Habitantes de Atlântida podem ter conseguido fugir para a Península Ibérica

Caroline Biolay / Georgeos Díaz-Montexano (2016)

Georgeos Díaz-Montexano no documentário "Atlantis Rising".

Georgeos Díaz-Montexano no documentário “Atlantis Rising”.

O documentário do National Geographic “Atlantis Rising” deixou James Cameron, realizador de “Titanic” e “Avatar”, às “portas” de Atlântida. O explorador Georgeos Díaz-Montexano, que guiou o cineasta pelas investigações, conta ao ZAP como Portugal surge na rota de uma Atlântida Ibérica.

“Atlantis Rising”, o documentário do canal National Geographic que, em breve, será emitido em Portugal, abre novas portas à possível descoberta de Atlântida.

A investigação, que teve o dedo do realizador James Cameron, na produção do filme, explorou diversas teorias científicas sob orientação do hispano-cubano Georgeos Díaz-Montexano que, há mais de 20 anos, estuda o mistério de Atlântida.

Escritor, atlântologo e epigrafista, Díaz-Montexano tem vários livros publicados sobre o assunto. É desde 2009 assessor do canal National Geographic e colaborou directamente com James Cameron e  Simcha Jacobovici no documentário “Atlantis Rising“.

As suas pesquisas giram, sobretudo, em torno de antigos códices, papiros e manuscritos em grego, latim, árabe e egípcio, sem esquecer os textos de Platão.

Uma das teses que defende, e que é explorada no documentário, vaticina que alguns habitantes de Atlântida podem ter conseguido fugir à eventual catástrofe que submergiu a ilha e ter-se instalado no sul da Península Ibérica, onde terão deixado gravuras rupestres a lembrar a sua terra perdida.

O ZAP teve oportunidade de entrevistar o explorador que conta como “Atlantis Rising” passou também pelos Açores e como Portugal surge na rota de uma Atlântida Ibérica.

Origens de Atlântida remontariam há uns 12.580 anos

ZAP – A Atlântida existiu mesmo?
Georgeos Díaz-Montexano – É impossível, neste momento, confirmar se existiu ou não. A minha teoria propõe que, no caso de ter existido uma ilha com uma cidade concêntrica, circular, só pode descobrir-se onde foi claramente situada nos textos, isto é, no Atlântico, à boca do estreito das Colunas de Hércules (Gibraltar) e próxima de Gadeira (Gades ou Cádiz), na área que se estende entre Ibéria, Marrocos, a Madeira e talvez, até às Canárias pela parte meridional. Essa civilização atlântica remontaria as suas origens (e não o final como, erroneamente, muitos ainda acreditam) até há uns 12.580 anos, enquanto o seu final catastrófico seria entre finais do Calcolítico e a Idade do Bronze (entre 2700 a 1550 A.C.).

ZAP – Há provas que confirmem esses dados?
GDM – Está tudo documentado nas fontes primárias escritas (códices, papiros, manuscritos, inscrições) em antigas Línguas, mas sobretudo nos escritos de Timeu e Crítias de Platão, obviamente se forem lidos e interpretados de forma correcta, através de traduções gramaticalmente correctas. São muitas as fontes que suportam a possível existência histórica da Ilha Atlântida e da sua civilização, ou, pelo menos, a existência de uma antiquíssima tradição ou lenda histórica sobre uma cultura marítima atlântica, de considerável desenvolvimento, que floresceu entre o Neolítico e a Idade do Bronze, numa ilha situada em frente a Gibraltar, não muito longe de Ibéria e de Marrocos, ou num arquipélago de ilhas e colónias distribuídas em regiões continentais da Europa e de África. Esta hipótese parece a mais verosímil, de acordo com o conhecimento geológico que temos, na actualidade, sobre a geo-morfologia das ilhas (tanto das emergidas como das submergidas) e o relevo dos fundos marinhos do Atlântico.

ZAP – E Atlântida foi exactamente o quê: uma ilha, um continente?
GDM – Nos textos de Timeu e Crítias de Platão, usa-se, sem sombra de dúvida, a palavra grega nêsos, ‘ilha’ ou ‘península’. Platão nunca usou êpeiros (‘continente’) para referir-se a Atlântida. Mas acabei convencido de que, no contexto em que Platão usa o termo nêsos, é indiscutivelmente como ilha.

Monik Perz / www.MonikPerz.com

Ilustração para o documentário "Atlantis Rising" de James Cameron e Simcha Jacobovici, para a SAIS e o National Geographic.

Ilustração para o documentário “Atlantis Rising” de James Cameron e Simcha Jacobovici, para a SAIS e o National Geographic.

A ideia de uma Atlântida Ibérica

ZAP – Uma das teses que defende, e que é explorada no documentário “Atlantis Rising”, envolve gravuras de Arte Rupestre, na Península Ibérica, que atestam essa possível existência de Atlântida.
GDM – Uma delas (uma gravura ou petróglifo) foi datada, pelos arqueólogos que a descobriram, em torno de finais da Idade do Bronze, na época Tartésia; a outra, pintada a cor vermelha, no interior de uma caverna, é muito mais antiga e remonta, pelo menos, ao período Epipaleolítico, entre finais do Paleolítico Superior e começos do Neolítico. Em ambas se vêem barcos que vão e vêm de uma grande ilha que tem uma forma semelhante à pata de um bovídeo, representada mesmo em frente ao que seria o Estreito de Gibraltar e as costas de Ibéria e Marrocos. Exactamente na zona onde é situada a Ilha Atlântida em todas as antigas fontes primárias e secundárias escritas. A estas evidências também podemos somar vasos de cerâmica com o mesmo símbolo circular concêntrico, similar ao da metrópole de Atlântida. E temos igualmente, encontrado ruínas debaixo do mar, desde há algumas décadas, na área do Atlântico entre Ibéria e a Madeira, que não podem ter sido construídas depois de 6000 ou 4000 A.C., tendo em conta a profundidade onde se descobriram e já que evidenciam uma cultura desenvolvida, com um nível semelhante ao que vemos em culturas que só se constataram, em áreas continentais, em tempos posteriores.

ZAP – As suas investigações vão ao encontro da ideia de uma Atlântida Ibérica?
GDM – Sim, mas só considerando Ibéria como o principal território anexo na influência cultural dos habitantes da vizinha Ilha Atlântida. É de mero sentido comum que se a Ilha Atlântida existiu realmente, com uma civilização dos metais e uma cultura marítima avançada, essa civilização deve ter deixado cidades-colónias importantes nas regiões mais próximas, ou seja, em vários pontos da Andaluzia e de Portugal. Estas cidades imitariam certamente, o padrão principal da metrópole que é descrito como de vários fossos circulares que se inundavam com água, enquanto eram alternados por anéis de terra ou espaços entre os fossos, tudo isto circundando uma pequena ilha central, onde se encontraria a Acrópole ou zona principal com as casas, templos ou edifícios de maior relevância social. Este esquema ou padrão urbanístico foi encontrado no bairro “Marroquíes Bajos” na cidade de Jaén, em Espanha. Fui o primeiro a notar esta semelhança com o padrão ou desenho do traçado urbanístico da capital de Atlântida. E pouco depois, descobri o mesmo padrão circular concêntrico noutras cidades antigas do Calcolítico e do Bronze da Andaluzia e do Algarve, entre outros pontos do interior da Península Ibérica.

ZAP – As explorações feitas para o documentário do National Geographic chegaram aos Açores.
GDM – Correcto, chegamos até aos Açores e lá consultamos o maior especialista em possíveis construções pré-portuguesas, o professor Félix Rodrigues, que estuda, há anos, uma série de interessantes descobertas que podem remontar a tempos do Neolítico ou do Calcolítico e que podem também, estar relacionadas com a mesma civilização ou cultura marítima atlântica que se descreve nos textos de Platão e da qual acreditamos ter descoberto provas no sudoeste de Ibéria e nas costas atlânticas próximas. Aí seria o “Ground Zero“, o foco central dessa civilização, que, segundo parece, se estendeu igualmente, até outras ilhas do Mediterrâneo, como a Sardenha, a Sicília e Malta, coincidindo com o que se descreve em Timeu e Crítias, de como os atlanteanos, na sua ânsia conquistadora, se espalharam pelas outras ilhas do Atlântico e por quase todos os lugares do interior do Mediterrâneo, até aos limites da Líbia com o Egipto, por África, e pela Europa, até Tirrenia (Península Itálica) e Ásia (Turquia e actuais costas de Síria, Líbano e Israel).

ZAP – Acredita que algum dia, se vai conseguir confirmar a existência e localização exacta de Atlântida?
GDM – Não perco a esperança de que algum dia (talvez não muito distante), se descubram importantes vestígios arqueológicos, tanto na terra como debaixo do mar, que permitam confirmar a existência de uma antiga cultura marítima atlântica que deu origem a tais tradições e a essa lenda histórica sobre uma importante civilização atlântica. A ter existido realmente, a ilha de Atlântida, os vestígios das suas construções e cultura material deverão descobrir-se debaixo do mar, em algum ponto dessa área atlântica que rodeia as costas de Huelva, Cádiz, Madeira, Marrocos e Canárias, e possivelmente, até perto dos Açores também.

Caroline Biolay / Georgeos Díaz-Montexano (2016)

Georgeos Díaz-Montexano no documentário "Atlantis Rising".

Georgeos Díaz-Montexano no documentário “Atlantis Rising”.

“Dois anos de trabalho árduo”

ZAP – Como foi essa experiência de colaborar com James Cameron e Simcha Jacobovici no documentário?
GDM – A experiência foi inesquecível. Sem dúvida, a maior experiência que experimentei a nível mediático e de divulgação e também a maior expedição de investigação (quanto a recursos tecnológicos e quantidade de cientistas de várias universidades do mundo) em que participei. Foram quase dois anos de trabalho árduo, entre a fase inicial de documentação e de exploração prévia de locais potenciais para filmar e o culminar das filmagens, entre Ibéria e os Açores. E foi uma enorme experiência de satisfação e realização pessoal, um enorme privilégio que as minhas investigações sobre Atlântida, de mais de 20 anos contínuos, tenham acabado por convencer destacados cientistas de várias universidades que colaboraram com o National Geographic, especialmente o Dr. Richard Freund, e duas grandes figuras do cinema e dos documentários, como James Cameron e Simcha Jacobovici.

ZAP – Quando é que o seu último livro -“Atlantis Rising” -, que fala precisamente da investigação levada a cabo no documentário, vai ser publicado em Portugal?
GDM – Prevejo que, lá para finais deste mês, esteja disponível na maioria das mais importantes livrarias e lojas online, como e-book e como  livro impresso, sob encomenda. O documentário estreará em Portugal, muito provavelmente, no próximo mês de Março e então, todos os que falam português poderão encontrar o meu livro “Atlantis Rising – National Geographic e a busca científica da Atlântida”.

SV, ZAP //

14 COMENTÁRIOS

  1. Acho perfeitamente viável. Muito provavelmente transformaram-se em portugueses. Isso explica porque estamos a conseguir afundar o país também. Deve ser genético.

  2. Peter Daughtrey – “Atlantis and the Silver City” – Este senhor também refere o Algarve, mais propriamente Silves,que corresponde a todas as descriçoes de Platao sobre Atlantida. Muito interessante teoria.

  3. “Acabei agora de ver. Quase duas horas de documentário que pouco ou nada acrescenta ao que já tinha sido dito até aqui: Platão, Ilhas gregas, etc. Quanto à publicidade feita sobre os Açores e a sua suposta ligação à Atlântida, o arquipélago é referido nos últimos dez minutos, com supostos achados arqueológicos feitos na Terceira e no Pico, com um rigor tal que são apresentadas como uma ilha só… De resto, não são referidas as dataçoes já feitas e estudadas, são apenas apresentados elementos interpretados como sendo Antigos por opinião unilateral no Professor Félix Rodrigues. E tanto ele fala num columbário romano com dois mil anos (sem no entanto apresentar quaisquer provas) como no momento seguinte o apresentador do programa já está a falar de estruturas com três ou quatro milénios, sem que ninguém tivesse falado no assunto e a tirar ilações por comparação com coisas que viu no Mediterrâneo e que não são comparáveis, pelo menos com essa leveza . Daí dão um salto para seis mil anos, e continuam sem apresentar provas nenhumas (quando até existem elementos datados, mas não tão antigos). Fica a National Geographic mal na fotografia, a fazer mais um documentário sensacionalista que não acrescenta nada de concreto nem prima pelo rigor, fica mal a NGS Portugal por ter publicitado o programa nem que tivesse grande coisa sobre os Açores (há por aí muita gente a botar água na fervura sem que, basta ler os seus comentários para perceber, tenha visto sequer o programa) e fica mal a Universidade dos Açores, com todo o respeito pelo investigador em causa, mas não só não é arqueólogo nem historiador ( é físico, mas isso nunca é referido, é apresentado apenas como “professor”) como não apresenta qualquer prova científica para as afirmações que faz no documentário e qualquer pessoa que o veja com um mínimo sentido crítico poderá constatar isso. Aliás, todo o programa se baseia em teorias e interpretações, de que resultam depois afirmações dadas como exactas. Uma coisa é falar de datações que foram feitas (e que, não obstante estarem ainda a ser estudadas e as hipóteses exploradas, nunca são referidas) ou em teorias sobre uma presença humana pré portuguesa, outra coisa é afirmar que existiu nos Açores uma civilização desde há milhares de anos. Querem fazer um documentário façam com o que se sabe e com quem sabe. Todas as hipóteses estão a ser estudadas mas é preciso ter tanto rigor no estudo como seriedade da sua divulgação.”

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