Até à última curva? Hamilton vence na Arábia Saudita e atira decisão do título com Verstappen para a derradeira corrida do campeonato

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Depois da vitória de Hamilton na Arábia Saudita, a luta pelo título volta à estaca zero para a corrida decisiva, em Abu Dhabi. É apenas a segunda vez na história da modalidade que os dois concorrentes ao título chegam empatados à última e decisiva corrida.

Era a última das novidades do campeonato de Fórmula 1 deste ano. Extremamente rápida, estreita e localizada nas margens do Mar Vermelho, em Jidah, na Arábia Saudita, a mais recente pista a integrar o circuito — foi terminada e homologada apenas há poucos dias — representava para as equipas um desafio acrescido para as equipas, carentes de dados estatísticos que lhes permitissem adaptar os monolugares ao traçado. Para os fãs, tratava-se de uma oportunidade única para, numa fase tão avançada da época, ver os pilotos no limite dos limites.

E foi a isso que assistiram, a começar logo pelos treinos livres, onde Charles Leclerc foi o primeiro a testar as barreiras de segurança da pista ainda na sexta-feita. Um embate aparatoso, deixou marcas significativas no Ferrari do monegasco, obrigando a sua equipa a trabalhar contra o relógio para garantir a viabilidade do carro para a qualificação.

Na sessão decisiva de sábado, Carlos Sainz (companheiro de equipa de Lecrec) quase que lhe seguiu os passos, conseguindo evitar um contacto violento com as barreiras por meros centímetros. A manobra acabaria por desestabilizar o carro (especialmente a asa traseira), o que atirou o espanhol para os últimos lugares do Q2. Ainda assim, o contacto que fica para a história será o de Max Verstappen. A desafiar o tempo mais rápido de Lewis Hamilton na qualificação, o piloto holandês lançou-se numa volta canhão que — dizem os tempos dos dois primeiros setores — lhe garantiria a pole position para a corrida de domingo, não tivesse acabado no muro na saída da curva 27 (a última antes da reta da meta).

Hamilton, a lutar para se tornar o primeiro piloto no história da modalidade a conquistar oito campeonatos do mundo, acabaria por assegurar a volta mais rápida da qualificação, seguido do seu colega de equipa, Valtteri Bottas — o que significaria uma primeira fila trancada pela Mercedes. Max Verstappen seria apenas terceiro — com os parciais das voltas de qualificação a sugerirem que a posição de largada pouco ou nada diriam sobre o desfecho da corrida de domingo.

Perante as características da pista — e a antever pelos arranques das provas de Fórmula 2 —, a probabilidade de a corrida de domingo ser acidentada, com entrada de safety cars ou até bandeiras vermelhas, era alta. Mesmo assim, o arranque aconteceu sem incidentes, com os três primeiros a manterem as posições iniciais. Não foi até ao acidente de Mick Schumacher (Haas) à volta 10, que obrigou a uma situação de safety car, que a corrida começou a aquecer.

Aproveitando-se da situação, os dois carros da Mercedes foram chamados às boxes para substituírem os pneus médios com que tinham iniciado a corrida para calçarem os duros, o que determinaria a sua queda para segundo (Hamilton) e terceiro (Bottas). Max Verstappen, por sua vez, manteve-se em pista — numa estratégia que muitos categorizaram como arriscada por parte da Red Bull. No entanto, após a retirada do monolugar do piloto alemão, a direção de corrida decretou situação de bandeira vermelha, o que ditou a suspensão da corrida — e retirou à Mercedes toda a vantagem que podia provir da mudança feita durante a passagem do safety car.

Nesta situação, todos os carros tiveram que se alinhar no pitlane de acordo com as posições que ocupavam em pista, seguindo, posteriormente, para a grelha de partida para o novo arranque. No apagar das luzes de partida, Hamilton e Verstappen partiram lado a lado, mas chegados à primeira curva, o holandês ganhou vantagem fora de pista, consolidando um primeiro lugar que o britânico (em terceiro lugar depois de ser ultrapassado por Esteban Ocon na primeira curva) reclamou de imediato.

À medida que os líderes avançavam, gerava-se o caos no pelotão que os antecedia. Sérgio Pérez (Red Bull) acabou por fazer um pião numa situação de disputa de posição com Charles Lecrerc e Mazepin embateu em George Russel, o qual, ao ver a manobra do mexicano, conseguiu travar a tempo mas impedindo uma reação atempada do russo que seguia atrás de si. A confusão obrigou a nova bandeira vermelha, com os monolugares de regresso ao pitlane e com a Mercedes ainda a reclamar a devolução da posição que Verstappen havia conseguido fora de pista.

O que se assistiu de seguida foi uma negociação pouco típica nas principais categorias do desporto motorizado entre a direção da prova e as duas equipas envolvidas — com direito a transmissão televisiva das comunicações rádio feitas entre os intervenientes. Segundo o acordado, o holandês cairia para terceiro, atrás de Hamilton e Ocon, respetivamente. No arranque, novamente na primeira curva, Max Verstappen retoma a liderança com Lewis Hamilton, a fazer os possíveis para evitar danos no monolugar, a cair para terceiro — apenas por tempo suficiente para que o seu W12 se superiorizasse ao Alpine do francês.

À volta 33 de 50, e após dois safety cars virtuais, os dois adversários na luta pelo mundial de pilotos estavam já a lutar diretamente por posição, quando Lewis Hamilton tentou uma ultrapassagem que teve como resposta de Verstappen uma manobra para fora de pista, o que lhe permitiu manter posição. No entender da direção de corrida, a manobra foi ilegal, pelo que foi dada ordem ao piloto da Red Bull para devolver a posição a Hamilton.

Acontece que a comunicação terá passado pelos canais da equipa de austríaca mais rapidamente do que na equipa de Estugarda, já que, quando Max Verstappen decidiu abrandar — talvez excessivamente — para Hamilton o ultrapassar, o piloto britânico ainda não tinha recebido essa indicação por parte do engenheiro. O resultado? Os dois acabaram por chocar e a asa dianteira do sete vezes campeão do mundo danificada. Mesmo assim, Hamilton acabaria por se superiorizar a Verstappen, a quem foi atribuída uma penalização de cinco segundos por não ter devolvido a posição, tal como havia sido decretado pela direção de corrida.

Após passar pelo holandês, e mesmo com uma asa frontal danificada, Lewis Hamilton conseguiu construir uma vantagem significativa, limitando-se, nas oito voltas restantes, a gerir a vantagem que lhe permitiria igualar o rival no número de pontos do mundial de pilotos — conquistou, simultaneamente, o ponto da volta mais rápida, tirando partido dos pneus duros em que apostou para os arranques, em oposição aos médios de Max Verstappen, que chegaram ao final da prova francamente debilitados.

Ainda no que diz respeito aos três primeiros lugares, Valtteri Bottas ultrapassou, na linha de meta, Esteban Ocon, assegurando o último lugar do pódio na que foi a sua penúltima corrida com a construtora germânica.

Como ficam as classificações?

Com o resultado de ontem, Lewis Hamilton conseguiu igualar Max Verstappen que chegou à Arábia Saudita com uma vantagem de oito pontos — e com a possibilidade de, ali, se sagrar pela primeira vez campeão do mundo. A luta segue agora para Abu Dhabi, na Yas Marina. É apenas a segunda vez na história que os dois concorrentes ao título chegam empatados à última e decisiva corrida — a primeira foi em 1974, com Fittipaldi e Regazzoni.

Independentemente do resultado, assistirá-se a histórica. Caso Lewis Hamilton vença, será o primeiro piloto da história da modalidade a sagrar-se campeão pela oitava vez, ultrapassando, assim Michael Schumacher. Caso Max Verstappen vença, será o quarto mais jovem campeão do mundo e o primeiro holandês a consegui-lo.

No que respeita ao mundial de construtores, a Mercedes parte para o Abu Dhabi com uma vantagem de 28 pontos, numa luta onde os segundos pilotos das duas equipas na contenda (Valtteri Bottas e Sérgio Pérez) terão um papel preponderante para as contas finais.

  ARM //

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