“Epidemia” de acidentes fatais. Japão quer tirar os idosos da estrada

(CC0/PD) Mick Tinbergen / Unsplash

Apesar de ter registado um mínimo histórico de 3.532 mortes no trânsito em 2018, o Japão está a ser afligido pelo comportamento de um grupo etário que tem crescido nas estatísticas de acidentes da Agência Nacional de Polícia.

No Japão, condutores com mais de 75 anos envolveram-se em 460 acidentes fatais o ano passado. Nos quatro primeiros meses de 2019, o número já chegou aos 109.

Muitos casos ocorreram por erro do condutor idoso, que acelerou o seu carro pensando que estava a travar. A sucessão de acidentes levou o governo a pensar em medidas preventivas, e uma parte da população sente necessidade de agir.

Aos 82 anos, o empresário Toyoharu Kurihara decidiu deixar de conduzir. O gestor, que conduz desde os 23 anos, resolveu desfazer-se do carro e agora só se desloca a pé, de autocarro ou comboio para cumprir a sua intensa agenda como CEO de uma empresa de alimentos localizada na província de Kanagawa.

A mudança de hábitos está a exigir grande esforço do físico e de tempo do gestor octogenário. Se de carro fazia em meia hora o trajecto de casa até à empresa, agora Kurihara gasta 1:15h, com dois autocarros e duas trocas de comboio, para ir trabalhar.

O governo japonês reconhece que tomar uma decisão destas não é fácil, principalmente para os idosos que vivem nas aldeias e regiões rurais. Nas localidades mais pequenas, os serviços de transportes públicos são limitados e há poucos jovens a quem se possa recorrer se um idoso precisar de ir ao médico ou fazer compras.

Um estudo do governo mostrou que 56,6% dos condutores com mais de 60 anos continuam a conduzir. O número cai com a idade, mas é alto entre os mais velhos: 45,7% das pessoas com carta com 75 a 79 anos, e 26,4% das que têm mais de 80 anos mantêm-se firmes ao volante. Ou seja, um em cada quatro octogenários ainda conduz.

Por região, descobriu-se que 72,9% dos que vivem em cidades com menos de 100 mil habitantes e 75,5% dos que residem em aldeias pegam regularmente no volante. Nas cidades maiores, a percentagem é de 50%. Os resultados do estudo vão servir para o governo pensar em medidas de apoio à sociedade envelhecida.

Essa é uma equação complicada de se resolver, mas perante o buzinão dos números, é imperioso agir. Dados da Agência Nacional de Polícia mostram uma queda no total de acidentes de trânsito no Japão, mas uma presença cada vez maior de idosos nas estatísticas.

O ano passado, condutores com mais de 75 anos foram responsáveis por 14,8% do total de acidentes fatais. Há uma década, a percentagem era de 8,7% – quase metade.

Confusão com os pedais

Entre janeiro e abril deste ano, a Agência Nacional de Polícia registou 109 acidentes fatais com idosos, incluindo o atropelamento causado por um ex-funcionário do governo, de 87 anos. Em abril, o carro dirigido por Kozo Iizuka atingiu e matou Mana Matsunaga, de 31 anos e a filha Riko, de 3 anos, quando atravessavam de bicicleta uma faixa para peões em Tóquio. Outras oito pessoas ficaram feridas.

Como na maior parte dos casos recentes de acidentes fatais, o idoso que provocou o acidente diz ter carregado no travão quando viu o grupo de pessoas na passadeira. Mas a perícia técnica constatou que Iizuka se enganou, e que na realidade acelerou ainda mais o carro, atingindo os 90km/h num local em que o limite é de 50km/h.

(CC0/PD) Barna Baris / Unsplash

Mais de 85% dos idosos não tinham registo de qualquer infracção grave até terem um acidente fatal

Em outro caso recente, ocorrido na província de Fukuoka, no sul do país, um carro conduzido por um homem de 81 anos atravessou um cruzamento a alta velocidade, colidindo com outros cinco veículos. O condutor e a esposa morreram no acidente, e outras sete pessoas ficaram feridas. Neste caso, a perícia também constatou que o condutor tinha carregado com firmeza no acelerador em vez do travão, acelerando o carro.

Para lidar com este tipo de erros, uma das propostas do governo é limitar os condutores a certos tipos de veículos, em horários específicos e em certas áreas, além de promover medidas para fornecer opções de transporte.

Já a governadora de Tóquio, Yuriko Koike, anunciou que vai criar um subsídio para aquisição de equipamentos destinados a evitar a aceleração súbita do carro. A proposta é o governo regional cobrir cerca de 90% do custo do dispositivo e da sua instalação, o que baixaria o encargo do condutor para menos de 80 euros.

Devolução da carta de condução

Porém, para muitos japoneses a solução mais eficaz é o idoso deixar de conduzir. Depois de perder a mulher e a filha, o marido de Mana Matsunaga iniciou uma campanha para alertar condutores e familiares sobre os riscos de continuar a conduzir em idade avançada.

“Pensava que iria ver a minha filha crescer e passar os últimos anos da minha vida ao lado de minha mulher. Mas num piscar de olhos, tudo isso desapareceu“, disse Matsunaga, durante uma conferência de imprensa em Tóquio.

A Agência Nacional da Polícia tem encorajado as pessoas a devolverem as cartas. O ano passado, mais de 292 mil condutores com mais de 75 anos responderam ao pedido, um número superior em 38 mil de 2017, e o mais alto registado desde que o sistema de devolução da carta foi criado, em 1998.

Após o acidente que este ano matou Mana Matsunaga e a filha, houve também um aumento do número de cartas de condução devolvidas por idosos, de 3.800 devoluções em abril para 5.800 em maio.

Porém, ainda há muitos idosos com carta de condução. O número de condutores com mais de 75 anos que renovaram a carta triplicou nas últimas duas décadas. Estimativas indicam que, a este ritmo, em algumas províncias em 2030 o grupo de idosos a conduzir será o dobro do de condutores jovens.

Para inspirar mais pessoas a deixar de conduzir, no início do mês o actor Ryotaro Sugi, de 74 anos, entregou a carta de condução ao Departamento de Polícia de Tóquio.

Os automóveis são instrumentos perigosos“, disse o actor. “Se sentir que as suas reacções se estão a tornar lentas, então é melhor considerar a possibilidade de devolver a carta — antes que magoe alguém.”

A última vez que renovou a carta, Sugi tinha 70 anos. Citando dados da Agência Nacional de Polícia, especialistas salientam que mesmo que a pessoa se sinta bem na altura do teste de saúde para a renovação da carta, a condição física pode mudar vertiginosamente.

Do total de idosos envolvidos em acidentes fatais em 2016, descobriu-se que, no seu histórico, mais de 85% não tinham registo de qualquer infração grave até então.

Foram estes dados que levaram Toyoharu Kurihara a refletir. Em fevereiro, o empresário renovou a carta, depois de passar por todos os exames médicos exigidos. Naquele momento, estava confiante de que conseguiria manter a sua fama de condutor prudente. Mas a divulgação da série de acidentes com idosos levou-o a mudar de opinião.

“Decidi desfazer-me mesmo do próprio carro porque, por mais que não o usasse para ir trabalhar, acabaria por pegar no volante para outros fins“. Para não correr o risco, Kurihara desfez-se do veículo. “Descobri que ficar sem carro não é assim tão mau. Na minha idade é até bom, porque assim exercito as pernas. Está a ser bom para a saúde.”

A sua carta ficará guardada como lembrança dos quase 60 anos da história como condutor.

// BBC

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