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Azevinhos gigantes ou cavaleiros a defender donzelas de perus. A história dos caricatos postais de Natal da era Vitoriana

Apesar da reputação de ser uma época dura e negra, os postais de Natal da era Vitoriana não se limitavam ao significado religioso e muitos retratavam cenas humorísticas e bizarras.

Órfãos, pobreza, e aristocratas frígidos e arrogantes — é este o retrato que é muitas vezes feito da era Vitoriana em Inglaterra. Mas os cartões de Natal desta época contam uma história diferente, com um sentido de humor caricato e exuberante, como relata a Slate.

Geralmente, os cartões apresentam retratos que brinca com as tradições natalícias da época, com um exemplar que mostra um homem a tentar beijar a sua amada debaixo de um enorme bouquet de azevinho, outros que retratam cavaleiros a lutar contras perus paras defenderem donzelas ou cozinheiros a dançar com animais.

O Natal moderno como o conhecemos é creditado em grande parte a Charles Dickens, que em 1843 publicou “Um Cântico de Natal” e popularizou os livros dedicados às festividades. A tradição da árvore de Natal também se espalhou quando o marido da Rainha Vitória, o príncipe Albert, trouxe o costume da Alemanha.

O Natal também começou a ser celebrado com tradições familiares e seculares que não eram necessariamente religiosas, sendo que muitas delas, como os presentes para as crianças ou ter um jantar especial na Consoada, ainda se mantém.

O primeiro postal de Natal foi criado em 1843 por Henry Cole e ilustrado por J.C. Horsley e tinha como objetivo ajudar a moderar a muita correspondência natalícia que Cole estava a receber, dando-lhe uma oportunidade de não ter de escrever cartas individualizadas em resposta.

Foram impressos 1000 postais e aqueles que não foram usados foram vendidos pelo preço de duas carcaças de pão grandes, um preço caro baseado no trabalho que cada postal dava por ser pintado à mão.

A moda não pegou logo, mas a invenção da cromolitografia mudou tudo ao permitir que a tinta fosse impressa diretamente no papel — apesar do processo continuar trabalhoso. Aliada à invenção de papel mais barato, esta inovação permitiu que a produção dos cartões fosse massificada e mais barata na década seguinte. As melhorias no sistema de correios também facilitaram a sua distribuição.

Mas por que é que estes postais retratam situações tão engraçadas e inusitadas? A resposta a esta questão é dada pela Charles Goodall and Son, uma empresa na linha da frente da produção de postais entre 1820 e 1922 e que dominou a criação de cartões natalícios na década de 1850.

Stephen Goodall, de 99 anos, passou os últimos 35 anos a colecionar os postais que a empresa fundada pelo seu bisavô produziu. Numa entrevista em 2015, revelou que a religião era mais importante na era Vitoriana e que “durante alguns anos a empresa criou alguns religiosos, muitos mais do que os humorísticos”.

O humor baseava-se em pegar em elementos tradicionais do Natal — o jantar na véspera, a alegria das famílias, a troca de presentes — e dar-lhes um toque mais divertido e surreal. Animais saltitantes e com expressões humanas são comuns, assim como trocadilhos, fadas a pregar partidas ou quedas.

Uma piada recorrente é a ameaça de fuga do jantar de Natal, com os ingredientes das refeições a ganhar pernas e zarparem enquanto os cozinheiros atarefados tentam manter ordem na cozinha. Outros cartões parecem inspirar-se em Alice no País das Maravilhas, com os animais e as garrafas de bebidas a dançar em roda.

Maddy Goodall, coordenadora do património do Humanists UK, agradece ao avô por ter preservado as relíquias da empresa, como os postais, os diários, cartas ou fotografias que dão um “vislumbre de que como era a família”. “Sempre houve uma tendência de humor estranho na família, mesmo com algumas gerações a ser mais reservadas. Parece ao mesmo tempo tão adequado e tão surpreendente que tinham uma tendência para este humor bizarro”, revela.

Já a tia Felicity Goodall cita a sabedoria popular: “Conhecem aquele ditado de que “o passado é outro país”? Bem, acho que o passado é tão estranho como nós somos. Igualmente peculiar“, remata.

  ZAP //

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