França vai resgatar Crédit Lyonnais com 14,7 mil milhões dos cofres públicos

O presidente francês, François Hollande (foto: Copyleft / wikimedia)

O presidente francês, François Hollande (foto: Copyleft / wikimedia)

A França vai emitir 4,5 mil milhões de euros de dívida para saldar os últimos pagamentos do resgate em 1993 do banco Crédit Lyonnais, que no total vai custar 14,7 mil milhões de euros aos cofres públicos.

O Ministério das Finanças francês confirmou a informação publicada hoje pelo “Le Parisien”, segundo a qual o Governo vai apresentar na quarta-feira em Conselho de Ministros uma proposta de alteração ao orçamento deste ano, que vai permitir ao Tesouro emitir obrigações para reembolsar as últimas dívidas geradas pela operação com que foi evitada a falência do Crédit Lyonnais.

Se esta alteração for aprovada pelo Parlamento, põe-se fim à parte financeira daquele que foi um dos maiores escândalos do final do século XX em França, enquanto ainda vai continuar na Justiça.

O Tribunal de Contas francês tem avisado os sucessivos governos de que tinham de amortizar estes 4.500 milhões de euros antes do prazo limite, em 2014, mas foram empurrando o problema devido ao impacto no défice orçamental.

O Crédit Lyonnais foi nacionalizado em 1982, juntamente com outros bancos, pelo governo do então presidente socialista François Mitterrand, e a partir da segunda metade dessa década os seus responsáveis foram muito além da atividade bancária normal, com a aquisição de propriedade industrial e bens imobiliários.

O banco chegou a ter participações no capital de 1.500 empresas e uma carteira de imóveis de 15 mil milhões de euros, o que levou o banco à bancarrota com o rebentar da bolha especulativa e o colapso desse mercado em 1992.

A entidade financeira entrou no vermelho naquele mesmo ano e em 1993 perdeu o equivalente a 1,43 mil milhões de euros, o que o deixou à beira da falência. O Estado teve que intervir no banco para o salvar e impedir o contágio a todo o sistema financeiro francês e até mesmo internacional.

O governo do então primeiro-ministro, o conservador Edouard Balladur, ordenou o seu desmantelamento e usou um organismo estatal como ‘bad bank’ (mau banco), para onde foram transferidos os ativos ‘tóxicos’ do Crédit Lyonnais.

O processo de separação da instituição financeira (rebatizada em 2005 pelas siglas LCL, dois anos depois de ter sido comprada pelo Crédit Agricole) foi pontuado por escândalos políticos e financeiros, um dos quais envolve o empresário e ex-ministro socialista Bernard Tapie.

Tapie, que em 1992 vendeu a Adidas (de que era proprietário) ao Crédit Lyonnais, antes de revenda em 1994 por mais do dobro, processou o banco por se sentir enganado e a Justiça deu-lhe inicialmente razão.

Como as disputas legais se prolongavam, no final de 2007, Tapie e a então ministra das Finanças, Christine Lagarde, concordaram numa arbitragem privada para dirimir o conflito.

Um ano depois, o empresário venceu e a estrutura pública que ficou com os ativos ‘tóxicos’ do Crédit Lyonnais foi condenada a pagar-lhe 403 milhões de euros.

No entanto, a Justiça suspeitou entretanto que este procedimento arbitral foi feito em favor de Tapie e está a investigar se houve cumplicidade com Christine Lagarde e o então Presidente da República, Nicolas Sarkozy, para ganhar esse processo.

A notícia da futura emissão do Tesouro, que agravará a dívida francesa, é conhecida dois dias depois de a agência de notação Standard & Poor’s ter reduzido pela segunda vez em menos de dois anos o ‘rating’ de França para “AA”.

/Lusa

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