Entrevista: “Amigos meus falam em dar um tiro na cabeça. Eu espero não fechar, mas…”

Daniel Correia, proprietário do Café Onital, no Porto

As novas medidas de confinamento estão quase a entrar em vigor e vão afetar muito a restauração. Contactámos o proprietário de um dos cafés mais conhecidos no Porto. 38 anos depois de ter começado a trabalhar naquele local, Daniel Correia pode em breve encerrar o espaço, mas prefere reinventar o Café Onital.

ZAP – As bebidas, incluindo café, vão deixar de ser vendidas ao postigo. As pessoas vão deixar de poder estar a comer ou a beber junto aos estabelecimentos do ramo alimentar. Estás contra essas medidas, Daniel?

Daniel Correia (DC) – Há muito tempo que estou contra as medidas do nosso Governo. Há lacunas na lei. Era proibido entrar no nosso espaço, tudo tinha de ser servido à porta ou no postigo. Mas o que aconteceu ao longo deste tempo? As confeitarias e padarias abusaram e serviam as pessoas dentro do espaço. Aqui o cliente não entra, nem contacta connosco. Pede um café, levamos à porta ou à janela, não há contacto. Há segurança para quem trabalha e para quem consome. Se as pessoas não podem estar na via pública, cabe às forças de segurança zelar por isso. Há muita gente que não passa sem um café. Eu não passo sem um café. Em estabelecimentos como o meu, não havia qualquer problema em trabalhar assim, em servir à janela ou à porta. Aliás, trabalhei assim durante dois meses e meio e não houve problema algum. Eles agora criaram um problema: uns podem, outros não podem. Pagamos todos.

ZAP – Portanto, entendes que devem ser tomadas medidas para proteger as pessoas, mas não consideras que é nos cafés que o vírus se propaga mais. Tendo em conta as medidas de segurança que o teu estabelecimento adota e que outros espaços adotam.

DC – Exatamente. Desafio qualquer governante, qualquer político, a vir cá e que diga se, com estas condições, o vírus pode entrar aqui. Temos cinco janelas, uma porta, extração de fumos, exaustão de fumos e de tiragem de fumos, ar condicionado, com uma redução drástica de número de mesas… Não há perigo algum. Não há qualquer médico, inspetor da ASAE, inspetor da Câmara Municipal ou força policial que diga que esta casa constitui um perigo para a saúde pública. Não.

ZAP – Muitos estabelecimentos cumprem as regras mas há muitos que não cumprem. Defendes uma maior fiscalização?

DC – Defendo isso desde início. Num dia, fui duas vezes à esquadra e ligámos à Polícia Municipal, e várias pessoas ligaram à Polícia Municipal, para verificarem se espaços como o meu estão a trabalhar de acordo com a lei. Não há forças de segurança nas ruas, há muito poucos polícias na rua a fazerem fiscalização. E mais: muitos deles não sabem o que estão a fazer, não estão atualizados, não conhecem a lei. Já me aconteceu três vezes uma autoridade dizer-nos que não podia fazer isto ou aquilo; nós respondemos, mostramos que podemos fazer as coisas; eles ligam para superiores, pedem desculpa e vão embora.

ZAP – Dizes que parece que quem trabalha ou quem quer trabalhar é que é um criminoso. Podes explicar esta ideia?

DC – Nós queremos trabalhar com segurança. Queremos produzir e temos contas para pagar. Temos a nossa empresa fechada ou aniquilada. Mas quem quer trabalhar, não pode. Não nos deixam trabalhar.

ZAP – Conheces empresas do teu ramo que já fecharam ou que estão quase a fechar?

DC – Muitas, muitas, muitas. Umas eram bares, não podiam abrir e fecharam mesmo. Outras não abriram por causa do lei do arrendamento. Outras por causa do turismo. Ou pandemia. Variadíssimas razões. Pessoas que andaram e andaram até ao limite, mas preferiram fechar o espaço porque não dava mais. O último exemplo: uma drogaria que existia aqui há 75 anos, os senhores estavam lá há mais de 50 anos, os filhos não quiseram ficar com o negócio e a drogaria fechou. Hoje não temos uma drogaria aqui na zona. As pequenas empresas, como a minha, só sobrevivem quando a família dá suporte. Em vez de ganharmos um bom ordenado, ganhamos aquilo que sobra.

ZAP – Tens relatos de pequenos comerciantes que estejam numa crise psicológica?

DC – Não preciso de relatos: eu sou um desses casos. Qualquer dia…eu não sei. Há um desgaste emocional e físico muito grande neste ramo. Além disso, tens uma família por trás, tens filhos. O que posso pensar? O negócio não funciona, o filho tem problemas na escola, o não poder fazer isto, o desgaste, as faturas da luz e da água… As pessoas não imaginam mas quem tem uma casa como a nossa tem duas vidas: profissional e pessoal. Eu tenho pagamentos enquanto empresa e tenho pagamentos enquanto cidadão Daniel Correia. E tenho casos de amigos que me dizem: “Ó pá, eu não sei, qualquer dia dou um tiro na cabeça!”. Isto começa a ser demais, as pessoas não sabem o que hão de fazer. E é assim, houve muita gente que também abusou com o turismo, principalmente no Sul. O turismo foi-se e agora muita gente está endividada. Fizeram investimentos, não conseguem rentabilizar os espaços, os espaços estão fechados. Os pagamentos aos bancos estão parados mas eles vão ter que os pagar. Outros já venderam por metade do preço que compraram e isto leva à loucura das pessoas. O ser humano tem uma capacidade de sofrimento…até um determinado limite. Chegam a uma altura e fragilizam.

ZAP – Como estão as contas da casa desde março do ano passado?

DC – Quebras de 60 a 70 por cento.

ZAP – Estás a trabalhar aí há 38 anos. Quando as novas medidas forem aplicadas, vais fechar o café?

DC – Para já, ainda estou à espera das medidas. Temos que ler as alíneas todas, ler tudo muito bem. Fechar mesmo, não me passa pela cabeça. O Onital é a menina dos meus olhos. Posso perder muita coisa, o Onital não. Ando aqui desde os meus 13 anos, cresci aqui. Fechar temporariamente, com certeza. Não posso estar aqui a trabalhar só para pagar despesas. Não faz sentido estar aqui, com estas novas medidas. Vamos lutar para não chegar ao ponto de fechar. Vamos ter que nos reinventar (e não é contornar a lei, não é fazer coisas ilegais). Vamos apostar ainda mais no take-away e inicialmente optarei por servir só almoços e jantares, se der. Se não der, fecharei durante algum tempo, que é isso que eles querem que a gente faça. Eu podia continuar a trabalhar, para satisfazer as necessidades de quem anda por aqui. Os clientes que me conhecem, alguns deles há dezenas de anos. É que, no meio disto tudo, as pessoas ficam doidas em casa. Precisam de falar um bocadinho com alguém, de se distrair. Tanto eu como o cliente. A solidão leva à loucura, a solidão leva a que as pessoas se matem. Se não houver um ombro amigo com quem desabafamos… O homem do café serve para desabafar, o homem do talho serve para desabafar. Há pessoas que têm filhos que não querem saber delas. Eu podia muito bem ter uma palavra amiga para quem tem necessidade de falar.

Entrevista completa:

Nuno Teixeira Nuno Teixeira, ZAP //

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