Estranho zumbido intriga cientistas e enlouquece moradores no Canadá

Adolch / Wikimedia

A cidade de Windsor, no Canadá, vista a partir de Detroit, nos EUA

O som assemelha-se ao de um camião em movimento, à queda de um raio num lugar distante ou ao barulho de altifalantes durante um espetáculo de música.

Mike Provost mora em Windsor, no Canadá, onde, desde 2011, algumas pessoas têm denunciado as consequências de um ruído misterioso. Às vezes vem, às vezes vai. Mas quem o ouve passa a sofrer de dores de cabeça, insónias, náuseas, irritação e fadiga. Ou, em casos mais graves, depressão.

“A pessoa simplesmente perde a capacidade de aproveitar o tempo com a família. O ruído é muito perturbador. É muito difícil até mesmo ver televisão“, explica Provost. “Esse é o tamanho do poder do som”.

Em referência à cidade, na fronteira com os Estados Unidos, o zumbido está a ser chamado “Windsor Hum”. O intrigante fenómeno motivou alguns estudos para explicá-lo – mas nenhum conseguiu, até agora, precisar exatamente a sua causa.

Para alguns moradores de Windsor, porém, se as causas não são conhecidas, as consequências são perturbadoras. “Imagine ter que fugir de tudo o que conhece e ama simplesmente para ter a oportunidade de se afastar do zumbido”, escreveu Sabrina Wiese num fórum online de pessoas afetadas pelo ruído, entre as quais algumas que consideram deixar a região por causa do problema.

Vai e vem

A população de Windsor é de cerca de 210 mil pessoas, mas só algumas sofrem com o zumbido. Autoridades e investigadores não têm um número preciso para o volume de afetados.

A cidade, na província de Ontario, está localizada na divisa com a cidade americana de Detroit – que tem uma população de 672 mil pessoas e é um grande centro industrial, principalmente de automóveis. O rio Detroit divide as duas cidades.

O ruído vai e vem durante o dia, mas é pior à noite“, explica Provost, um aposentado que administra o fórum de afetados na internet e já forneceu às autoridades algumas gravações do ruído. “Percebemos que o clima influencia. Quando faz frio, o som tende a diminuir. Quando está vento, sobe. Não sabemos de onde vem ou o que o causa”, descreve.

Ao longo dos anos, os afetados pelo zumbido também perceberam que a altitude tem influência: quanto mais alto, mais se percebe o ruído.

Possível origem

Recentemente, três pesquisas diferentes conseguiram apontar uma fonte mais provável para o fenómeno: a ilha Zug, pertencente à cidade americana de Detroit. Em 2011, a Agência Geológica do Canadá confirmou, através de análises sísmicas, que o ruído em Windsor existe e tem origem mais provável na ilha.

“Os sinais registados são consistentes com os zumbidos relatados na região de Windsor, em termos de tempo, duração e características”, conclui o relatório.

Um estudo da Universidade de Ontario Ocidental de 2013 também não conseguiu identificar uma fonte exata, mas sinalizou que as “possíveis fontes podem incluir escavações ou sistemas de ventilação industrial“.

O maior estudo sobre o assunto, porém, data de 2014 – feito através de instrumentos de medição acústica pela Universidade de Windsor. A pesquisa assinalou como fonte mais provável o uso de fornos de alta potência na ilha Zug pela empresa de metalurgia United States Steel Corp.

“Essas conclusões são reforçadas pela natureza periódica do ruído, que foi observado e medido pelos investigadores”, diz o estudo. Gary Wheeler, da Secretaria de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas de Ontario, Estado canadiano, disse à BBC que por agora não há planos para novos estudos sobre o “Windson Hum”.

Sem acesso à ilha Zug

Algumas pessoas em McGregor, no sul de Windsor, e na cidade americana de Cleveland já relataram ter ouvido o barulho, mas em Detroit não há relatos.

David Bower, procurador de River Rouge, uma cidade americana próxima, descartou no passado a ideia de uma investigação na ilha Zug, parte da sua jurisdição. “Não vamos pagar por algo que beneficie outra pessoa”, disse Bower ao jornal canadiano Windsor Star, “porque não é um problema que nos afeta“.

Mas um estudo de campo ali é fundamental para a obtenção de um “resultado significativo” sobre o que está a causar o zumbido que afeta os moradores do lado canadiano, como indicou a Universidade de Windsor.

Gary Gross, morador de Windsor afetado pelo ruído, disse à BBC que os interessados em encontrar uma solução para a situação sabem que contar com a colaboração de autoridades americanas “é muito difícil, se não impossível“. A BBC pediu uma entrevista com a empresa United States Steel Corp., mas não obteve resposta.

Micro-ondas?

Nos Estados Unidos, houve casos semelhantes ao de Windsor que remontam à década de 1990, mas os especialistas também não conseguiram identificar a fonte dos barulhos. Um amplo estudo foi realizado na localidade de Toas, no Novo México – onde, em 1993, 161 pessoas de uma população de 8 mil relataram incómodo com um ruído.

O único ponto que pôde ser identificado foi “um nível de campo eletromagnético elevado que, segundo relatórios, estava relacionado às linhas elétricas locais”.

Em Kokomo, no Estado americano de Indiana, 126 pessoas entre 46 mil habitantes disseram sentir os efeitos de um zumbido e algumas disseram que redutores de ruído em instalações industriais aliviaram os efeitos. James Cowan, especialista em acústica, considera que não se trata de “um fenómeno acústico tradicional“.

“O baruho pode ser escutado por algumas pessoas, mas não pode ser localizado através de instrumentos de acústica padrão”, indicou numa análise dos casos de Novo México e Indiana.

Cowan aponta que uma possível explicação seja o fenómeno da “audição de micro-ondas”. “É um fenómeno pelo qual as pessoas, incluindo as diagnosticadas com surdez, podem escutar sons relacionados com a exposição ao campo eletromagnético e que não têm a pressão acústica mensurável”, diz Cowan.

ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Estava a viver em Mucifal nos anos 80 e lá havia um som constante em high pitch. Pensava que era das linhas de telefone e/ou electricidade. Até tentei segui-lo para encontrar o origem mas não aumentava nem diminuía em qualquer direcção.

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