Fósseis de dentes sugerem que homem deixou África 20 mil anos mais cedo do que se pensava

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A arqueóloga María Martinón-Torres estuda os dentes encontrados em Daoxian

A arqueóloga María Martinón-Torres estuda os dentes encontrados em Daoxian

Fósseis encontrados na China podem mudar drasticamente a narrativa tradicional da dispersão da espécie humana pelo mundo.

Cientistas que trabalham em Daoxian, no sul da China, descobriram dentes pertencentes a humanos modernos com uma idade de pelo menos 80 mil anos, revela um estudo publicado na revista científica Nature.

A descoberta contraria a amplamente aceite teoria de que o homem deixou a África há 60 mil anos. Diversos indícios, tanto genéticos como arqueológicos, apoiavam esta teoria.

Acreditava-se até agora que os primeiros humanos modernos a viver no norte da África tinham atravessado o Mar Vermelho pelo estreito de Bab el Mandeb, aproveitando da maré baixa.

Todas as populações não-africanas existentes actualmente teriam derivado desta dispersão.

Tesouro arqueológico

Escavações arqueológicas nas cavernas Fuyan, em Daoxian, trouxeram à superfície um tesouro arqueológico composto por 47 dentes humanos.

“Estava claro para nós que estes dentes pertenciam a humanos modernos, por causa de sua morfologia. O que nos surpreendeu foi sua idade”, diz María Martinón-Torres, arqueóloga da University College London, no Reino Unido, à BBC.

“Todos os fósseis estavam selados em pedra calcária. Então, os dentes tinham de ser mais antigos que esta camada de solo, que tem estalagmites com 80 mil anos de idade, conforme foi determinado com urânio.”

Isso significa que tudo o que esteja abaixo destas estalagmites deve ser mais antigo do que elas – ou seja, de acordo com os investigadores, estes dentes humanos podem ter até 125 mil anos de idade.

Além disso, fósseis de animais encontrados com os dentes são típicos do período Plistocénico Antigo – algo indicado também pelas medições feitas com carbono-14.

Estes 47 dentes humanos, com 80 a, 120 mil anos, foram encontrados num sistema de grutas de calcário em Daoxian, na China

Fósseis de humanos modernos que precedem a data de migração para fora de África já tinham sido encontrados em cavernas em Israel.

Mas esta migração foi considerada parte de uma tentativa fracassada de dispersão por humanos modernos, que provavelmente acabaram extintos.

No entanto, a descoberta agora feita na China complica a teoria à volta da dispersão humana pelo mundo.

“Alguns investigadores já defenderam que as dispersões humanas ocorreram mais cedo do que se pensa“, diz Martinón-Torres.

“Temos que entender o destino dessa migração, se ela fracassou ou se de facto contribuiu para a formação das populações modernas”, acrescenta a arqueóloga.

“Talvez sejamos descendentes de uma dispersão ocorrida há 60 mil anos, mas temos de rever os nossos modelos, porque pode ter havido mais de uma migração para fora da África”, conclui a investigadora.

Ponto de inflexão

Chris Stringer, investigador do Museu de História Natural de Londres, no Reino Unido, diz que o novo estudo é um “ponto de inflexão” no debate sobre como humanos modernos se espalharam pelo planeta.

“Muitos especialistas, como eu, já argumentaram que a dispersão inicial a partir de África, ocorrida há 120 mil anos – segundo indícios das cavernas israelitas -, foi um fracasso e não foi além da região onde os fósseis foram encontrados”, afirma.

“A grande amostra de dentes de Daoxian parece ser indubitavelmente de humanos modernos, pelo seu tamanho e morfologia, e parece ter sido bem datada, com uma idade de 80 mil anos”, acrescenta Stringer.

“À primeira vista, parece ser condizente com uma dispersão anterior pelo sul da Ásia por uma população parecida com a achada em cavernas de Israel”, conclui.

“Mas os fósseis de Daoxian parecem-se mais com dentes de humanos mais recentes do que com os dos fósseis de Israel, que ainda têm traços primitivos”, realça o especialista.

“Então, deve ter ocorrido uma rápida evolução na dentição de uma população como a das cavernas de Israel – ou os dentes de Daoxian representam uma dispersão diferente, de humanos com um aspecto mais moderno”, diz Stringer.

Martinón-Torres diz que o seu estudo pode lançar uma luz sobre a razão pela qual o Homo sapiens levou mais 40 mil anos para se estabelecer na Europa.

Talvez a presença de neandertais tenha mantido a nossa espécie de fora da parte ocidental da Eurasia, até os nossos primos na escala evolucionária se terem multiplicado e formado um grupo maior.

Também é possível que os humanos modernos, que começaram como uma espécie tropical, não estivessem tão bem adaptados ao clima gelado da Europa como os neandertais.

“Enquanto os humanos ocupavam o quente sul da China há 80 mil anos, as regiões mais frias do centro e do norte da China poderiam ter sido ocupadas por humanos mais primitivos – provavelmente parentes asiáticos dos neandertais”, diz Martinón-Torres.

ZAP / BBC

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