”.

Foram as primeiras palavras de Carrie Lam sobre o caos vivido na Universidade Politécnica desde domingo, naquele que já é o episódio mais violento desde o início dos protestos, em junho.

Lam estimou que cerca de 100 manifestantes estão ainda escondidos naquela universidade, uma das maiores do território, na área de Kowloon. Por outro lado, Lam indicou que 600 pessoas já deixaram o ‘campus’ universitário, incluindo 200 menores.

Dentro da Universidade Politécnica as condições são cada vez mais precárias, com falta de comida, medicamentos e agasalho para os manifestantes que se mantêm lá dentro.

“Vamos continuar a utilizar todos os meios para persuadirmos os restantes manifestantes a abandonarem o campus o mais brevemente possível, para que toda esta operação possa terminar de uma forma pacífica, estabelecendo as bases para a polícia pôr fim à violência em Hong Kong”, disse Carrie Lam, citada pelo South China Morning Post.

A polícia cercou nos últimos dias a Universidade Politécnica, tendo recorrido a balas de borracha, a granadas de gás lacrimogéneo e a canhões de água para conter a fuga dos manifestantes, que responderam com bombas incendiárias de fabrico caseiro, tijolos e flechas.

Muitos dos protestantes que se entregaram às autoridades estavam com hipotermia ou ferimentos resultantes dos confrontos com a polícia. As autoridades já admitiram a possibilidade de usarem balas reais caso a violência continua a escalar em Hong Kong. “Não vejo outra solução viável para além da rendição”, atirou o comandante Cheuk Hau-yip.

Apesar disso, houve mesmo manifestantes que conseguiram fugir do cerco feito pela polícia, fazendo rapel. Parece uma cena retirada de um filme, mas aconteceu na noite desta segunda-feira. A polícia ainda tentou evitar a fuga disparando vários projéteis, mas os manifestantes conseguiram escapar após serem recolhidos por motards que os esperavam do outro lado.

Lam assinalou que os menores de 18 anos não serão detidos no imediato, mas avisou que podem enfrentar acusações mais tarde.

Parlamento contra uso de máscaras

O Parlamento chinês disse hoje ser a única autoridade capaz de decidir sobre a mini Constituição de Hong Kong, depois do Supremo Tribunal do território ter declarado inconstitucional a proibição do uso de máscaras em protestos.

“A decisão do Supremo Tribunal de Hong Kong enfraquece seriamente a governação da chefe do Executivo e do Governo da RAE [Região Administrativa Especial]”, afirmou o porta-voz da Comissão de Assuntos Legislativos da Assembleia Nacional Popular (ANP) Jian Tiewei, citado pela imprensa oficial chinesa.

Jian Tiewei afirmou que apenas a ANP tem o poder de decidir se uma lei está ou não em conformidade com a Lei Básica de Hong Kong. “Nenhuma outra instituição tem o direito de fazer um julgamento ou tomar uma decisão”, sublinhou.

Na segunda-feira, o Supremo Tribunal da região administrativa especial chinesa declarou inconstitucional a “lei anti-máscara”, que entrou em vigor a 5 de outubro passado, medida decidida pelo Governo de Carrie Lam para tentar “acabar com a violência e restaurar a ordem”, devido à “situação de grande perigo público” que se vive no território há mais de cinco meses.

Na decisão, o Supremo Tribunal de Hong Kong afirmou que a proibição das máscaras é inconstitucional por impor mais restrições do que as necessárias aos direitos fundamentais da população.

De acordo com a imprensa, a China continua a apoiar a chefe do Executivo de Hong Kong e o trabalho das forças policiais.

“O Governo de Hong Kong está a tentar arduamente controlar a situação mas, se a situação se tornar incontrolável, o Governo central não ficará certamente de braços cruzados a assistir. Temos firmeza e poder suficientes para acabar com a instabilidade”, disse Liu Xiaoming, embaixador chinês no Reino Unido.

ZAP // Lusa

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