Não é só na sua cabeça. O efeito Mandela é real — e muito difícil de explicar

Abode of Chaos / Flickr

O fenómeno refere-se a memórias falsas colectivas, como a suposta morte de Nelson Mandela na prisão durante os anos 90. Há vários exemplos de imagens e frases falsas de que a maioria das pessoas se lembra — mas a razão para este efeito continua sem explicação.

Se lhe pedir agora para descrever o Rich Uncle Pennybags — e pesquisar no Google é batota —, a famosa mascote do jogo Monopólio, o que vai dizer? Provavelmente, vai referir a cartola, o bigode, o fato, a bengala ou o monóculo

E se agora lhe disser que, na verdade, o boneco nunca teve um monóculo? Se acha isto difícil de acreditar, então parabéns: é mais uma das vítimas do efeito Mandela.

Este conhecido efeito que já inspirou muita discussão na internet refere-se a quando muitas pessoas têm colectivamente as mesmas memórias falsas. Será que estamos todos a ficar malucos?

O efeito não foi baptizado assim por acaso, já que uma memória falsa relacionada com Nelson Mandela foi que despoletou toda esta discussão.

A investigadora de fenómenos sobrenaturais Fiona Bromme decidiu dedicar-se à exploração do efeito depois de ter comentado que achava que Nelson Mandela tinha morrido na prisão nos anos 90. Acontece que muitas outras pessoas partilhavam essa memória falsa e que algumas até diziam que viram o seu funeral na televisão.

Na verdade, Mandela estava ainda vivo e só morreu em 2013, aos 95 anos. Desde então, Fionna escreve sobre o assunto e reúne exemplos no seu site. Entre famosas frases da Guerra das Estrelas, canções dos Queen ou até o enigmático sorriso da Mona Lisa, já vários exemplos foram adicionados à lista do efeito Mandela.

As teorias da conspiração associadas ao efeito também são quase infindáveis, com alguns a acreditar que é uma prova de que entramos num Universo paralelo practicamente igual ao anterior e que estas pequenas mudanças são as únicas falhas na transição. Afinal, será mesmo possível que todos nos lembremos de coisas que nunca aconteceram? O que explica este fenómeno?

Fascinados com este fenómeno, foi para responder a estas questões que um grupo de investigadores da Universidade de Chicago decidiu pôr mãos à obra.

Num estudo publicado na Psychological Science, os autores pediram aos participantes que vissem logótipos, mascotes ou personagens que eram exemplos efeito Mandela, estando as imagens verdadeiras ao lado de várias imagens falsas. A amostra foi também exposta a imagens que não eram exemplos do efeito Mandela, para se comparar os resultados.

Os participantes tiveram de seleccionar a imagem que acreditavam ser a original e quantificar a certeza que tinham na sua escolha, assim como estimar quantas vezes já tinham visto a imagem em questão, explica o IFLScience.

A figura só seria um exemplo do efeito Mandela visual (VME) se fosse lembrada erradamente consistentemente, se os participantes tivessem confiança na sua escolha e se a mesma imagem errada fosse escolhida por grande parte da amostra.

Curiosamente, nos casos que já eram exemplos famosos do efeito Mandela na internet, as imagens erradas que se popularizaram online foram escolhidas “numa proporção significativamente maior” do que as originais.

De seguida a equipa mostrou as imagens certas aos participantes e pediu-lhes que as analisassem, sem lhes dizerem que teriam mais tarde de se lembrar de detalhes destas. Quando foram posteriormente questionados sobre qual era a imagem certa e qual era a manipulada, as fotos falsas continuaram a ser geralmente escolhidas em detrimento das verdadeiras que tinham acabado de ver.

Numa outra experiência, os participantes tiveram de desenhar as imagens e mesmo assim continuaram a dar uma cauda preta ao Pikachu quando a cauda deste foi sempre amarela ou a acrescentar uma cauda ao George o Curioso.

“Estes resultados indicam que estas sete imagens (C3PO, George o Curioso, logótipo da Fruit of the Loom, homem do Monopólio, Pikachu, logótipo da Volkswagen e Waldo tinham não só uma precisão abaixo do esperado, mas também que há imagens incorrectas específicas que são reconhecidas erradamente como as originais. Por isso, estas sete imagens foram descritas como aparentemente-VME”, lê-se no estudo.

Universidade de Chicago

Exemplos do efeito Mandela

Para além disto, os autores relembram que a precisão na escolha das imagens certas foi “surpreendentemente baixa” dada a familiaridade que os participantes reportaram ter com estes símbolos.

Uma hipótese que pode responder a este mistério é a teoria do esquema, que sugere que os nossos cérebros pessoas preenchem lacunas de informação de acordo com as nossas expectativas — não nos lembramos ao certo do homem do Monopólio e acrescentamos o monóculo por o associarmos a velhos capitalistas.

No entanto, esta resposta tem falhas, já que no caso do logótipo da Fruit of the Loom, a maioria dos participantes escolheu a imagem com uma cornucópia em vez da imagem com um prato, o que não faz sentido já que os pratos são geralmente mais associados à fruta do que as cornucópias.

Por causa disto, a resposta a este misterioso efeito continua por se descobrir. Talvez tenhamos mesmo entrado num Universo paralelo sem darmos conta. Quem sabe?

  Adriana Peixoto, ZAP //

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