Europa enfrenta “pior epidemia de gripe aviária” da história (“o maior perigo” são mutações em humanos)

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Numa altura em que a Europa lida com a pandemia de covid-19, enfrenta também a “pior epidemia de gripe das aves” da sua história, com milhares de aves mortas e alguns casos de infecção em humanos.

“Não sabemos exactamente de onde veio o vírus, mas fulminou os gansos“. O lamento é de Maurino González, conselheiro do Meio Ambiente e do Património do presidente da Câmara de El Bohodón, na comarca de La Moraña, em Ávila, a cerca de 200 quilómetros da localidade portuguesa de Vilar Formoso.

González explica ao jornal espanhol El Confidencial que todas as manhãs, os veterinários têm de recolher “mais algum corpo” de aves mortas, enquanto as sobreviventes “já pouco se movem”.

“Há quem nos peça para as matarmos a todas, mas desde o meio ambiente, disseram-nos que as deixemos ir morrendo sós”, acrescenta.

A mais recente vaga de gripe das aves está a afectar a Europa desde o passado Outono com uma estirpe altamente contagiosa. A variante H5N1 é a mais predominante nesta altura, mas existem ainda casos da variante H5N8.

Trata-se da “pior temporada de gripe aviária da história” da Europa, segundo o Instituto Friedrich Loeffler (FLI), o Instituto Federal de Investigação em Saúde Animal da Alemanha, conforme cita o El Confidencial.

Portugal com 9 focos entre animais selvagens e domésticos

Em Portugal, foram assinalados 9 focos de “gripe aviária de alta patogenicidade confirmados” até 18 de Janeiro passado pela Direcção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV).

O primeiro foco ocorreu a 30 Novembro de 2021 numa instalação caseira, envolvendo galinhas, perus, patos e gansos, com 79 animais afectados em Palmela, Setúbal.

Em Dezembro, houve dois focos em espaços comerciais de perus de engorda, tendo sido infectadas 18.100 aves, em Óbidos, Leiria, e mais 7353 em Vila Nova da Barquinha, Santarém.

Já neste ano, houve um foco a 3 de Janeiro em Santiago do Cacém, Setúbal, com 60 galinhas e patos afectados num estabelecimento caseiro. E no dia 4 de Janeiro, foram descobertos 15 gansos-bravos infectados na barragem de Alpiarça, em Santarém.

A 10 de Janeiro, detectaram-se 3 patos mudos contaminados num lago em Vila Nova da Barquinha, e mais 2 gaivotas afectadas numa praia em Peniche, Leiria.

Quatro dias depois, foram sinalizadas 100 aves infectadas em cativeiro, incluindo galinhas, perus, patos e faisões, em Constância, Santarém.

O último caso assinalado pela DGAV é de um ganso-bravo em Santiago do Cacém, Setúbal, a 18 de Janeiro, na Reserva Natural das Lagoas de Santo André e da Sancha.

Humano contagiado por patos no Reino Unido

Até agora, já houve mais de 700 focos em 31 países europeus, com 2 milhões de aves mortas só em França e um humano contagiado no Reino Unido depois de ter convivido em casa com patos infectados.

Só neste início de 2022, os números em Espanha rondam as 20 mil aves infectadas e já foram sacrificados 18.900 perus numa quinta, segundo números do El Confidencial.

Na segunda-feira, as autoridades dos Países Baixos abateram mais de 200 mil pintainhos em duas quintas atingidas em Alkmaar, a norte de Amesterdão, e em Willemstad, no sul do território holandês.

Nos dois casos, “o mais provável é que seja a variante H5, altamente contagiosa“, declarou o Ministério da Agricultura holandês num comunicado.

Em Outubro, os Países Baixos anunciaram um período de confinamento para as aves. Nessa altura, os criadores foram aconselhados a manter as aves no interior das propriedades para conter a propagação da doença.

Outros surtos também foram relatados fora da Europa, nomeadamente no Burkina Faso, onde 500 mil aves morreram ou foram abatidas.

Consumo de carne de aves e ovos não é um risco

A gripe aviária é transportada de continente em continente por aves migratórias, o que torna difícil a sua contenção. É “extremamente contagiosa” e pode “causar elevada mortalidade nas aves afectadas”, como destaca a DGAV.

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“Ocasionalmente, algumas estirpes de vírus da gripe aviária podem infectar outros animais, nomeadamente mamíferos, e também o ser humano”, nota a mesma entidade. Mas para haver contaminação a humanos é preciso que haja “um contacto muito estreito entre as aves infectadas e as pessoas ou entre aves e outros animais”, explica a DGAV.

Além disso, “não há nenhuma evidência epidemiológica de que a gripe aviária possa ser transmitida aos seres humanos através do consumo de alimentos, nomeadamente de carne de aves de capoeira e ovos”, esclarece ainda a DGAV.

“Maior perigo” é que possa haver mutações do vírus em humanos

“Quando um vírus deste tipo aparece em aves migratórias, é esquecer erradicá-lo, só se pode tentar impedir que afecte as explorações [agrícolas] e aguentar“, refere ao El Confidencial o epidemiologista veterinário Ignacio de Blas Giral, da Universidade de Saragoça.

“Os vírus da gripe sofrem muitas mutações e muito depressa e o maior perigo destas epidemias ocorrerem e se tornarem cada vez maiores é que possam sofrer mutações em humanos, aí é que as coisas podem ficar confusas”, alerta De Blas Giral.

Esse terá sido o cenário que ocorreu com o coronavírus que gerou a actual pandemia que perturba o mundo, depois de ter tido origem, alegadamente, em morcegos, sofrendo mutações após contacto com humanos.

Mas, para já, o maior perigo é para os animais. Por isso, é preciso manter a vigilância apertada para detectar eventuais focos e evitar misturas entre animais selvagens e domésticos. É que “em quintas fechadas com animais concentrados”, a doença “acaba com entre 70% a 90% da colónia em 48 horas”, alerta De Blas Giral.

  Susana Valente, ZAP // Lusa

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